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Londrina

TEATRO/ CRÍTICA

m de leitura Atualizado em 24/06/2022, 19:43

'Stabat Mater', no Filo, mostra as porradas e as ternuras femininas

Apresentado nesta edição do festival, o espetáculo é forte, potente e instiga a coragem ao colocar o dedo nas feridas femininas

PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 24 de junho de 2022

Celia Musilli - Editora
AUTOR autor do artigo

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Assisti ao espetáculo "Stabat Mater", da atriz, diretora e dramaturga Janaína Leite, apresentado  no Filo - Festival Internacional de Londrina - em duas sessões. Forte e potente.

Assisti nas arquibancadas de madeira do teatro, incomodada com as dores fisicas -  comuns em quem tem mais de 60 anos - e com as dores psicólogicas ancestrais das mulheres.

"Stabat Mater",  que significa "a mãe lá estava" em latim - é um documentário cênico, como outros trabalhos de Janaína, que mostra as feridas femininas e expõe o machismo em carne viva.

Janaína Leite tem o documentário cênico como linha de pesquisa Janaína Leite tem o documentário cênico como linha de pesquisa
Janaína Leite tem o documentário cênico como linha de pesquisa |  Foto: Andre Cherri/ Divulgação
 

Às vezes em forma de palestra, às vezes como bate-papo com a atriz saindo (?) de cena para instigar a plateia, às vezes em formato multimídia, com projeção de vídeos, a montagem se impõe principalmente por uma atitude: a coragem.

A atriz resgata um estupro sofrido na adolescência e o estupro permeia todo o espetáculo, assim como o incesto,  tabu tingido com as cores bíblicas das filhas de Ló, que se embeberam para transar com o pai e garantir a descendência. Tabu também no cotidiano de famílias comuns, escondido nas vicissitudes e nas misérias do cotidiano,  nos sertões ou  aqui mesmo em Londrina, através de gerações, em qualquer tempo.

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Baseado num texto teórico da filósofa e psicanalista búlgara Julia Kristeva, o espetáculo traz um questionamento cultural, social e religioso, mostra as mulheres em duas pontas: como a virgem ou a "perdida". Traz uma análise instigante de como a palavra Virgem, para designar Maria, pode ter sido traduzida erroneamente, sendo na verdade um termo que designaria a solidão ou a condição de solteira. Tema para teólogos e outros especialistas que está na base de todo um questionamento feito em cena.

A montagem coloca em discussão a condição da mulher, na ancestralidade ou bem aqui, no mundo contemporâneo, a partir da relação mãe e filha. Um ponto alto do espetáculo é que Janaína Leite contracena com sua própria a mãe, a  não-atriz Amália Fontes Leite, num percurso que já dura anos, desde a estreia em 2019, e que atravessa a jornada das lutas feministas. Há uma cena em que a atriz afirma que os homens da plateia, convidados a interagir com ela, se recusam a lhe dar um tapa no rosto como ela pede. A atriz comenta bem-humorada: "O feminismo acabou com isso."

"Stabat Mater" é sobre o feminino de ontem e de hoje, é sobre os traumas revisitados por Janaína e sobre nossos próprios traumas. Que atire a primeira pedra quem não sentiu uma dorzinha oculta que também "entra em cena" quando acompanhamos a dor coletiva de tantas "maters dolorosas", santificadas ou não. A montagem ainda enfia o dedo na ferida da "culpa" de ser mãe.

A representação psicanalítica no espetáculo se mistura à rotina das mulheres que nem sabem que Freud criou a expressão "romance familiar", sobre os fantasmas que rondam a convivência de pais, mães, filhos e filhas que podem desaguar em atos de afeto ou violência. A marcação simbólica  e autobiográfica é feita com elementos marcantes, como as máscaras, aquelas que ocultam o que também sentimos e não temos coragem de expor.

A porrada no machismo vem na exposição da pornografia "criada por homens", como está bem dito. Mas as posições pornográficas se invertem quando a atriz, que não é pornográfica, comanda a cena com atores de filmes pornô que encarnam o Príapo da mitologia grega, o grande macho sempre ereto.

"Stabat Mater" não cabe num artigo, seria necessário no mínimo um ensaio.  O espetáculo é para ser digerido aos poucos e dificilmente chegaria a Londrina não fosse pela curadoria de um festival de teatro que trata a arte como meio de  reflexão e transformação há 52 anos. Sem os festivais na cidade dificilmente teríamos essa curadoria. Restariam os espetáculos globais, alguns até bons, mas o teatro ainda seria lugar de diversão e não de debate.

O teatro psicanalítico de Janaína Leite é para quem tem a coragem de sentir as próprias dores para elaborá-las como a luz no fim do túnel dos traumas pessoais ou coletivos. Em alguns momentos, incomodada, vacilei.

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