Roda de recordações
Ela não saía de casa e ele não passava dia sem ir pitar no seu banco na praça diante da Pernambucanas,
PUBLICAÇÃO
sábado, 29 de agosto de 2026
Ela não saía de casa e ele não passava dia sem ir pitar no seu banco na praça diante da Pernambucanas,
Domingos Pellegrini 

O primo Bernardo Pellegrini reuniu os primos em almoço com polenta regada com frango ao molho, para despedida da casa, agora vendida, onde moraram os nonos Paulina e José. A prima Renata levou uma cocada ótima e assim enchemos a barriga de delícias e a cabeça de recordações.
Lembramos do Nonno a fazer seu palheiro, com fumo de corda que ele picava em tabuinha abaulada de tão usada, depois colocava no retalho de palha de milho já alisado pelo canivete, e enrolava, amarrava com uma fitinha também de palha, assim cada cigarro era um artesanato caprichado, complementado por escarradeira com pó-de-serra. Os dois não tragavam a fumaça, só pitavam; e o nonno pitava o seu na varanda, a nonna na cadeira onde ouvia novelas de rádio com as pernas descansando noutra cadeira e as mãos tricotando.
Cada qual tinha na casa seu recanto próprio. Dela era a cozinha com o fogão a gás mas ainda sem geladeira, e no guarda-comida de madeira ficavam o feijão e o arroz crus, o fubá e as farinhas, o queijo no seu prato e a manteiga no seu pote, e dali saíam pontualmente as refeições. Para isso o nonno ia todo dia ao açougue comprar carnes, à padaria comprar pão e toda semana à feira para comprar frutas e saladas, um completando o outro.
Ele comia frutas no almoço, e um dia perguntei porque descascava as laranjas numa fita só, ela quem respondeu:
- É porque assim fica mais difícil, ele gosta de coisa difícil.
O recanto dele na casa era a oficina, em casinha no fundo, onde com torno e ferramentas fazia consertos de tudo que enguiçasse e transformava latas em canecões que dava aos amigos. Ela não saía de casa e ele não passava dia sem ir pitar no seu banco na praça diante da Pernambucanas, e um dia perguntei porque ali, ele pensou-pensou e só respondeu no dia seguinte:
- Acho que é porque a Pernambucanas tá lá desde antes da gente chegar aqui.
Nas férias escolares netos crianças vinham de outras cidades, brincavam juntos meninos e meninas, e no Natal era uma farra abrir os embrulhos debaixo da árvore natalina. Na Páscoa levantávamos cedinho para procurar onde o Coelho tinha escondido os ovos. Quando os primos maiores contaram que não existem Papai Noel nem Coelho da Páscoa, os outros ficaram muito chateados mas a nonna disse ah, eles podem continuar existindo sim, dentro da cabeça.
Dentro da cabeça ficaram as recordações, que agora os primos trocamos, uns lembrando da nonna a benzer crianças contra quebranto e mau-olhado, outros lembrando do nonno a na manhã de Natal matar e descarnar porco no fundo do quintal. No benzimento, ela passava dedo molhado na testa da criança mau-olhada, que já parava de chorar. Na matança do porco, ele enfiava fundo a faca no ponto certo, e o porco nem chegava a gemer. Tudo simples, tudo rápido, tudo mágico.
A palavra “recordações” vem do Latim “cordis”, coração, ou seja, lembrar com sentimento, e assim tivemos nossos nonnos vivos de novo,


