Revogue-se o pessimismo com pó de pirlimpimpim
Esperemos que as escolas infantis perpetuem cantigas, embora seja difícil perpetuar-se o pique-salva nas ruas transitadas de hoje.
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sábado, 17 de outubro de 2026
Esperemos que as escolas infantis perpetuem cantigas, embora seja difícil perpetuar-se o pique-salva nas ruas transitadas de hoje.
Domingos Pellegrini 

“Quando eu era pequeninho / do tamanho de um botão / levava papai no bolso / e mamãe no coração”: na antiga quadrinha infantil, ser do tamanho de botão só é possível para dar rima com coração, mas as cantigas infantis não precisam de lógica, só de mágica.
Numa rua de minha adolescência, vivi a graça de com os meninos brincar de pique-salva, enquanto perto na mesma calçada meninas brincavam de passa-anel ou pular corda. Às vezes elas cantavam “Teresinha de Jesus, de uma queda foi ao chão”... ou “se esta rua, se esta rua fosse minha”... ou ainda “alecrim dourado que nasceu no campo sem ser semeado”...
Esperemos que as escolas infantis estejam perpetuando essas cantigas, embora seja difícil perpetuar-se o pique-salva nas ruas tão transitadas de hoje. As brincadeiras de roda, como também o pique-salva, ensinavam o tesouro mais precioso das civilizações, das empresas e das famílias, a cooperação. Muitos animais e peixes caçam juntos e convivem, como os tubarões que em grupos cercam e caçam golfinhos, ou os golfinhos que fazem o mesmo com cardumes de peixes menores. Mas só os humanos conseguem criar cooperações gigantescas como cidades e países, inclusive com cooperativas imensas e religiões e crenças internacionais.
O otimismo vê que o evidente isolamento das pessoas em seus celulares é compensado pelas possibilidades de comunicação instantânea com gente à distância, algo impensável até há poucas décadas.
O pessimismo porém vê que as tecnologias propiciam mais concentração de poder do que nunca antes – mas quando foi que os problemas não motivaram soluções e evolução? As democracias vieram de reinados, passando por ditaduras, mas, enquanto os regimes e líderes autoritários estão sempre sendo contestados ou superados o cooperativismo solidário cresce no mundo.
“Põe aqui o teu pezinho / bem juntinho ao pé do meu”, convida a cantiga, e as parcerias se consagram nos meios empresarial e cultural, desde O Gordo e O Magro até a Nasa e Elon Musk em cooperação e competição simultâneas.
Decerto a IA não vai dominar o mundo, apenas mudar o mundo como em seu tempo fizeram a fundição, que nos tirou da Idade da Pedra, os tijolos com que fizemos cidades, o navio a vela, o livro, a máquina a vapor, o telégrafo sem fio, o fogão a gás que nos livrou da fumaça e por isso mesmo nem mais lembramos dos milenares fogões a lenha.
Só o ser humano cultiva vícios – e virtudes. Temos trilhonários e mendigos. Alguns cultuam santos, outros idolatram pilantras. Diversidades e contradições são próprias dos humanos, e entre umas e outras vamos caminhando, nem para a redenção nem para o apocalipse.
Ou conforme a antiga cantiga, podemos ter otimismo porque, se o cravo brigou com a rosa debaixo de uma sacada, e o cravo saiu ferido e a rosa despedaçada, o cravo ficou doente mas a rosa foi visitar, o cravo teve um desmaio e a rosa pôs-se a chorar, daí a rosa fez serenata e o cravo foi espiar, e as flores fizeram festa porque eles vão se casar.
Essa cantiga parece exemplar da nossa capacidade de superar, reiniciar aprendendo, desenvolver soluções a partir de problemas, até porque soluções só existem a partir de problemas. Lamentável mesmo é só que tornaram-se raros os quintais com suas árvores acolhedoras de crianças, enquanto as ruas passaram a ser domínio quase exclusivo dos carros. Se eu fosse presidente da República da Infância, decretava que toda casa deveria ter quintal, todo quintal deveria ter árvores e toda rua deveria ter sossego de tardinha para brincarem os meninos e meninas, revogadas com pó de pirlimpimpim todas as resoluções em contrário.


