Às vezes me é difícil entender as pessoas. Numa roda em pousada, cada um foi falando de onde era. De São Paulo, “a maior cidade da América Latina”. Do Rio, a “Cidade Maravilhosa”, ou da “Capital dos Pinhais”... e eu?

Sou de Londrina, falei, e ficaram me olhando como a esperar mais.

Aí repeti que sou só de Londrina, mas emendei: uma cidade de mais de meio milhão de almas onde há menos de século era só floresta.

Mas ali, contei, uma empresa começou o que nenhum governo jamais fez, uma reforma agrária pra valer, com minifúndios a pagar a prazo com preços honestos, todos com estrada na frente e água corrente no fundo, em terra-vermelha da melhor do mundo, tanto que atraiu gente de trinta países e do país todo.

Ali judeu bateu enxada ao lado de alemão, japonês aprendeu a comer feijão preto e preto trabalhando podia virar patrão. É, contei, menino vi saqueiro dizer a meu pai barbeiro, todo feliz, que tinha comprado um sitinho pra viver não mais de carregar mas de plantar café.

E deu tanto café que Londrina ficou conhecida como Capital Mundial do Café, diziam de boca cheia, e também diziam que o dinheiro corria que só vendo, e eu menino procurava, cadê o tal dinheiro correndo?

O café deu tanto dinheiro quanto impostos e, como era o maior produto brasileiro de exportação, sustentou muita obra pública no país inteiro, inclusive aumentando pra valer o Porto de Paranaguá. Mas, como está em região intertropical, vinham geadas que castigavam os cafezais. Aí os pés-vermelhos metiam de novo as mãos na terra pra replantar, e Londrina continuou dando café pro Brasil de um jeito que nem guerra desanimava.

Menino brinquei de búrica e de bétis em rua de terra no centro, a Rua Maranhão, que quando rapazola já era de paralelepípedos e depois de asfalto. Como em também em poucos anos Londrina foi cidade de ranchos, depois de casas de madeira, uma cidadezinha de peroba, onde depois os sobrados e predinhos viraram edifícios como se brotando da terra com a chuva, até virar o que chamam de metrópole.

Mas em 75 a geada-negra não deixou vivo sequer um pé de café, e Londrina parecia que ia parar. Mas não parou foi de receber gente da região toda, junto com Maringá as duas únicas cidades da região a continuar crescendo. E acolheu tanta gente que precisou crescer pros lados, com conjuntos habitacionais onde a Cohab nacional muito aprendeu.

Mas foi numa vilinha, da Fraternidade, que funcionou um dos primeiros postos do que seria o maior sistema de saúde do mundo, o SUS. Depois, enquanto as capitais do país nas eleições apoiavam a ditadura, Londrina sempre votava na oposição apostando na democracia.

Em 59, um prefeito mandou fazer o Lago Igapó que muitos acharam “longe demais” mas a cidade logo envolveu com bairros, transformando num baita parque. Porque Londrina é a capital da transformação, inclusive de gente, com mais universidades que os dedos das mãos.

E... aí parei e ninguém falou mais, fiquei pensando se não falei demais. Mas fazer o que? Não sou só de Londrina, sou mais é de Londrina, sô!

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