Quando a mentira é mais convincente do que a verdade
Em “O Adversário”, o escritor francês Emmanuel Carrière retrata um crime real realizado por um contumaz mentiroso
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 02 de novembro de 2026
Em “O Adversário”, o escritor francês Emmanuel Carrière retrata um crime real realizado por um contumaz mentiroso
Marcos Losnak/ Especial para a Folha 

Às 3 horas da madrugada, bombeiros atenderam um chamado de incêndio.
Vizinhos avisaram que uma residência na pequena cidade francesa de Prévessin-Moënsf, próxima da fronteira com a Suíça, estava em chamas. Dos escombros, os bombeiros resgataram um homem em estado grave por inalação de fumaça e três corpos carbonizados.
O homem resgatado, Jean-Claude Romand, permaneceu em coma por vários dias. Médico adorado pela comunidade local por sua simpatia e prestatividade, trabalhava em Genebra como pesquisador na Organização Mundial da Saúde. Sua esposa e os filhos, uma menina de 7 anos e um garoto de 5, morreram no incêndio.
O que parecia uma tragédia de sinistro, se revelou um crime hediondo. Na autópsia, peritos descobriram que esposa possuía lesões de espancamento na cabeça. As crianças tinham perfurações de bala pelo corpo. Quando a polícia foi até a casa dos pais de Jean-Claude, para comunicar a tragédia, encontrou os dois mortos com tiros de espingarda de caça.
Ao saiu do coma, Jean-Claude contou uma história mirabolante sobre os acontecimentos. Em poucos dias os investigadores descobriram que o sujeito vivia sob o manto da mentira. Constataram que ele tinha abandonado o curso de medicina logo no primeiro ano, portanto não era médico. E nunca havia trabalhado na Organização Mundial da Saúde. Sua vida era uma descomunal farsa.
Leia mais:
DA REALIDADE À LITERATURA
O fato aconteceu em 9 janeiro de 1993, causando grande comoção popular na França. Jean-Claude Romand matou a esposa usando um pau de macarrão enquanto ela dormia. Em seguida matou os dois filhos, uma menina de 7 anos e um garoto de 5, com tiros de espingarda. Matou também o cachorro da família. Depois pegou o carro e foi até a casa de seus pais e matou ou dois, com a mesma espingarda. Logo após, retornou para casa, tomou uma dose cavalar de medicamentos, espalhou gasolina e colocou fogo na residência.
O crime rendeu meses de televisão na época. Mas também deu origem ao livro “O Adversário” do escritor francês Emmanuel Carrière lançado recentemente pela editora Alfaguara. A obra oferece uma visão particular do crime. Muito mais do que o crime, um desenho dos personagens envolvidos. Uma história que revela, categoricamente, como a mentira é mais convincente do que a verdade.
Carrière não retrata apenas a investigação e reconstituição de um crime bárbaro. Revela outra camada na história: a estratégia de um sujeito para enganar os pais, a universidade, os parentes, os amigos, a esposa, os filhos, a amante e toda uma comunidade. E como viveu como um personagem ficcional ao longo de 20 anos sem que ninguém suspeitasse da farsa.
Jean-Claude Romand passou anos na universidade sem fazer o curso de medicina. Passou anos e anos na Organização Mundial da Saúde sem nunca ter trabalhado no órgão. A primeira pergunta que apareceu foi: se ele não tinha um emprego, de onde vinha o dinheiro para manter uma vida de família de classe média alta?

O MAPA DAS MENTIRAS
Mas tudo isso é só o começo da história. Carrère retrata todo o processo de julgamento e a condenação. As situações mais improváveis brotam como erva daninha do chão: o mentiroso, assassino de três adultos e duas crianças, consegue conquistar uma legião de corações em nome do arrependimento. Admitindo ser um pecador, deixa de ser odiado para ser amado. E ninguém suspeita que poderia se tratar de mais uma farsa criada por um mentiroso contumaz.
O mapa das mentiras de Dr. Romand começa no primeiro ano do curso de medicina. Ao perder uma prova, inventa uma mentira. Para sustentar essa mentira, cria outra. Para sustentar essa outra mentira, inventa mais uma. Para não parecer um mentiroso, dobra a aposta e dobra a aposta, mentira sobre mentira, até estar preso em uma teia gigantesca irreversível.
Ao criar e sustentar por 20 anos o personagem Dr. Romand (cidadão exemplar, pai de família, residindo em um bairro nobre, trabalhando em um alto emprego), teve tudo que desejava. Quando viu que tudo estava prestes a rir, matou quem mais poderia sofrer com suas mentiras. Retirou da esposa, dos pais e dos filhos a grande frustação que teriam. Evitou o possível sofrimento que poderiam ter matando um por um.
Em “O Adversário”, Emmanuel Carrère realiza algo parecido com que o jornalista norte-americano Truman Capote (1924 – 1984) fez em seu livro mais conhecido, “A Sangue Frio”. Entrevistando e trocando cartas, Carrère estabelece uma estreita relação com o assassino. E no final duvida de tudo: “Tenho certeza de que ele não faz mais teatro algum para as outras pessoas, mas será que o mentiroso que existe dentro dele finge para si mesmo?”
No começo de outubro Emmanuel Carrère esteve no Brasil para divulgar seus livros. Realizou palestras no Rio de Janeiro e em São Paulo. O título do livro, “O Adversário”, se refere ao adversário do Deus na mitologia bíblica, conhecido por vários nomes, mas originalmente chamado de Lúcifer.
SERVIÇO:
“O Adversário”
Autor – Emmanuel Carrère
Editora – Alfaguara
Tradução – Mariana Delfini
Páginas – 176
Quanto – R$ 79,90 (papel) e R$ 34,90 (e-book)





