Viviane Mosé lota o Ouro Verde com 'Um Sim À Vida'
Encerramento do Festival de Dança de Londrina leva um banquete de filosofia ao palco com a plateia lotada neste sábado (31)
PUBLICAÇÃO
domingo, 01 de novembro de 2026
Encerramento do Festival de Dança de Londrina leva um banquete de filosofia ao palco com a plateia lotada neste sábado (31)

A psicanalista estava no palco, a filósofa e a poeta também. Mas foi como pessoa de primeira grandeza que Viviane Mosé apresentou ao público neste sábado (31) "Um Sim à Vida", no encerramento do Festival de Dança de Londrina.
Foi um monólogo mas também uma conversa, de olho no olho, na qual Viviane fala à plateia, mas sobretudo a cada um, numa conexão que transborda intimidades de dor e de amor. O espetáculo, que estreou em janeiro de 2026 em São Paulo, é um banquete de reflexão sobre a existência humana.
Uma proposta que é também um desafio ao combinar filosofia, psicanálise e literatura, da virada do século 19 para o 20, chegando ao 21 para fazer uma crítica da contemporaneidade sem perder a ternura.
Enquanto cita Nietzsche trazendo Zaratustra à cena, ela coloca a arte naquele lugar transgressor de respeito, porque o artista é um revolucionário, um incendiário que o mundo rejeita, mas a vida acolhe, porque a vida não é feita de meias atitudes nem de meias palavras, é totalizadora por natureza.
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No centro do palco, Viviane afirma que a vida transforma, a arte transforma, e a plateia atenta a quase duas horas de espetáculo apreende o que não se aprende apenas nos livros, mas na vivência que testa nossa capacidade de sentir alegria ou angústia, no jogo da aceitação ou rejeição, que marca nossas trajetórias nos bons e nos maus momentos.
DO ENCOLHIMENTO À REVERÊNCIA
São necessários muitos filósofos para tentar compreender porquê nos curvamos diante da vida ou a reverenciamos. A existência que pesa é a mesma que nos dá asas, e o espetáculo de Viviane Mosé nos traz este dilema sem soluções mágicas, mas oferecendo um vislumbre dos pontos de equilíbrio e desequilíbrios na corda bamba da vida, esticada simbolicamente com fita adesiva no palco. Estamos todos na mesma corda bamba ou no mesmo barco. Tudo depende do ângulo, das escolhas, do nosso ponto de vista para vislumbrar o infinito do universo e também o buraco fundo do infinito de nós mesmos.
Viviane assim explica os mundos, dentro e fora. Mostra ao público como nos movemos sob o peso da civilização feita de palavras, de narrativas, mas vale mesmo o resgate de nós mesmos, de nossas histórias, memórias, marcadas pelos afetos e seu desenho próprio em nosso corpo e nossa mente.
No espetáculo há uma crítica à contempotaneidade insatisfatória, ao desejo de consumo para deixar claro o que realmente importa, e não é o carro do ano, a harmonização facial, o acúmulo de bens, mas a reverencia de existir e andar pela Terra como quem pisa a imensidão do sagrado. Ela afirma que é "uma honra" a gente andar por aí.

BANQUETE DE FILOSOFIA
São muitos filósofos no palco, de Nietzsche a Schopenhauer, de Shopenhauer a Kant para explicar que a razão não basta, que o afeto conta, que a potência humana é a sensibilidade que transborda, como o rio represado que vira a hidrelétrica do nosso desejo de luz.
"Um Sim a Vida" é a combinação da vida e obra de Viviane Mosé, enquanto psicanalista, filósofa e poeta. E, sobretudo, é o espelho de sua sedução pela existência, esse punhado de amor e angústia que nos torna descontroladamente humanos.
"Um Sim à Vida" é feito de muitos capítulos e muitos passos, de filosofia, pisicanálise e poesia. Não é possível compilar o espetáculo. É preciso vivê-lo, não como plateia, mas como pessoas, assim como Viviane não é personagem, mas uma mulher que atravessa a História humana para desembocar em passagens reais de sua própria história, com uma entrega que emociona pela delicadeza de se despir em público deitada ela mesma no divã.


Celia Musilli
Jornalista





