Projeto de Herzog é retomado em documentário londrinense
Filme “Antonio e Vladimir”, de Maikon Nery, será tema de bate-papo no Sesc Cadeião nesta quarta (19), com participação especial de Elvira Alegre
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 17 de novembro de 2025
Filme “Antonio e Vladimir”, de Maikon Nery, será tema de bate-papo no Sesc Cadeião nesta quarta (19), com participação especial de Elvira Alegre
Pamela Destacio - Especial para a FOLHA 

Cinquenta anos após o assassinato de Vladimir Herzog, a história do documentário que ele pretendia realizar sobre Antônio Conselheiro ganha atenção. O projeto interrompido é retomado em “Antonio e Vladimir”, filme de Maikon Nery, e será tema da atividade “Roteiro Aberto”, que ocorre nesta quarta-feira (19), às 19h, no Sesc Cadeião Cultural.
Descrito pelo diretor como “um ato em memória de Vlado e de todas as vítimas da ditadura militar”, o evento convida o público a acompanhar o processo criativo da produção londrinense e conhecer os bastidores do filme que Herzog idealizava antes de ser silenciado pelo regime militar, em 25 de outubro de 1975.
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Além do bate-papo com a equipe audiovisual, o encontro contará ainda com a participação especial da repórter-fotográfica Elvira Alegre, única profissional a registrar o velório e o enterro de Herzog, a apresentação musical será da cantora Silvia Borba.

“O QUE RESTA DE UM FILME QUE NUNCA EXISTIU?”
A investigação que deu origem a “Antonio e Vladimir” começou pelo acervo digital do Instituto Vladimir Herzog, onde Nery teve acesso a mais de 200 fotografias feitas por ele em fevereiro de 1975, durante sua viagem a Canudos (BA), além de um argumento de filme escrito naquele mesmo ano.
A partir desse material, o diretor percebeu que Herzog pesquisava o massacre na região, ocorrido nos anos de 1896 a 1897, e a trajetória do líder religioso Antônio Conselheiro. A leitura da biografia “As duas guerras de Vlado Herzog” (2012), de Audálio Dantas, aprofundou essa descoberta e revelou novas faces do jornalista. “Conheci um Vlado para além da tragédia e da farsa construída pelos militares. Um homem que desejava ser diretor de cinema, que escrevia sobre cultura, crítica cinematográfica, um pensador do Brasil e do seu tempo”, afirma.
Em abril deste ano, parte da equipe viajou ao sertão da Bahia para refazer o percurso de Vlado. Segundo o diretor, as fotografias encontradas serviram como guia e também como dispositivo cinematográfico para a expedição. “Estar em Canudos, ouvir a história da chamada Guerra de Canudos contada na própria região e conversar com herdeiros desse massacre foi essencial para revelar um tipo de Brasil que ainda existe. Canudos existe em toda comunidade exposta à violência brutal do Estado”, diz.

Embora parte do material original de Herzog siga desaparecido, principalmente um roteiro que teria sido entregue pela viúva Clarice Herzog a um cineasta após sua morte, a equipe continua a busca. “O que resta de um filme que nunca existiu? É essa pergunta que orienta nosso trabalho”, resume.
No momento, o projeto está em montagem de um primeiro corte em formato de curta-metragem, enquanto avança na pesquisa e na captação de recursos para finalizar a versão longa, prevista para ser lançada no segundo semestre de 2026.
Para Nery, não se trata de uma continuação, mas de um importante resgate. “Resgatar essa história é falar de um Vlado vivo, com desejo. E isso é essencial. Porque o que uma ditadura faz é derrotar o desejo impondo um estado permanente de medo. Mostrar o desejo de Vlado é respeitar a sua memória – e a sua vida”, reforça.
CONVIDADA ESPECIAL
A repórter-fotográfica Elvira Alegre, de Londrina, tinha apenas 19 anos quando se tornou a
única pessoa a registrar o velório e o enterro de Vladimir Herzog. Na época, trabalhava no jornal alternativo Ex, de São Paulo (SP), que reunia profissionais vindos de veículos como Realidade, Veja, Jornal da Tarde e Placar, e que não se submetia à censura da ditadura.
Ela lembra que a equipe foi despertada na madrugada pela notícia da morte de Herzog, e que o editor Hamilton de Almeida Filho a incentivou a levar a câmera ao local. “Não sabia exatamente que eu estava registrando um dos momentos mais importantes da história recente do nosso país. Fotografar o velório e o enterro do Vladimir Herzog foi um ato de bravura que pautou minha vida profissional por 45 anos”, diz.

Convidada por Maikon Nery a participar do encontro no Sesc, Alegre ajudará a reconstruir o ambiente de tensão vivido à época, marcado pelo medo e pela vigilância sobre jornalistas.
À FOLHA, ela reforça que revisitar o caso é essencial para impedir seu apagamento e para manter acesa a atenção diante de práticas autoritárias que ainda rondam o País. “A ditadura militar foi como uma foice, ela destruiu projetos em andamento, tentou apagar memórias e para conseguir isto matou e torturou pessoas. A história tem que ser contada várias vezes para que não caia no esquecimento”, defende.
Para a fotógrafa, o projeto atual também cumpre um papel fundamental ao iluminar lutas que permanecem vivas, como a simbolizada por Canudos. “A retomada da pesquisa por Maikon Nery é importantíssima. Canudos é resistência e isto é uma luta constante inclusive nos dias de hoje. Informar, mostrar, contar para que nunca mais aconteça”, conclui.
Produzido pela Lagamar Filmes e pelo coletivo de cinema independente Filmes ao Vento, “Antonio e Vladimir” conta com patrocínio da Lei Paulo Gustavo, Ministério da Cultura, Secretaria Municipal de Cultura de Londrina – Desenvolvimento de Roteiro para Longa-metragem, e Secretaria Estadual de Cultura de São Paulo (SP) – Produção de Curta-metragem.
SERVIÇO
Roteiro Aberto – Processo de criação e pesquisa para o filme “Antonio e Vladimir”, com
Maikon Nery e equipe, Elvira Alegre e Silvia Borba
Quando: nesta quarta-feira (19), às 19h
Onde: Sesc Cadeião Cultural (Rua Sergipe, 52 – Centro)
Quanto: gratuito





