Um vídeo feito pelo editor de fotografia da FOLHA, Sergio Ranalli, para a agência de notícias EFE, da Espanha, mexeu com minha emoção pela captação de uma cena após a passagem de um tornado em Rio Bonito do Iguaçu (centro-sul do PR), na sexta-feira, 7 de novembro.

O drone registra a imagem central de um fogão em meio aos escombros, uma mulher recebe um abraço de outra, enquanto segura uma vasilha sobre a chama, soube depois que ela aquecia água para o chimarrão.

Ela apoia a mão sobre a vasilha como se segurasse um pedaço do que sobrou de sua vida doméstica, aquela do arroz e do feijão no fogo, antes da refeição que iria à mesa, onde a família se sentava, numa rotina que foi destruída em 10 minutos.

Dizem os especialistas que o tornado sobre Rio Bonito do Iguaçu teve essa duração. Um tempo curto para tantas vidas destroçadas. Alguns perderam pais, irmãos e a filha de 14 anos, Julia Kwapis, atirada contra um muro, tendo a vida interrompida um dia antes da cerimônia de crisma na igreja católica.

Um dia antes da crisma, o vendaval e o muro. E o choro dos pais e amigos pela interrupção abrupta de uma existência jovem, fragilizada como bolha de sabão no sopro violento de um tornado.

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O ar era gelado em cima daquela supercélula - como se chamam as nuvens condensadas que chegam a ter 180 graus negativos no topo, temperatura que se assemelha a regiões da Sibéria. Embaixo, o calor do asfalto da pequena cidade, cercada por campos de soja, num dia de sol causticante, antes da virada fatal do clima. Estava armado o mecanismo da devastação.

Nas cenas de sofrimento, que circularam pela imprensa do Brasil e do mundo, Gilberto Brecailo, um idoso que tirava seu sustento de uma oficina mecânica, chora ao falar com os repórteres e pede desculpas pela dor, depois de perder tudo.

Na sua humildade, deve considerar que o choro não deveria ser filmado, num mundo de heróis feitos sob medida para o cinema, a televisão e as redes sociais. Mas a tragédia é real através de suas lágrimas e da mulher, apoiada num fogão, na tentativa de segurar a chama da vida.

90% da cidade foram destruídos, e vêm as notícias das providências dos governos, da solidariedade da própria comunidade para reerguer o que, à primeira vista, parece até impossível.

O Paraná encarou o luto no último fim de semana, na cidade em meio a campos de soja e nas outras cidades que se compadeceram da tristeza daquela gente num estado ao qual também pertencemos, agora, em estado de choque.

No último sábado ( 8), quando vi as primeiras cenas da tragédia, não pude separar meu dia daquela tristeza, com pessoas que viram a morte chegar, mais uma vez, sem aviso.

Perdemos o rumo do dia, o rumo do sábado, quando se avizinha um dia santo, o domingo, vendo a vida de muitos virar narrativa de mais uma tragédia coletiva.

Antes, uma sexta-feira de sol, quando ninguém adivinhava que a cidade seria engolida com a destruição de casas, móveis, postes e carros empilhados. Opressão material que se torna dolorosamente existencial, quando vidas se perdem e uma mulher se agarra a um fogão, em meio ao choro de tantos, lamentando a infelicidade súbita no coração do Paraná.

Teço, como posso, no fio do texto, a esperança quase improvável, mas ainda presente.

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