Cenas do tornado e da tragédia em Rio Bonito do Iguaçu
Nas cenas de sofrimento, um idoso que tirava seu sustento de uma oficina mecânica, chora, pede desculpas pela dor
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sábado, 15 de novembro de 2025
Nas cenas de sofrimento, um idoso que tirava seu sustento de uma oficina mecânica, chora, pede desculpas pela dor

Um vídeo feito pelo editor de fotografia da FOLHA, Sergio Ranalli, para a agência de notícias EFE, da Espanha, mexeu com minha emoção pela captação de uma cena após a passagem de um tornado em Rio Bonito do Iguaçu (centro-sul do PR), na sexta-feira, 7 de novembro.
O drone registra a imagem central de um fogão em meio aos escombros, uma mulher recebe um abraço de outra, enquanto segura uma vasilha sobre a chama, soube depois que ela aquecia água para o chimarrão.
Ela apoia a mão sobre a vasilha como se segurasse um pedaço do que sobrou de sua vida doméstica, aquela do arroz e do feijão no fogo, antes da refeição que iria à mesa, onde a família se sentava, numa rotina que foi destruída em 10 minutos.
Dizem os especialistas que o tornado sobre Rio Bonito do Iguaçu teve essa duração. Um tempo curto para tantas vidas destroçadas. Alguns perderam pais, irmãos e a filha de 14 anos, Julia Kwapis, atirada contra um muro, tendo a vida interrompida um dia antes da cerimônia de crisma na igreja católica.
Um dia antes da crisma, o vendaval e o muro. E o choro dos pais e amigos pela interrupção abrupta de uma existência jovem, fragilizada como bolha de sabão no sopro violento de um tornado.
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O ar era gelado em cima daquela supercélula - como se chamam as nuvens condensadas que chegam a ter 180 graus negativos no topo, temperatura que se assemelha a regiões da Sibéria. Embaixo, o calor do asfalto da pequena cidade, cercada por campos de soja, num dia de sol causticante, antes da virada fatal do clima. Estava armado o mecanismo da devastação.
Nas cenas de sofrimento, que circularam pela imprensa do Brasil e do mundo, Gilberto Brecailo, um idoso que tirava seu sustento de uma oficina mecânica, chora ao falar com os repórteres e pede desculpas pela dor, depois de perder tudo.
Na sua humildade, deve considerar que o choro não deveria ser filmado, num mundo de heróis feitos sob medida para o cinema, a televisão e as redes sociais. Mas a tragédia é real através de suas lágrimas e da mulher, apoiada num fogão, na tentativa de segurar a chama da vida.
90% da cidade foram destruídos, e vêm as notícias das providências dos governos, da solidariedade da própria comunidade para reerguer o que, à primeira vista, parece até impossível.
O Paraná encarou o luto no último fim de semana, na cidade em meio a campos de soja e nas outras cidades que se compadeceram da tristeza daquela gente num estado ao qual também pertencemos, agora, em estado de choque.
No último sábado ( 8), quando vi as primeiras cenas da tragédia, não pude separar meu dia daquela tristeza, com pessoas que viram a morte chegar, mais uma vez, sem aviso.
Perdemos o rumo do dia, o rumo do sábado, quando se avizinha um dia santo, o domingo, vendo a vida de muitos virar narrativa de mais uma tragédia coletiva.
Antes, uma sexta-feira de sol, quando ninguém adivinhava que a cidade seria engolida com a destruição de casas, móveis, postes e carros empilhados. Opressão material que se torna dolorosamente existencial, quando vidas se perdem e uma mulher se agarra a um fogão, em meio ao choro de tantos, lamentando a infelicidade súbita no coração do Paraná.
Teço, como posso, no fio do texto, a esperança quase improvável, mas ainda presente.


Celia Musilli
Editora de Cultura e colunista.




