'Pressão": quando a ciência se impõe ao poder
Segundo longa do australiano Anthony Maras não é um filme de guerra típico, repleto de cenas de ação, mas um drama tenso e contido
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 09 de setembro de 2026
Segundo longa do australiano Anthony Maras não é um filme de guerra típico, repleto de cenas de ação, mas um drama tenso e contido
Carlos Eduardo Lourenço Jorge/ Especial para a FOLHA 

Não há como negar: faça chuva ou faça sol, todo cidadão comum deste planeta é um meteorologista amador sempre pronto a arriscar palpites depois de olhar para o céu que nos protege (ou deveria). O vaticínio sempre surge principalmente em elevadores, ambiente convidativo à quebra de constrangimentos e protocolos diversos que suportamos com maior ou menor dose de ansiedade. Não tenho expertise na matéria, e muito menos pretensões; mas dou meus palpites, especialmente nesses tempos esquisitos de inverno em setembro e de El Niño descabelado, quando tento me proteger da chuva esquisita sob a proteção rala dos ipês.
O célebre Dia D, um dos eventos mais significativos da história da humanidade, continua a oferecer material para obras de ficção e documentários. Em “Pressão” (em exibição nos multiplex em Londrina) são narradas as 72 horas que antecederam o desembarque das forças aliadas na costa da Normandia, noroeste da França, fato que daria início ao término da resistência nazista na Europa e anteciparia o fim da Segunda Guerra Mundial. À frente da colossal operação bélica estava o general Dwight "Ike" Eisenhower (um apaixonado Brendan Fraser), cujo plano – já ajustado com todo o alto comando militar da época – era invadir por terra, mar e ar na segunda-feira, 5 de junho de 1944, às 6h30 da manhã.
Tropas e armamentos, navios, aviões e demais equipamentos estavam a postos. Mas Eisenhower tinha uma dúvida: as condições climáticas favoreceriam seus planos? O meteorologista da equipe, o fanfarrão, simpático e soberbo capitão americano Irving Krick (Chris Messina), trazia boas notícias sobre as condições do tempo – a ponto de encarar a situação com irresponsável leveza, cantando e tocando piano na sala de operações/previsões: aquela segunda-feira seria um dia de sol. No entanto, o meteorologista escocês recém-chegado, aliás o favorito de Churchill, James Stagg (um excelente Andrew Scott), não compartilhava do entusiasmo, dos métodos e nem dos mesmos dados de seu colega ianque: suas medições e estudos indicavam um cenário desastroso, com três tempestades atingindo a região do ataque na Normandia na segunda-feira, justamente o dia pré-fixado.
Não é “spoiler”, decorrido quase um século de comemorações pontuais, contar o que foi o Dia D e o início da Operação Overlord; no entanto, é preciso alertar o cinéfilo fã de filmes de guerra que este segundo longa do australiano Anthony Maras (“Atentado ao Hotel Taj Mahal”, 2018) não é um filme de guerra típico, repleto de cenas de ação, mas sim um drama tenso e contido, de origem teatral, estreado em 2014. Trata-se, portanto, de um filme que se passa essencialmente em espaços fechados, sem grandes movimentações, sustentando-se sobretudo na qualidade das atuações e exasperação do diálogos e da ansiedade dos personagens.
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Aquele dia representou um marco para os lados em conflito, mas foram os aliados vencedores que o transformaram em epopeia representativa dos valores das potências ocidentais, como justiça, liberdade ou razão. “Pressão” aborda esses temas – especialmente o último, a partir de um de seus expoentes mais claros: a ciência, base do conhecimento –, mas o faz sob uma perspectiva inesperada: a da meteorologia. É mais um exemplo de como a ciência enfrenta o poder. Cabe a este último dar ouvidos ou cair e afundar na armadilha dos seus próprios dados.
Contrariando qualquer preconceito, Maras constrói um thriller de guerra eficaz. O diretor dosa a tensão dramática a partir dos atritos entre Stagg e outros meteorologistas da equipe, decorrentes das diferentes formas de interpretar os dados das medições. Enquanto o especialista favorito de Eisenhower previa um dia perfeito, Stagg prognosticava um clima péssimo e aconselhava adiar a invasão. No entanto, o adiamento colocaria em risco o sigilo da operação, permitindo que o exército de Hitler repensasse sua estratégia de defesa — eis o dilema que atormenta o protagonista.
Quando se trata do clima, não há certezas, mas há dados, e os dados de Stagg eram claros: três tempestades estavam prestes a ocorrer, independentemente de quão ensolarado estivesse o dia. O adiamento da invasão era inevitável porque o céu se fechou com o som e a fúria dos elementos. Mas de repente, não mais que de repente, a brecha que parecia impossível surgiu e...o resto é História. Ainda que com horas de atraso.
Emocionante, tenso e sempre interessante, o filme não é apenas um modelo de economia narrativa e desenvolvimento de personagens, mas também um espetáculo à parte devido ao embate verbal entre os dois opostos: Eisenhower e Stagg/Fraser e Scott.
Esta é uma obra séria no melhor sentido do termo, uma poderosa reflexão sobre pessoas que enfrentam os problemas mais graves com honra, inteligência e uma coragem que transcende o aspecto físico para incluir o destemor na busca pela verdade





