Poeta londrinense tece os fios do silêncio e da solidão
Novo livro de Samantha Abreu, “Os Movimentos da Cabeça”, reúne poemas e crônicas; lançamento será nesta quarta-feira (23), em Londrina
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 22 de outubro de 2024
Novo livro de Samantha Abreu, “Os Movimentos da Cabeça”, reúne poemas e crônicas; lançamento será nesta quarta-feira (23), em Londrina
Marcos Losnak/ Especial para a Folha 

“Eu quero falar a língua de anjos silenciosos que repetem preces enquanto observam o amor fecundar os úteros de mulheres tristes.”
“Dentro de um escafandro um pássaro se debate entre os cílios, cócegas me fazem as asas do pássaro que não se aquieta, que não desiste da tentativa de voo.”
“Sempre que vejo de longe uma mulher apressada em sobreviver, uma mulher assumindo o sangue secular do renascimento, imagino aleluias no canto dos que se entregam puros.”
Essas imagens poéticas criadas pela poeta londrinense Samantha Abreu integram seu novo livro, “Os Movimentos da Cabeça”. O lançamento acontece hoje, quarta-feira (23), às 19h, na Biblioteca Pública de Londrina.
A obra reúne poemas e crônicas que promovem um olhar sobre o silêncio e a solidão. Uma das principais novas vozes da poesia produzida em Londrina, Samantha Abreu une linguagem e percepção em versos fortes e incisivos.
Autora de “Fantasias Para Quando Vier a Chuva” (2011), “Mulheres Sob Descontrole” (2015), “A Pequena Mão da Criança Morta” (2018), e “Debaixo das Unhas” (2020) e “O Coração e o Voo” (2021), Samantha Abreu a seguir fala sobre seu novo livro lançado pela editora Atrito Arte.
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“Os Movimentos da Cabeça” é formado por poemas e crônicas. Qual sua intenção em reunir dois gêneros em um único volume?
Misturar esses dois gêneros não era uma intenção quando planejei a publicação de um novo livro. Aconteceu de ter um arquivo com uma quantidade de poemas inéditos e então eu comecei a pensar em uma publicação. Ao mesmo tempo, eu tinha outro arquivo com textos narrativos e crônicas que eu já vinha escrevendo há bastante tempo, e eu me perguntava se essas crônicas dariam um livro algum dia.
Quando parei para revisitar esses arquivos, notei coisas em comum: um fio temático que, de alguma forma, atravessava ambos e, também, um olhar sobre o silêncio e a solidão, sobretudo nos textos produzidos durante a pandemia. A partir daí, surgiu a ideia de reuni-los pelo que estavam dizendo sem me importar com a forma. As crônicas me traziam a imagem de Antônio Cândido, da vida ao rés do chão, e pensei que escrevê-las era “Olhar Para Baixo”, ao passo que os poemas inéditos me pareciam com “Olhar Pra Frente” e para além daquele medo e da solidão no isolamento. Para completar os “Movimentos da Cabeça”, selecionei alguns poemas de que gosto muito dos meus livros anteriores, coisa que eu já tinha vontade de fazer, e coloquei em uma seção chamada “Olhar Para Trás”.
Em um dos poemas que integram o livro, o poema “Amém”, você apresenta a imagem de que poesia não é paz, não é pacificação. A literatura seria conflito?
De certo modo, sim. Este poema é uma espécie de manifesto contra certa ingenuidade sobre o papel da poesia, sobre sua função salvadora, redentora. É claro que eu não posso afirmar que a poesia não seja também pacificação... Talvez seja em algum
momento. A questão é que percebo que quanto mais incômodo a poesia provoca, mais real ela nos torna, mais da vida ela nos faz conhecer. É por isso que prefiro a poesia que nos provoque um olhar estranhado e assombrado sobre a vida, que nos coloque de frente
para um abismo que nem a linguagem sabe nomear.

O poema “Pequeno Confessionário Admiratório” começa com o verso: “Eu escrevo sobre mulheres para imaginá-las majestosas e donas de seus corpos caminhando em direção a um pôr do sol, sumindo no horizonte dos sonhos.” Por que escrever sobre mulheres?
Este poema faz parte da seleção de textos que capturei dos livros anteriores. Ele foi originalmente publicado em “Debaixo das Unhas”, livro que lancei em 2020 e que é resultado do trabalho poético que desenvolvi durante minha pesquisa acadêmica de mestrado, quando estudei a poesia de autoria feminina na obra da Adélia Prado. Naquele momento, misturando pesquisa e produção poética, escrevi textos que olhavam para a existência de mulheres, que pensava sobre a escrita de mulheres e que analisavam a representação de mulheres na literatura. Escrever sobre isso foi inevitável pra mim...
Eu quis marcar o momento em que eu era uma mulher pesquisadora, poeta e que podia escrever sobre outras mulheres a partir desta combinação. É um trabalho do qual me orgulho muito e que marcou uma fase muito importante.
Nesse caminho você possui uma longa trajetória de valorização e divulgação da literatura produzida por mulheres. Que percepção do mundo e da vida a literatura escrita por mulheres está oferecendo atualmente e que a literatura escrita por homens não foi capaz de oferecer ao longo do tempo?
É verdade... Faço o que posso, pessoal e profissionalmente, para destacar a produção de mulheres tanto na literatura quanto nos outros campos da arte e do pensamento. São percepções de mundo diferentes, obviamente, e que muito precisam ser expostas para poderem ser comparadas e discutidas. Tanto a de mulheres quanto de grupos historicamente ignorados pelo cânone. Durante muitos anos o cânone nos apresentou uma visão masculina eurocêntrica do mundo, da vida e das próprias mulheres. Mas quando as mulheres começam a ser publicadas e lidas, temos a possibilidade de entender o que elas querem dizer. Este é o ponto que diferencia as percepções: possibilitar que as próprias mulheres digam o que pensam em toda sua diversidade e contraste e então, a partir disso, possamos debater.
Os versos de “Os Movimentos da Cabeça” estão repletos de imagens carregadas de significados, e isso parece ser uma das características de sua poesia. De onde surgem essas imagens? Elas possuem um destino a seguir?
Uma coisa que me orgulha muito é quando alguém percebe o compromisso imagético que tenho com a poesia que escrevo, seja em verso ou em prosa. Eu realmente me preocupo com isso, pois como leitora de poesia sempre essa foi a característica que mais me fascinou na linguagem e me fez admirar grandes poetas. Na teoria poética, por exemplo, a da imagem é uma das que mais me confortam. Quando estou elaborando um texto, meu pensamento quase sempre tem primeiro a imagem, depois busco na linguagem como dizer aquilo. Sei que cada poeta tem seu próprio processo, mas pra mim sempre funciona assim: a linguagem vem da imagem. Muitas vezes é difícil encontrar a forma, as palavras certas que retratem uma ideia. Por isso há tanta transpiração na inspiração, é uma insistência para que a imagem apareça nas palavras. Como disse Clarice Lispector, “é com tal aleluia”. E o destino é sempre dar vazão ao que vejo e ao que preciso dizer. E até que eu consiga dizer, estou sempre elaborando dentro de mim todos os dilemas, as angústias, os desejos e os impulsos que me levam para a literatura.

SERVIÇO
“Os Movimentos da Cabeça”
Autora – Samantha Abreu
Ilustrações – Carolina Panchoni
Prefácio – Renato Forin Jr.
Quando – R$ 30
Editora – Atrito Arte
Páginas – 90
Patrocínio – Promic
Lançamento:
Quando – Quarta-feira (23), às 19h30
Onde – Biblioteca Pública de Londrina (Av. Rio de Janeiro, 413)


