Paulo Miklos: o segundo amadurecimento artístico de um titã
Após ser uma voz potente do rock brasileiro, ele foi arrebatado pelo cinema, um habitat cada vez mais promissor após 46 anos de carreira
PUBLICAÇÃO
sábado, 01 de novembro de 2025
Após ser uma voz potente do rock brasileiro, ele foi arrebatado pelo cinema, um habitat cada vez mais promissor após 46 anos de carreira
Lúcio Flávio Moura/ Especial para a Folha 

O paulistano de 66 anos é um destes homens com vida dividida em dois séculos, na qual o ano de 2001 reservaria um ponto de inflexão profissional tão surpreendente quanto as imagens reais de dois Boengs 767 colidindo e obliterando arranha-céus, como se todas as TVs do mundo tivessem transmitindo o mesmo filme catástrofe.
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Parecia mesmo que o mundo ia acabar com tanta coisa acontecendo: a morte do guitarrista Marcelo Fromer atropelado em plena Avenida Paulista, o Titãs bradando mesmo assim que era “A Melhor Banda de Todos os Tempos da Última Semana”, a gravação de “Vou Ser Feliz e Já Volto”, o segundo disco solo após um longo hiato de sete anos, o encontro tardio e despretensioso com o mundo do cinema. “Eu embarquei e me apaixonei”, disse Miklos à FOLHA, numa área reservada do Cine Villa Rica, pouco antes de uma das sessões concorridas do longa “Assalto à Brasileira” durante o Festival Kinoarte de Cinema.
O ator respeitado de 2025 ainda fala sobre sua estreia com o entusiasmo de quem fez uma grande descoberta. Por minutos mergulha em 2001 e fala da parceria com o cineasta paulista Beto Brant, o diretor de videoclipes do Titãs que enxergou seus dotes e o escalou para viver o personagem-título de “O Invasor”, clássico do cinema brasileiro. “Fiquei muito desconfiado da minha capacidade, mas o apoio dele foi tão efusivo que eu passei a acreditar que dava”, lembra.
PARCERIA COM SABOTAGE
Visceral no palco, o intérprete cheio de veias e gritos de “Bichos Escrotos” fez de Anísio, o matador de aluguel contratado para eliminar o dono de uma construtora, um laboratório para o ofício de interpretar. “Eu avisava: nem pensem que eu imagino onde está a câmera. Nas cenas de ação, eu esbarrava na câmera do Toca Seabra (diretor de fotografia) várias vezes”, conta. Sobre “O Invasor”, ele guarda com carinho a lendária preparação das cenas com Mauro Mateus dos Santos (1973-2003), o rapper Sabotage, o outro debutante da ocasião. “Ele foi fundamental para que minhas falas soassem mais coloquiais. Quinze minutos antes de começar a gravar, eu falava o texto original para ele e ele devolvia uma tradução com a linguagem das ruas. A naturalidade que foi transmitida na tela tem muito a ver com isso”.
O verdadeiro impacto da experiência se deu quando ele viu seu Anísio em uma sessão pública no Festival de Brasília. A trama envolvente o fez esquecer que ele não era mais apenas um espectador. “Esqueci que estava na tela”, lembra. Quando os créditos subiram, começaram os tapinhas nas costas, os elogios. “Foi revelador ver aquela alquimia. Um material bruto capturado no ano anterior, a montagem, a trilha sonora. Quando eu entendi a arte de se fazer um filme, nunca mais vi o cinema da mesma forma”.
A insegurança dos primeiros tempos como ator de cinema foi se dissipando ao longo dos últimos 24 anos. Na década de “O Invasor” trabalharia ainda com Ugo Giorgetti, como o empresário Lauro, em “Boleiros 2 - Vencedores e Vencidos” e com Marcos Jorge, no aclamado “Estômago”, onde viveu Etcétera. Na TV, participou de séries (“Os Normais”, “Mandrake”, “Força Tarefa”, “Sessão de Terapia”, “Sob Pressão”) e novelas (“Bang Bang” e “Sétimo Guardião”).

NO MEIO DO POVO
As tiradas cômicas do matador Anísio foram tão marcantes que os realizadores passaram a enxergar o ator Miklos como um artista capaz de equilibrar tensão e leveza na mesma cena. E também parece talhado para papeis inspirados em personalidades reais. Recentemente, encarnou trejeitos e sotaque de Adoniran Barbosa, o ícone do samba paulistano, em “Saudosa Maloca”, um filme de Pedro Softer Serrano que dividiu os críticos, bem mais convencidos das qualidades da interpretação do protagonista do que com os méritos do roteiro. No teatro, já deu vida a Chet Baker, em “Apenas um Sopro”, sobre o grande trompetista de jazz estadunidense.
Na movimentação do público durante o festival realizado no Cine Villa Rica, as sessões de pré-estreia de “Assalto à Brasileira”, o longa de José Eduardo Belmonte gravado em Londrina, Miklos misturava sua própria simpatia com os olhos atentos do personagem Fonseca, o policial negociador que se desdobra durante uma situação absurda.
“Sem dúvida, as pessoas ainda me identificam com o Titãs, não tem jeito. Mas também já tem quem me aborde em locais públicos para falar do meu trabalho de ator. Aqui em Londrina foi muito divertido ter filmado do lado de fora da agência, com o povo da cidade ao meu redor. Sempre considerei os londrinenses calorosos, roqueiros. Fizemos shows eletrizantes aqui e voltar em uma situação tão diferente foi uma experiência muito rica”, avalia.
Em 2026, a música deve prevalecer sobre o cinema, apesar de Miklos se dizer muito satisfeito com uma novidade que deve aumentar suas chances de escalação em projetos importantes de dramaturgia. “Minha carreira vai passar a ser conduzida por uma craque, a Fernanda Ribas”, revela, referindo-se à empresária que é referência na construção e gerenciamento de carreiras artísticas, com nomes como Wagner Moura no seu portfólio. O ator percebe uma indústria audiovisual mais estruturada, com uma produção mais diversificada, tanto de temas como de realizadores, em comparação com a cena de duas décadas atrás que o cooptou para a arte dramática.
COISAS DA VIDA
Nos próximos meses, ele continua o trabalho de gravação e finalização do novo álbum, o quinto da carreira solo, que tem o título provisório de “Coisas da Vida”.
O lançamento será pela gravadora independente Deckdisc, do produtor Rafael Ramos (que já trabalhou com Pitty, João Donato, Alceu Valença e Elza Soares), que aliás vai assinar o álbum com o arranjador Otávio de Morais. “É um disco de intérprete, com um repertório que faz parte da minha memória afetiva. Tudo muito caprichado, com cordas, sopro. Eu diria que é uma produção luxuosa”.
O eterno titã deixou Londrina reforçando a imagem de um dos artistas mais “multifacetados” do país, um adjetivo que ele mesmo usa para se definir. Seu prestígio transcende “cor, credo, classe social”, seu rosto é conhecido em todas as gerações e sua voz ecoa no presente, no passado e parece garantida para quem vai consumir arte só no futuro. “Para muitos jovens, eu sou o Gonzales, o vilão do filme Carrossel”, diverte-se, mencionando o longa lançado em 2015 que teve uma continuação no ano seguinte. O sucesso da turnê Encontro, que reuniu todas as estrelas do Titãs após 30 anos, também fez o público olhar diferente para o artista. “A reunião dos Titãs, com quase 50 shows e que acabou no ano passado, foi muito importante para nossas carreiras. Ver os pais e filhos juntos na plateia foi algo nostálgico, muito bacana. Os mais novos puderam ver nossas origens, de onde viemos”.




