Ao ganhar o Nobel de Literatura de 2016, Bob Dylan não foi receber o prêmio pessoalmente na pomposa cerimônia da Academia Sueca. Para estar presente na solenidade, escalou a amiga Patti Smith. Em vez do tradicional discurso, Patti cantou uma das clássicas das canções de Dylan, “A Hard Rain’s A-Gonna Fall”, de 1962. No meio da música, esqueceu a letra, se atrapalhou, parou a apresentação, pediu desculpas, e retomou a canção do início.

Mesmo sendo um episódio peculiar na vida da poeta norte-americana Patti Smith, ele não aparece em sua autobiografia “Pão de Anjo” lançada recentemente pela editora Companhia das Letras. Uma obra que levou 20 anos para ser concluída. Curiosamente, enquanto lentamente escrevia sua autobiografia, publicou cinco livros de memórias: “Só Garotos”, “Linha M”, “Devoção”, “O Ano do Macaco” e “Um Livro dos Dias”.

Patti Smith nasceu em 1946, numa família humilde, na cidade de Chicago. Aos 16 anos ficou grávida e entregou o recém-nascido para adoção. Logo em seguida saiu de casa e ganhou o mundo respirando o universo da contracultura da década de 1960. Apesar de se autodefinir como poeta, atuou como pintora, cantora, fotógrafa, compositora, atriz e performer.

Muitos a classificam como “mãe do punk”, “madrinha do punk”, “pioneira do punk rock”, “precursora do punk” e até mesmo de “criadora do punk”. Tudo porque, seu primeiro disco, “Horses”, lançado em 1975, desconcertou o rock constituído da época. Tinha tudo o que depois seria nomeado de “espírito punk”. Os Ramones já tocavam desde 1974 e lançariam o primeiro álbum também em 1975, poucos meses depois de “Horses”.

POESIA FALADA

Em “Pão de Anjo”, Patti deixa claro que sua intenção nunca foi ser cantora ou compositora. Muito menos fazer alguma coisa punk. Tudo teve início quando ela começou a realizar leituras de seus poemas pelas livrarias e bares de Nova York. Rapidamente percebeu que, se interpretasse os poemas ao som de algum instrumento musical, a performance poderia ganhar intensidade. Acreditava na força e no impacto de seus poemas.

Começou com um amigo guitarrista. Depois apareceu um pianista. E em cada apresentação um novo músico entrava na viagem da poesia falada. Depois de um tempo, Patti tinha nas mãos uma banda para acompanhá-la nas leituras: “Nossos ensaios incluíam horas de fusão entre poesia e três acordes de maneira fluida, criando um campo ondulante onde eu podia improvisar e dançar. Conquistamos em pequeno grupo de fãs à medida que apresentávamos, esporadicamente, nossa mistura de poesia, três acordes e ruído abençoado.”

A poesia falada se transformou em canções e as leituras de versos virou show de rock: “Muitas de nossas composições se desenvolveram enquanto eram tocadas ao vivo e depois refinadas liricamente na sala de ensaio, onde, inspirada, eu parava no meio para anotar versos alternativos. Resumindo, a banda era três acordes fundidos no poder da poesia”.

Patti Smith: "Estamos à beira de perder tantas coisas preciosas, entrando em um tempo em que um holograma magnífico substituirá uma floresta"
Patti Smith: "Estamos à beira de perder tantas coisas preciosas, entrando em um tempo em que um holograma magnífico substituirá uma floresta" | Foto: Divulgação

INVASÃO PUNK

Em pouco tempo o punk iria invadir o lado mais rebelde da geração de 1970 deixando marcas profundas. Patti Smith já estava em outra viagem, mas assistiu as consequências de perto: “No início de fevereiro de 1979, Sid Vicious atacou meu irmão no bar do Hurrah, enfiando uma garrafa quebrada em seu rosto, errando por pouco seu olho. Toddy levou sete pontos e prestou queixa apenas para que Sid fosse trancafiado em segurança, sugerindo à polícia que o deixassem sob vigilância contra suicídio. Infelizmente ele logo foi solto, e dois dias depois ele estava morto.”

Com uma infância deslocada dos padrões, Patti não queria ser menina em um mundo onde as garotas não tinham a liberdade dos garotos: “Eu não queria crescer. Não aspirava a participar do mundo adulto, com suas responsabilidades intermináveis. Queria ser livre para perambular por aí, para construir cômodo por cômodo a arquitetura do meu próprio mundo. Quando criança eu lamentava não ser um menino. Não era que quisesse ser um menino, queria as escolhas que os meninos pareciam ter, mas sendo eu mesma. Queria liberdade, e na infância isso significava usar camisas de flanela e tênis azuis em vez de vermelhos, me vestir e dizer não como quisesse. Na adolescência, significava recusar maquiagem, esmalte, depilação, ser preparada para vocações adequadas. Aos vinte anos, significava desafiar qualquer modelo predeterminado de comportamento feminino estabelecido. Foi a isso que resisti, e foi disso que fugi.”

“Pão dos Anjos” traz a exposição de Patti Smith em temas delicados. Um punhado de tristeza e outro punhado de felicidades. No final da obra revela sua origem inesperada. Por meio de segredos de família e um teste de DNA, descobriu que possui um pai biológico e um pai de criação.

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PARA QUEM ELA ESCREVE

Aos 80 anos de idade, Patti Smith se pergunta para quem escreve seus poemas atuais. A grande dúvida de sua velhice: “Talvez para outra era, ou para um tempo em que já não existiremos mais. Para aqueles que escreviam em caligrafia cursiva, que brincavam ao ar livre por horas sem supervisão, que cortavam o pé em cacos de vidro sem contar a ninguém. Escrever para um futuro distante, para os fantasmas dos animais extintos, aves, insetos, para as colmeias vazias, para as catedrais cobertas de musgo, para a essência do conhecimento. Morrerei me lembrando de vocês, pois estamos à beira de perder tantas coisas preciosas, entrando em um tempo em que um holograma magnífico substituirá uma floresta. Em que as imagens desfiguradas de ditadores da nossa era estão espalhadas em aquedutos e calçadas de quilômetros de extensão. Escrevo para as vacas pastando em campos verdejantes. Escrevo para o patinador desavisado num lago de gelo que derrete.”

Patti Smith continua acreditando que não mudou muito ao longo dos anos. Apenas ficou um pouco mais solitária com a possível proximidade da morte: “No desapego, o que resta é a honra. Evoluímos, hesitamos, aprendemos com nossas transgressões e então a repetimos. Mergulhamos de volta no abismo do qual nos esforçamos tanto para sair e nos descobrimos em mais um giro da roda. E então, tendo encontrado a força necessária, começamos o processo excruciante e ainda sublime do desapego. Há uma calma brilhante, parecida com a luz natural. Tudo ao nosso redor é destroço, e ainda assim pisamos com leveza para não esmagar uma silhueta que se desvanece, nossa própria pele primordial.”

Imagem ilustrativa da imagem 'Pão de Anjo', a autobiografia de Patti Smith, a vovó dos punks
| Foto: Divulgação

SERVIÇO:

“Pão dos Anjos”

Autora – Patti Smith

Editora – Companhia das Letras

Tradução – Camila Von Holdefer

Páginas – 272

Quanto – R$ 89,90 (papel) e R$ 44,90 (e-book)

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