Quando o fotojornalista Fernando Cremonez visitou pela primeira vez o set de filmagens do longa-metragem "Gaijin - Ama-me Como Sou", da cineasta Tizuka Yamasaki, no ano de 2002, nunca imaginou que a cobertura jornalística resultaria em um material documental tão valioso. Pautado pelo tradicional jornal impresso dedicado à colônia japonesa em Londrina e no Paraná, o semanário Paraná Shimbun, Cremonez foi acompanhado pela jornalista Marivone Ramos, registrou as gravações de cenas como a do "beijo na concha", que parou o centro de Londrina, a construção da cidade cenográfica, assim como um casamento em Cambará. "Marivone e eu nos tornamos uma verdadeira dupla dinâmica - tamanha a dedicação", recorda.

Fernando Cremonez fotografou os bastidores do filme para o jornal Paraná Shimbun
Fernando Cremonez fotografou os bastidores do filme para o jornal Paraná Shimbun

Preservado, todo o acervo de Cremonez foi revistado pelo fotógrafo e, após uma seleção, foram reunidas 30 imagens, coloridas e em preto e banco, no formato 50x70, adesivadas em PVC, para apresentar ao público os bastidores da produção do longa-metragem, que estreou em 2005 e foi rodado em Londrina e região.

Os registros foram feitos em uma câmera analógica, uma Pentax ME Super. "Pensei em imagens que pudessem mostrar como foi essa superprodução". Entre as fotografias, uma cena de assassinato que o profissional pensou ter perdido. "Pedi a minha esposa que trouxesse na época um filme mais sensível à luz para que eu conseguisse fotografar no escuro, pois não podíamos usar flash ou qualquer tipo de iluminação. Baixei a velocidade o quanto pude e estava certo de que havia perdido aquela cena. Felizmente, ao revelar o filme e ampliar a fotografia, consegui um grande efeito, a fotografia foi chamada de capa e durante uma coletiva, a foto foi elogiada inclusive pela Tizuka", sorri.

A exposição de Cremonez "Gaijin 2 - Bastidores de uma Saga", integra a programação da 22ª edição do Londrina Matsuri – Festival da Primavera e 10ª Feira de Tecnologia, no Parque Ney Braga, que segue até segunda-feira (7).

O KIKITO DE AYA

Entre as fotografias que poderão ser vistas está a da atriz e imigrante japonesa Aya Ono. A interpretação de Titoe, rendeu a ela o prêmio de melhor atriz coadjuvante no 33º Festival Internacional de Gramado, por unanimidade. Foi o seu primeiro papel no cinema, aos 77 anos, quando já estava aposentada. Sem que tivesse qualquer pretensão, a atriz conquistou o troféu Kikito, objeto de desejo de tantos artistas, feito que a torna ainda mais admirada.

Quase que tudo isso não aconteceu, pois foi no último dia que a feirante aposentada levou sua fotografia para a produção do filme, almejando um lugar na figuração. No teste que a colocou definitivamente em cena, dramatizou a situação em que pedia perdão ao pai, no túmulo, por ter prometido voltar para vê-lo, mas não conseguiu realizar a promessa.

A atriz Aya Ono que recebeu prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante no Festival de Gramado
A atriz Aya Ono que recebeu prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante no Festival de Gramado | Foto: Fernando Cremonez

Aos 98 anos, saudável, ativa e lúcida, ela conserva o seu Kikito com muita satisfação e entre os hábitos diários, está o amor pelas flores, a música e o convívio de seus familiares que a cercam de amor e cuidados.

O lançamento do longa foi em 2005, e conquistou os principais prêmios do Festival de Gramado daquele ano como Melhor Filme, Melhor direção (Tizuka Yamazaki), Melhor música (Egberto Gismonti) e Melhor atriz coadjuvante para a londrinense Aya Ono. Após esta primeira exposição, Cremonez planeja expor as fotografias no Museu Histórico de Londrina, na Câmara Muncipal e também na AML Cutural - Associação Médica.

Aya Ono em foto recente, no seu aniversário de 98 anos
Aya Ono em foto recente, no seu aniversário de 98 anos | Foto: Fernando Cremonez

TIZUKA VOLTA A LONDRINA

A cineasta e diretora Tizuka Yamazaki fez questão de conferir a mostra pessoalmente. Em entrevista à Folha de Londrina, a idealizadora reconhece o valor documental das fotografias para todos que, direta ou indiretamente, participaram das gravações. "Fazer um filme é sempre uma dedicação dos artistas e técnicos, mas muito mais da parte da população local, onde o filme foi produzido, que no caso de "Gaijin - Ama-me Como Sou", foi de Londrina e região. Muita gente participou como figurante, cedeu ou alugou carros de cena como os antigos os ônibus da Viacão Garcia. Nós nos alimentamos aqui, nos relacionamos comercialmente com lojas, recebemos todo tipo de colaboracão de grupos comunitários como o grupo Sansey liderado por Mity e Luis Shiroma, a ACEL - Associação Cultural e Esportiva de Londrina , e de tantos amigos que nem dá pra nomeá-los", enumera.

A cineasta lembra do apoio médico e hospitalar e como toda a população ajudou a construir um filme. "Que aborda a história local da implantação de uma cidade construída por sonhos, de gente que deu a vida apostando que aqui seria o local de investimento para dar trabalho e morada para suas famílias. Então, todas essas pessoas que participaram do filme, tenho certeza, se emocionará vendo-se nas fotos da exposição. E serei eternamente agradecida por ter tido essa colaboracão impagável, e em tempo, lembrando que fui trazida aqui pelo amigo Francisco Tan", renova os agradecimentos.

Tizuka Yamasaki (no centro) dirigindo ""Gaijin - Ama-me Como Sou": um filme que ficou na memória de Londrina
Tizuka Yamasaki (no centro) dirigindo ""Gaijin - Ama-me Como Sou": um filme que ficou na memória de Londrina | Foto: Fernando Cremonez

A CONSTRUÇÃO DA CIDADE

"Gaijin - Ama-me Como Sou" reconta a história da colonização de Londrina pelos diversos povos que ajudaram a construir a cidade, e reuniu em seu elenco nomes de projeção nacional e internacional, como Mariana Ximenez, Zezé Polessa, Luis Melo, Louise Cardoso, e das estrelas internacionais como Tamilyn Tomita, Jorge Perugorría, Kyoko Tsukamoto, Kissey Kumamoto, entre outros.

A diretora destaca ainda o valor da exposição no que diz respeito à imigração de todos os povos. "O tema do filme não girava apenas na história da imigracão japonesa. Mostramos a integração dos diferentes povos que transitaram na construção do Norte do Paraná, na labuta da plantação e colheita do café. São os alemães, os italianos, os ucranianos, os espanhóis, os libaneses, os portugueses e tantos outros valorosos povos que atravessaram oceanos pra encontrar aqui uma razão de vida", pontua.

SAULO OHARA: FOTÓGRAFO DE CENA

Nesta exposição, o público terá a oportunidade de ver os bastidores do filme pelas lentes de Cremonez. Outras formas de documentar as gravações são por meio do traballho de um fotógrafo de still ( fotógrafo de cena para divulgação oficial do filme)e também do making -off (bastidores da produção)indispensáveis em uma produção cinematográfica.

Tizuka explica que no caso de "Gaijin - Ama-me Como Sou", o resultado desse trabalho é o material usado para a divulgação filme. "Ele se estende à imprensa nacional e internacional e foi feito pelo fotógrafo Saulo Ohara, que foi nosso still, neto do pioneiro Haruo Ohara, que por sua vez documentou magistralmente o trabalho dos imigrantes japoneses em londrina. Saulo fez um belo trabalho, fazendo jus à memoria de seu avô. No entanto, foram muitos outros fotógrafos que se aproximaram e fotografaram muito, um material inestimável como os bastidores do filme registrado por Fernando Cremonez que pode ser visto na exposição", convida.

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A cineasta alegra-se com a atual produção cinematográfica pujante de Londrina e considera relevante que cada vez mais surjam novos cineastas: "Para realizarem filmes com olhares diferentes, novas poesias, e novas emoções", acena.

Muito prestigiada por sua trajetória, Tizuka conta que neste momento tem desenvolvido muitos projetos que estão em fase captação de recursos e principalmente dedica-se a encontros feitos para quem deseja aprender, crescer e se conectar com outros artistas. "Também tenho investido muito em formação de novos realizadores, ministro workshops e imersões artísticas em torno de temas como interpretação, direção, construção de cenas, criatividade e desafios do mercado audiovisual", divide.

SERVIÇO

Londrina Matsuri 2026

Exposição fotográfica "Gaijin 2 – Bastidores de uma Saga", de Fernando Cremonez

Quando: até segunda-feira (7)

Onde: Parque Ney Braga

Valor: entrada gratuita das 10h às 17h; após às 17h: R$16,00 e R$8,00 (meia entrada)

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