O que seria das livrarias não fossem leitores tresloucados e seus olhos ávidos por milhões de palavras compostas por letrinhas impressas? E não só leitores, mas híbridos de escritores e leitores (ou vice-versa).

Há exemplos como o do escritor Paulo Venturelli, cujos milhares de livros ocupam um apartamento inteiro exclusivo para isso ou de outro, Dalton Trevisan, famoso mundo afora por sua obra, que, em conversas com livreiros, escritores e outros intelectuais, criou, dentro de uma livraria, uma revista especial (“Joaquim”) para a história literária paranaense. E certamente gestou vampiros e dezenas de outros personagens de suas escritas.

O que seria das livrarias não fossem livreiros apaixonados pelo que fazem? Um deles, José Ghignone, me contou, em entrevista para a Folha de Londrina, em 1986, os capítulos da convivência familiar com livros por iniciativa de seu pai, João. Ele escolheu o comércio livreiro para viver e espalhou esse vírus aos seus filhos. José resumiu a importância da opção de seu pai: “Só não nasci na livraria porque era domingo”.

As livrarias Ghignone, além de vender livros e sustentar a família, transformaram-se em verdadeiros centros de agitação cultural e política. Assim como outras congêneres.

Atualmente, há, em meio às 55 livrarias existentes em Curitiba, vários exemplos dessa simbiose. Aleatoriamente, cito um deles: a livraria Arte & Letra pertence aos irmãos Frede e Thiago Tizzot. Pois bem, o primeiro é designer e ilustrador; o outro, curador, livreiro e escritor.

Sim, eles (e centenas de outros) são escritores, livreiros e igualmente consumidores de livros, esses objetos de desejos.

Mas, nas entrelinhas, há o vital: milhares de consumidores, em meio à população curitibana desde antanho, que não são produtores de textos e nem livreiros. De onde se conclui que esses estabelecimentos e suas estantes repletas de capas, títulos, páginas, magias e sonhos são capítulos de encantamento da história dessa cidade. E de muitas em todo o país, felizmente.

Nayara Almeida faz uma síntese cuidadosa das livrarias de Curitiba por onde circulam autores e leitores criando uma história deliciosa
Nayara Almeida faz uma síntese cuidadosa das livrarias de Curitiba por onde circulam autores e leitores criando uma história deliciosa | Foto: Divulgação

As livrarias existiram, existem e existirão para suspiros de alívio e felicidade de escritores, livreiros e leitores. Isto está mais do que documentado e provado em um livro que se autodenuncia, “O livro das livrarias”. Escrito pela jornalista Nayara Almeida e recém-lançado, ele conta histórias curiosas e deliciosas desses espaços benditos e de seus personagens.

O livro foi produzido como Trabalho de Conclusão de Curso em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), com orientação do professor e jornalista José Carlos Fernandes. A edição conta com prefácio da jornalista e coordenadora da Literato Comunicação e Conteúdo, Roberta Braga.

A obra propõe um mapa afetivo das livrarias que marcaram Curitiba, reunindo memórias, personagens e histórias de espaços literários que constroem a vida cultural da cidade.

A publicação não deixa dúvidas sobre a certeza de sobrevivência do livro e livrarias. Suas páginas percorrem o trajeto histórico de livrarias curitibanas do século XIX aos dias atuais. Das antigas e extintas Mundial, Econômica e Ghignone, entre tantas, às contemporâneas Telaranha, Arte & Letra, Curitiba, Vertov, Vila, Chaim, entre tantas, muitas letras rolaram por páginas publicadas e, melhor, lidas.

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UM LIVRO TESTEMUNHAL

Assim, o “Livro das livrarias” cumpre um papel revelador e testemunhal da importância que esses locais, atualmente também em ambientes mesclados a cafés e layouts arrojados, em lojas de ruas ou em shoppings, tiveram e têm na vida curitibana. Aliás, as livrarias sempre transcenderam simples objetivos comerciais.

Curitiba lê. Quem duvidar, confira as oscilações dos percentuais de vendas de livros físicos (é uma delícia o cheiro de suas páginas tingidas de letras e criação), mesmo com a concorrência dos virtuais em diversos modelos. On-line é bom, mas o impresso é muito melhor, com todo respeito aos consumidores dos virtuais. Coexistir é possível e não rasga o livro de ninguém.

A autora de “O livro das livrarias”, Nayara Almeida, que, em síntese cuidadosa, frequentou o afeto do passado e presente dessa cumplicidade entre escritores, livreiros e leitores, tem a mesma mania de um Venturelli, de um Trevisan e de milhares de pessoas.

Essa conversa não tem fim. E pode ser em uma livraria.

SERVIÇO:

"O Livro das Livrarias: espaços por onde passa a Curitiba que lê"

Autora: Nayara Almeida

Edição independente

Preço: R$ 30,00

Onde comprar: diretamente com a autora pelo formulário https://forms.gle/jctMSiQKTh2hfuJu8

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