Não estamos sozinhos no universo: Steven Spielberg vem nos dizendo isso há anos. Que os extraterrestres estão entre nós. Que às vezes eles se escondem em nossos armários, parecendo velhinhos adoráveis ​​com dedos brilhantes (“E.T.”, 1982). Em outras ocasiões, descem à Terra em naves-mãe, nos inspirando a refletir sobre a vida, o universo e tudo o mais – e chegando até a brincar com nosso purê de batatas (“Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, 1977).

Spielberg nos alertou para ficar de olho nos céus, para que esses visitantes não tentem nos recrutar para zoológicos humanos (“Firelight”, a primeira FC ficção que ele fez, em 1964, sua estreia aos 17 anos) ou nos exterminar completamente (“Guerra dos Mundos”, 2005). Ele nos ensinou a procurá-los em cada canto da vida moderna, mesmo que nossas memórias sobre eles acabem sendo apagadas por Will Smith e Tommy Lee Jones (a série “Homens de Preto”, filmes nos quais atuou como produtor executivo desde o início, entre 1977 e 2012).

Agora, um dos grandes cineastas americanos dos últimos 50 anos retorna ao tema dos homenzinhos verdes, em formato que ele praticamente inventou cinco décadas atrás: o blockbuster de prestígio.

Vocês se lembram quando Spielberg substituiu digitalmente as armas empunhadas por agentes do governo na edição do 20º aniversário de “E.T.” e, mais tarde, lamentou esta decisão? Imaginem se ele não tivesse apenas restaurado as armas, mas criado um filme inteiro de duas horas e meia centrado nessa sequência, como uma espécie de “mea culpa”. Pois esse filme é “The Day of Disclosure”, o Dia D de um outro desembarque das ideias fulgurantes de Spielberg, para muito além daquele historico na Normandia, 1944.

Há muito o que apreciar em “Disclosure Day”. A começar pela dupla de intérpretes principais. Josh O’Connor demonstra mais uma vez seu porte de protagonista, sem jamais parecer forçar a atuação; a habilidade singular de Emily Blunt em tornar tudo orgânico e realista – do atordoamento à determinação inabalável, ou até mesmo um monólogo improvisado em russo; a maneira como Colman Domingo (o idealista Hugo) confere à frase "Sempre foram vocês dois" a mesma gravidade que a maioria dos atores empresta às palavras da dramaturgia de Shakespeare, Harod Pinter ou August Wilson; a tomada de um carro saindo de uma casa de fazenda irrompendo pela lateral, que evoca aquela sensação que os filmes costumavam proporcionar, mas que raramente oferecem hoje em dia.

REVELAÇÕES ARBITRÁRIAS

No entanto, há também algo a criticar, desde reviravoltas e revelações que parecem frustrantemente arbitrárias até um clímax que deveria ser espetacular, mas acaba esvaziado e decepcionante. E as reflexões filosóficas nunca ultrapassam o nível de conversas informais e não se integram harmoniosamente aos elementos de blockbuster do filme. David Koepp, o roteirista é, assim como o diretor, um profissional de primeira linha, mas é difícil livrar-se da sensação de que o roteiro, meio irregular e meio desajeitado, precisava de mais algumas revisões.

No fim das contas, porém, continua sendo um filme de Steven Spielberg. E, embora a qualidade de sua obra possa oscilar ao longo da carreira, uma paixão fundamental está na base de tudo: uma paixão pelo cinema, pela narrativa visual e pelo desejo de proporcionar ao público uma experiência que desperte emoções intensas e faça a adrenalina subir, com sabedoria e elegância. Isso confere à sua obra uma vitalidade que revela a sensibilidade de um artista continuamente em pleno processo de criação.

Para aqueles de nós que cresceram com a geração de “Tubarão”, a perspectiva de um novo filme de Spielberg é um grande acontecimento, seja ele um blockbuster de sucesso ou uma lição de valores cívicos na tela grande.

O mesmo vale para quem descobriu seu trabalho nos anos 1990 quando ele era, possivelmente, o único diretor de Hollywood capaz de lançar um “Jurassic Park” e uma “A Lista de Schindler” no mesmo ano (!) e fazer com que tudo funcionasse perfeitamente.

"Dia D"; filme traz a estranha sensação de fechamento de um ciclo de Spielberg, traços de outras produções são visíveis
"Dia D"; filme traz a estranha sensação de fechamento de um ciclo de Spielberg, traços de outras produções são visíveis | Foto: Divulgação

O DNA cinematográfico spielberguiano está, claro, presente em “Disclosure Day” E embora o presente exercício de gênero talvez não alcance o patamar de suas melhores obras do século XXI – como “Prenda-me se for Capaz”, “As Aventuras de Tintim”, “Lincoln”, “Os Fabelmans” e “Amor, Sublime Amor” – , seu toque pessoal é mais do que suficiente para justificar o preço do ingresso.

Além disso, o filme traz uma estranha sensação de fechamento de um ciclo — e não apenas por retornar ao terreno fértil de “Contatos Imediatos...” e de seus outros espetáculos de ficção científica. Traços de obras que vão de “Encurralado” a “Minority Report” são visíveis, a ponto de o filme parecer quase uma retrospectiva em miniatura de sua carreira. É possível quase ouvir o estalar de seus dedos enquanto ele dirige tanto as sequências de ação grandiosas quanto os poucos momentos mais íntimos, contidos e eficazes que surgem na trama. Sim, Spielberg acredita que não somos a única forma de vida no cosmos. Mas ele também acredita que nossa natureza mais nobre permanece intacta e que o cinema ainda tem o poder de nos comover e abrir corações. Essa ideia pode parecer antiquada para alguns, mas não soa nem um pouco estranha.

“Disclosure Day” ainda oferece o vislumbre de um debate religioso: e se a prova da existência de uma forma de vida superior desencadeasse a perda da fé em Deus (qualquer deus) como o ser supremo? E mais: por que tal constatação levaria inevitavelmente à descrença? E se acontecesse o oposto ?

O sentimentalismo é, para o bem ou para o mal, parte integrante de grande parte do cinema de Spielberg, e também está presente aqui, particularmente no ato final, embora a trilha sonora do lendário John Williams, o colaborador de longa data do diretor, seja mais contida e menos edulcorada do que o habitual. Talvez isso ocorra porque o mundo de “Dia da Revelação” se encontra, assim como o nosso, à beira de uma terceira guerra mundial – um conflito que poderia ser suspenso diante de tal revelação.

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No mundo real, as coisas parecem funcionar de maneira diferente. Donald Trump (The President is a Tramp, parafraseando o clássico da música popular dos EUA) ordenou a desclassificação de arquivos sobre OVNIs na véspera de começar a bombardear o Irã, como se tentasse usar um evento para ofuscar o outro — embora nenhuma das duas ações tenha obtido sucesso ou causado impacto duradouro.

Outros mundos são na verdade espelhos, e nenhum espelho é comparável em profundidade, clareza e emoção ao cinema. O cinema de Spielberg, assim como o de seu lendário antecessor, o também grande Frank Capra (1897-1991), é obra de alguém que acredita na possibilidade de milagres. Pelo menos na tela.

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