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Londrina

TEATRO CRÍTICA

m de leitura Atualizado em 23/05/2022, 00:09

O retorno triunfal do Boca de Baco

Grupo londrinense volta à cena com "Olhos nos Olhos" e mostra que se reconstrói sob o signo da autoconsciência e da resistência

PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 23 de maio de 2022

Rodrigo Grota - Especial para a Folha2
AUTOR autor do artigo

Foto: Fábio Alcover / Divulgação
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“Olhos nos Olhos” narra o drama de antigos amigos de uma companhia teatral que não se veem há muito tempo e são convidados a um encontro definitivo, no qual uma notícia incontornável será revelada “Olhos nos Olhos” narra o drama de antigos amigos de uma companhia teatral que não se veem há muito tempo e são convidados a um encontro definitivo, no qual uma notícia incontornável será revelada
“Olhos nos Olhos” narra o drama de antigos amigos de uma companhia teatral que não se veem há muito tempo e são convidados a um encontro definitivo, no qual uma notícia incontornável será revelada |  Foto: Fábio Alcover / Divulgação
 

A montagem "Olhos nos Olhos" marcou o retorno do Boca de Baco aos palcos, grupo teatral londrinense formado no início dos anos 1990 e que em sua trajetória adaptou clássicos de Plínio Marcos, Fernando Arrabal, e textos de autores locais, como "Último Inverno", do nosso querido Francelino França, jornalista, dramaturgo e cineasta falecido em 2006. A reestreia ocorreu no último dia 7.

"Olhos nos Olhos",  décima terceira peça do grupo, é uma espécie de releitura interna de sua trajetória. Formado no Sindicato dos Bancários em Londrina, o "Boca" reunia desde jornalistas até office-boy. 

Meu primeiro contato com a trupe foi em agosto de 1998, quando montaram "Abajur Lilás" com a presença do Plínio Marcos. Fui à palestra no antigo Núcleo 1 e, no dia seguinte, entrevistei o dramaturgo ao longo de uma manhã no Calçadão. Minha mãe era fã dele - havia visto suas peças na Marília (SP) dos anos 60. Fiquei emocionado na época por ter conhecido uma lenda viva do teatro. 

Sobre o "Boca", vi essa montagem do Plínio, até que no início dos anos 2000 veio "Fando y Lis", texto do Arrabal com adaptação do jornalista Marcos Losnak. A peça era fantástica: com um cenário irreal de Mauro Amarelo, e uma força dramática que nos deixava sob um estranho fascínio diante daquela fábula tão sombria.

A direção era do Luiz Valcazaras, o mesmo agora de "Olhos nos Olhos". Ele é um daqueles diretores que conhecem todos os mecanismos do teatro. Sabe deixar a cena dinâmica espacialmente, equilibrar os momentos de luz alta com as nuances mais escuras, além de potencializar o trabalho dos atores.

Para mim, esse é o grande trunfo de um encenador: contribuir para a expansão do trabalho do intérprete. Pois a essência dessa linguagem é a presença física humana diante de nós: o corpo do ator, da atriz.

E é isso que o Luiz faz com essa nova peça, cuja mini temporada se encerrou na Usina Cultural sexta, sábado e domingo últimos. Com dramaturgia do talentoso Renato Forin Jr, temos um percurso autobiográfico do grupo que entrelaça aspectos da mitologia grega ao drama político e social do Brasil contemporâneo.

Forin Jr, autor que conhecia da premiada peça "Ovo", tem aqui talvez o seu melhor texto, pois nos faz mergulhar entre os mitos gregos sem ser didático, e aponta os nossos conflitos sociais sem ser panfletário.

É o que vemos no caso das mulheres oprimidas interpretadas por Silvia França e Fátima Carreri. Suas personagens dizem algo como: "Meu corpo é minha biografia". Na dramaturgia de Forin Jr., as mulheres não são figuras submissas: elas reagem e assumem o controle de suas vidas.

Outro aspecto ressaltado pelo texto é a premissa de que "histórias que não são contadas acabam por serem esquecidas". E daí temos um dos pontos altos da peça: o momento em que Nivaldo Lino interpreta Narciso e apresenta a problemática relação com sua figura materna, que não queria que o ator se posicionasse diante de atitudes de racismo. 

Nivaldo, ator dotado de uma sensibilidade muito autêntica, expõe os conflitos familiares e sociais da sua juventude potencializados pelo racismo estrutural que existe em nosso País. É um dos momentos mais impactantes da peça, principalmente quando Valcazaras reproduz a violência opressora da polícia a partir de elementos mínimos de luz.

Imagem ilustrativa da imagem O retorno triunfal do Boca de Baco Imagem ilustrativa da imagem O retorno triunfal do Boca de Baco
|  Foto: Fábio Alcover / Divulgação
 

Por fim, as cenas em que Beto Passini e Jackeline Seglin rememoram o momento da doença de um dos fundadores do grupo, o jornalista Luciano Bitencourt. Companheiro da atriz, ele estava diante de um momento difícil. É emocionante ver Beto e Jack reconstruírem a dificuldade de lidar com a inesperada doença de um grande companheiro.

A atuação de Jack nesse momento transcende a peça: ela não só nos emociona pelo drama vivido, mas nos faz lembrar da magia do pacto narrativo que o teatro nos oferece. Jack ali é uma e muitas ao mesmo tempo: ela está diante do seu destino, "olhos nos olhos" em meio ao turbilhão de emoções, e a forma cênica com a qual ela encara esse desafio é a marca de uma grande atriz. 

Jack domina o palco: sua presença imprime uma forma estética perfeita aliada a um drama humano verdadeiro.

Eis o fascínio da peça: reencontrar um grupo que fez história e que agora se reconstrói sob o signo da autoconsciência e da resistência. Evoé!

Leia mais: https://www.folhadelondrina.com.br/folha-2/boca-de-baco-volta-aos-palcos-para-celebrar-30-anos-3194907e.html

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