O otimismo e o pessimismo desde o ciático até Waterloo
Meu nonno José dizia que ninguém consegue ser tão ruim que não tenha nada de bom
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sábado, 10 de outubro de 2026
Meu nonno José dizia que ninguém consegue ser tão ruim que não tenha nada de bom
Domingos Pellegrini 

Vi no Face uma conhecida lastimando cirurgia na mão direita, obrigando se tornar canhota por dois meses. Comentei: “Aprendi que nas mazelas o melhor a fazer é antes de tudo agradecer, depois procurar ver com bom humor. Devido ao ciático me tornei claudicante e, como meu apelido é Dinho, me apelidei de Claudinho e vou me levando, às vezes dizendo para a sombra: - Não estranhe que estou mancando, dê graças por ainda andar comigo e apenas siga-me!"
Otimismo é vício bom. No começo dos anos 70, portanto há mais de meio século para os pessimistas, ou apenas cinco décadas para os otimistas, como repórter desta FOLHA fui a uma casa bem perto ver como começava o Iapar, Instituto Agronômico do Paraná. Me apresentei à secretária e surgiu um sujeito com camisa colorida fora das calças e bonachão:
- Aleluia! Então alguém lembrou de nós, agora só faltam os outros!
Apresentou-se como Raul Juliato, “presidente disto aqui”, daí perguntei quem seriam “os outros”, e ele: - Ah, os outros futuros funcionários e principalmente pesquisadores e técnicos, como nos falta também sede própria na zona rural pra receber todos, mas a visita de um repórter já é um reconhecimento!
Era um otimista, como disse, irreversível:
- Pois o que está bom pode piorar, mas o que está péssimo só pode melhorar!
Quando o Iapar já estava na sua sede, recebeu a visita de pesquisador norte-americano - criador de uma das variedades de soja mais plantadas no Brasil - e que foi lá visitar os canteiros experimentais. Depois de agachar aqui e ali examinando várias plantas, falou que estava vendo novamente o mesmo que noutros estados: aplicação de inseticida ainda desnecessário, pois as lagartas ainda não causavam tanto dano que justificasse esse custo, e, além disso, os buracos que faziam nas folhas permitiam insolação e assim mais vagens na parte baixa das plantas. Os pesquisadores, ao ouvir a tradução do intérprete, ficaram se olhando acabrunhados, mas Juliato abraçou o norte-americano:
- Thank you, mister! O senhor está nos fazendo ver o que vão víamos e já vejo como os agricultores vão gostar disso! E nós não estávamos errados, pessoal, só não sabíamos ainda como fazer mais certo!
Meu nonno José dizia que ninguém consegue ser tão ruim que não tenha nada de bom. Corretor de terras, quando ia mostrar sítio ou fazenda a possível comprador, apontava primeiro as vantagens, dizendo que dariam renda para consertar os defeitos que apontava em seguida, dizendo que se fosse terra sem defeitos já estaria vendida. Era um otimista realista.

Napoleão tinha tudo para vencer a batalha de Waterloo, mas otimistamente confiou em chegar ao local no dia seguinte pois chovia. Seu inimigo Wellington porém acampou antes e visitou todos os batalhões falando aos soldados como irmão de pátria, enquanto Napoleão se enfurnou em barraca com suas hemorróidas. De dia os franceses descobririam que o caminho era esfalfante no solo molhado, que encalhou muitos canhões e complicou para a cavalaria. Napoleão foi otimista demais e perdeu a batalha.
Por isso sempre digo a minha sombra: - Seja como for, como não aprendi a andar pra trás, vamos em frente!


