Como adaptar boa literatura para o cinema? Ou melhor, por quê? Se a história é interessante o suficiente, pode ser baixada gratuitamente como um e-book, e se é bem escrita, qual o sentido de transformá-la em um filme com todos os custos de produção associados? Deixando de lado divagações preguiçosas, parece difícil dar uma resposta coerente à pergunta. Sempre foi. As duas perguntas surgem a partir da polêmica cinematográfica do momento, a enésima de “O Morro dos Ventos Uivantes”, que chega esta semana aos cinema do circuito planetário. Em Londrina está em várias salas.

Bem a propósito, acionei aqui e agora minhas memórias de quinze anos atrás, durante o 68º Festival de Veneza. No geral, a mostra veneziana daquele ano ofereceu seleção competitiva nada extraordinária para um evento midiático/globalizado de tal importância histórica. Em tempo e a propósito: a não ser por uma presença daquelas que fazem a diferença e dão uma boa sacudida nas modorrentas plateias festivaleiras – críticos e cinéfilos pacientes que aguardam o momento da virada de mesa na competição. Que acabou chegando nas imagens belas, cruas, rudes, fiéis e afinal com as merecidas e até então inéditas tintas raciais (Heathcliff é interpretado pelo ator negro James Holson) na versão da diretora britânica Andrea Arnold para o eternizado clássico que participou da competição com uma proposta decididamente ousada , embora sem qualquer artifício carnal explícito: adaptar o texto de “O Morro dos Ventos Uivantes” pela enésima vez.

De volta à abertura do texto, temos então uma resposta, tão brilhante quanto pessoal e original. E bem à altura das outras duas melhores adaptações do livro, entre dezenas de adaptações para telas grandes ou pequenas: via Hollywood, o clássico dos bons modos, 1939, de William Wyler; e um dos melhores filmes de Luis Buñuel, “Abismos de Paixão”, realizado no México em 1953.

A abordagem de Arnold não diminuiu o valor de uma dessas duas obras canônicas. A diretora optou por despir o roteiro daquele material delicado e volátil, que é a palavra impressa. Não se trata de silêncio; trata-se simplesmente de que nenhuma palavra é ouvida, exceto aquelas que queimam: a imagem conduz a narrativa com uma habilidade e determinação perfeitamente conscientes de que estamos em uma sala de cinema. E no escuro.

O Morro dos Ventos Uivantes na versão dirigida por  Andrea Arnold em 2011
O Morro dos Ventos Uivantes na versão dirigida por Andrea Arnold em 2011 | Foto: Divulgação

O filme busca transmitir para a tela o ruído de uma batalha de corpos colidindo que, ao fazê-lo, explodem em chamas. Literalmente: é um filme no qual o fogo é persongem essencial. O romance, convém lembrar, fala de desejos proibidos, de desejos reprimidos, de desejos arrancados das profundezas da terra com unhas e dentes. Emily, a irmã mais nova das Brontë, era formidável. É apropriado que o filme que adaptar sua obra faça o mesmo.

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Assim, a câmera de Andrea Arnold se deleita em rostos marcantes, arranhando a superfície da pele e, claro, acariciando genitais. Tudo inflamável. É um filme de época, mas não parece. Resta agora conhecer o que a sempre impetuosa Emerald Fennell colocou na tela.

Em tempo: o filme de Andrea de Arnold está disponivel nas plataformas Prime Video, Apple TV e às vezes no MUBI.

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