Se a primeira parte do documentário “La Bataille de Gaulle”, intitulada “Resistence”, deixou um sensação de carência, de incompletude, sua conclusão, “Liberdade”, é particularmente convincente e flui com extrema naturalidade. É uma das melhores e mais exemplares atracões do Festival do Cinema Francês, no Cineflix Aurora, neste domingo (8). O vento termina no dia (domingo, dia 8) que termina na quarta-feira (11).

Com mais coerência, mais dinâmica e mais acertos no roteiro, enfim, melhor do que sua antecessora, esta continuação, acima de tudo, é menos dispersiva. O ritmo deixa de ser interrompido por uma narrativa que corria paralalela em Paris sobre o jovem Fernand – , personagem literalmente liquidado pela trama. Ao contrário, as novas e diferentes tramas que se desenrolam entre 1943 e 1944, durante a ocupação alemã, aparecem solidamente entrelaçadas por uma montagem fluida, embora complexa.

Simon Abkarian como Charles de Gaulle: impecável no papel
Simon Abkarian como Charles de Gaulle: impecável no papel | Foto: Divulgação

Charles de Gaulle (Simon Abkarian, impecável por mais 160 minutos) permanece retido na Grã-Bretanha, mais isolado do que nunca. Os Estados Unidos querem assumir o controle da França promovendo um fantoche: o general Giraud (interpretado por Thierry Lhermitte), cuja presença cômica é notável. Enquanto isso, o general Leclerc (Niels Schneider) que demonstra autoridade exemplar, encontra-se em terreno minado na África francesa, tentando conter o inimigo com tropas limitadas. Os combates exigem sacrifícios e, embora as sequências de ação sejam espetaculares, acabam aqui e ali sobrecarregadas por discursos pomposos.

O segmento mais interessante continua sendo o que se passa em Paris, onde Jean Moulin (interpretado pelo excelente Félix Kysyl) e seus poucos fiéis (entre os quais brilha Anamaria Vartolomei) tentam organizar a resistência. A tensão é constante, o suspense está presente e tudo corre bem na narrativa.

Evidentemente, nem tudo é perfeito nesta cinebiografia escrita e dirigida por Antonin Baudry. A trilha sonora, embora bem feitinha, sublinha tudo, sem demonstrar qualquer sutileza. A partitura, grandiloquente, torna-se arrastada e, muitas vezes, carece de profundidade. O filme apoia-se sobretudo em uma encenação tipicamente hollywoodiana, eficaz, mas um tanto débil porque inconsistente , cujos vultosos recursos financeiros acabam por ofuscar a personalidade do projeto. Uma ironia suprema, em um longa-metragem no qual a França busca, a todo custo, não ser completamente engolida pelos Estados Unidos.

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POEMA DE PAUL ÉLUARD

A mistura entre disputas políticas e aventuras mais ou menos picarescas é, contudo, enriquecida por belos toques de humor e até por momentos de emoção que surgem mais no final, quando imagens de arquivo substituem, com muita propriedade, a mera reconstituição histórica. É nesse momento que se ouve o poderoso poema “Liberdade”, de Paul Éluard, que dá nome à versão francesa do projeto: “écris ton nom” ("Escrevo o teu nome";).

Arrepios na platéia mais do que garantidos.

A conclusão deste díptico desperta, acima de tudo, o desejo de se levantar da poltrona, de sair das sombras e de lutar pela liberdade. De resistir às forças das trevas e combater o fascismo que nos cerca, antes que seja tarde demais. Embora a trama se passe no passado, ela dialoga diretamente com o mundo atual: uma época conturbada, em que o caos ressurge a cada palavra ou ação de um político arrivista qualquer, um desclassificado, um projeto de Hitler qualquer.

Nos tempos atuais, é difícil encontrar filme mais inspirador do que este.

* Confira a programação do Festival de Cinema Francês em Londrina.

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