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Londrina

AOS DOMINGOS PELLEGRINI

m de leitura Atualizado em 21/04/2022, 19:33

O corpo fala, mas o dos políticos fala muito mais

Michel Temer foi o presidente que falava com as mãos, como um maestro de palavras, sempre explicando fatos inexplicáveis de seu governo

PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de abril de 2022

Domingos Pellegrini
AUTOR autor do artigo

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Obama inaugurou isso de subir escada de avião correndinho, demonstrando disposição e agilidade, e Biden agora também sobe os degraus mais rapidinho do que fariam os presidentes a.O., antes de Obama. Nosso corpo fala, como se diz, mas o corpo dos políticos fala muito mais.

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. |  Foto: Ben Stansall/ AFP
 

Fui ao comício das Diretas no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, em 16 de abril de 1984, o evento que enterrou a ditadura. Consegui chegar pertinho do palanque e vi Tancredo Neves falar. Era baixinho e, com repórteres, falava baixo. Mas em comício falava muito alto, na ponta dos pés, sacudindo o corpo a cada palavra, virava um gigante.

Angela Merkel sempre falou com o corpo ao não usar o corpo, com discrição de gestos que contrastava com a firmeza de voz e atitudes, sempre assim passando a mensagem de que não queria fazer média ou ganhar votos, apenas queria fazer o necessário e certo. Coerentemente, ao contrário da quase totalidade dos políticos, saiu da política renunciando a mais uma candidatura. Ao não falar com o corpo, falou como uma política de um futuro em que os políticos cumprirão mandato e irão pra casa.

O milionário prefeito Wilson Moreira, de Londrina, usava calças gastas de uso e um velho cinto, como a atestar sua visão de que o mais importante na administração pública é cada tostão. No entanto, perdeu a campanha para novo mandato quando, em debate televisado, corou atrapalhado ao tentar responder porque alugava um apartamento para a própria filha. Corou, o corpo demonstrando a vergonha ou o embaraço que sentia e...

Hosken de Novaes nunca quis se candidatar, sempre convocado para o que considerava um sacrifício. Era barrigudo e não escondia isso, e seu aperto de mão, molengo, quase que apenas escorregando a mão pela mão da gente, expressava sua vontade de não ter cacoete político, não se comportar como político, não se tornar político profissional. E entretanto foi vereador, prefeito de Londrina e governador do Paraná, com o mesmo barrigão de paletó aberto e mole aperto de mão, um caso raro de político de sucesso apesar do corpo.

Ao contrádio, Collor de Mello cultivava corpo atlético, inclusive com corridas para a mídia, o que não salvou do descrédito e da cassação o caçador de marajás.

O topete um tanto abusado para um presidente era o único detalhe corporal notável de Itamar Franco, a indicar um mulherengo que, entretanto, deixou o governo com honra, depois de mudar a moeda e vencer uma histórica inflação, sem qualquer denúncia de corrupção pessoal.

Michel Temer foi o presidente que falava com as mãos, quase como um maestro de palavras, sempre explicando fatos inexplicáveis de seu governo, e por isso, apesar de tanto manuseio retórico, acabou com baixa popularidade. Quando as mãos falam demais, parece que mentem.

Ficamos a esperar políticos que, em vez de falarem até pelos cabelos, como o premier britânico Boris Johnson, falem por atitudes. Como Mandela, que dançava nos comícios e, no auge da popularidade, ganhador do Prêmio Nobel, terminou o mandato presidencial, deixou o poder e também deixou saudade.

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A opinião do colunista não reflete, necessariamente, a da Folha de Londrina.

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