Sala cheia durante duas semanas em multiplex da cidade: esta tem sido a merecida recepção de um público entre surpreso e envolvido por uma dramaturgia que reúne elementos orquestrados por uma inspirada atriz-diretora. Se ainda não viu, você pode aproveitar a última chance que o Cineflix Aurora (sala 5, sessão somente às 21h10) oferece.

Fixação, loucura, fascinação, desejo ou apego excessivo. Apresentado este ano no Festival de Sundance, “O Convite/The Invite”, 2026, é o remake americano de “Sentimental”, do cineasta espanhol Cesc Gay (também autor da peça, a semente original).

Sinopse econômica: o roteiro de Will McCormack e Rashida Jones coloca em cena dois casais vizinhos de apartamentos em um jantar, regado à mais palatável (para a ocasião e para os propósitos da dramédia) gastronomia de afetos, desafetos. Por trás e na frente das câmeras está Olivia Wilde, que entrega um filme maduro, com timing impecável quando expõe rotinas, pactos e silêncios no mecanismo da vida conjugal desgastada

“The Invite” marca o retorno de Olivia Wilde à comédia, explorando um terreno íntimo: a observação do casamento como um espaço de constante negociação entre desejo, hábito e frustração.

O filme adapta *Sentimental* (2020), de Cesc Gay, transpõe o conflito do material espanhol original para um apartamento em São Francisco, onde o jantar serve tanto como recurso narrativo quanto como um campo de prova.

Angela e Joe – interpretados por Olivia e Seth Rogen – vivem um relacionamento mantido pela inércia. A chegada de seus vizinhos de cima, Hawk e Pina (Edward Norton e Penélope Cruz), introduz uma dinâmica diferente: um casal que verbaliza, sem rodeios, justamente aquilo que os anfitriões evitam nomear. O embate não nasce do escândalo, mas do contraste; a fonte do desconforto não é a proposta em si, mas o espelho que ela reflete. O roteiro estrutura a história em torno do diálogo e da ação em tempo real. A comédia aposta na precisão das trocas verbais e no desenrolar do conflito, evitando ênfases exageradas. Na direção, Wilde conduz o espaço e o ritmo com atenção meticulosa aos detalhes: enquadramentos fechados reforçam a sensação de confinamento (mas evitam a teatralidade), enquanto a encenação evita representações visuais óbvias dos conflitos.

As atuações, todas ótimas, sustentam a premissa do filme. Rogen molda um personagem definido por uma resignação cotidiana; Wilde constrói a persona de Angela por meio da fisicalidade e de uma sensação palpável de inquietação; Norton e Cruz atuam não apenas como catalisadores, mas como presenças que geram tensão dramática e levam os outros personagens a revelar sua verdadeira natureza. O filme examina como o olhar de um estranho pode despertar questionamentos que a intimidade havia anteriormente reprimido.

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TRAGICOMÉDIA

Em seu ato final, “O Convite” adota um tom menos direto, introduzindo certo desequilíbrio narrativo. Ainda assim, o filme preserva sua coerência interna e a clareza de seu conflito central. A trilha sonora de Devonté Hynes e o design de produção reforçam a ideia de um microcosmo doméstico onde cada gesto carrega um peso significativo.

Mais do que uma comédia de situação, esta bem focada tragicomédia funciona como um estudo sobre os acordos tácitos em um relacionamento e a lacuna entre o que é dito e o que é verdadeiramente desejado. Em sua transição da Espanha para os Estados Unidos (após versões em outros idiomaS), a história confirma que as tensões inerentes aos relacionamentos amorosos não se restringem a fronteiras geográficas.

Olivia Wilde entrega um filme que observa, escuta e expõe – sem oferecer lições de moral – uma série de questões que transcendem fronteiras e culturas.

* Confira a programação de cinema no site da FOLHA.

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