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Londrina

Folha 2

m de leitura Atualizado em 09/06/2022, 00:07

Nos cinemas, a hora e a vez de uma má reciclagem jurássica

Pouco inspirado e oprimido pelo passado, “Jurassic World – Domínio” é decepcionante e incapaz de dar profundidade aos antigos ícones

PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 09 de junho de 2022

Carlos Eduardo Lourenço Jorge/ Especial para Folha 2
AUTOR autor do artigo

Foto: Divulgação
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Mosquitos embutidos em âmbar como maçãs no Éden. Ambição desmedida e auto-destruidora. Sabemos disso há três decadas: o homem que interpreta Deus é o grande pecado no centro da ideia primária de “Jurassic Park”. Um pecado original que sempre retornou, teimoso e implacável. Mas o que acontece quando esse vício atinge também autores e diretores de cinema?

O que acontece quando você tenta explorar o mito do parque jurássico retesando demais a corda ? A resposta está neste falido “Jurassic World – Domínio”, terceiro e último ato de uma saga-sequela que fecha suas portas com este filme cansado, esvaziado de aventura real e tentando sobreviver de alguns raros suspiros nostálgicos.

Desta vez, sem parques de diversões e sem ilhas remotas. O jogo “Jurassic World – Dominion” é jogado em todos os cantos do planeta. Porque após a desastre na Ilha Nublar, os dinossauros se espalharam pelo mundo convivendo com os humanos.

Pterodáctilos nos céus ao lado de aviões, triceratops bebendo ao lado de rinocerontes, mamutes tricotando com elefantes, crianças brincando em parques com pequenos como-é-mesmo-o nome-deles. Parece uma espécie de utopia, mas o equilíbrio não está destinado a durar. Porque os dinossauros dominaram o planeta e os humanos são muito

mimados para não querer impor uma lei que preserve a convivência. E assim, graças às maquinações sombrias de uma multinacional, o subtítulo do filme (Domínio) ganha forma duvidosa em uma história coral.

Esta aventura abraça duas gerações de personagens: a dos protagonistas da saga da sequência, aqueles Owen e

Claire (Chris Pratt e Bryce Dallas Howard), que simplesmente não conseguem deixar sua marca, presos que estão no estilo da velha escola. E aquela da tríade mítica na terceira idade, Alan Grant-Ellie Sattler-Ian Malcom, retirada do passado como herança arqueológica em sitio de escavação. E que tenta se mostrar ainda útil em favor da causa.

Uma tentativa apenas, gentil, respeitosa e pouco útil, pois o erro mais imperdoável de “Jurassic World – Dominion” é não dar fôlego a esse retorno, que parece cansado, forçado, repetitivo, sem algo proveitoso para acrescentar à história.

Confira o trailer de Jurassic Park - Dominion

O diretor Colin Trevorrow simplesmente não consegue dar profundidade aos rostos marcados de Sam Neill, Laura Dern e Jeff Goldblum – este se sai pouquinho melhor com alguma ironia histórica –, reutilizados como troféus para serem exibidos em vitrine empoeirada. Por outro lado, Pratt e Bryce Dallas são arremessados em uma missão que nunca é realmente apaixonante, requentada pela exaurida moralidade ambiental.

Porque este filme perde as coordenadas fundamentais da aventura (o mistério, o suspense, o desconhecido, a descoberta) e tempera tudo com cenas de ação desarrumada por montagem nada inesquecível e uma encenação sempre burocrática – o Daniel Craig-007 já havia dado recado muito superior naquele alucinado racha de moto à italiana. “Jurassic World – Domínio” prossegue em piloto automático e com uma contínua sensação desagradável: a respiração no pescoço.

E de onde vem e de quem é essa respiração pesada e onipresente? Claro, de um passado a ser respeitado e honrado. O filme faz de tudo para evocar os ícones da saga (do logotipo à trilha sonora) e usa flertes bem menos sucedidos para buscar a cumplicidade dos fãs. Trevorrow parece sobrecarregado pela ansiedade do desempenho, que se nota no confronto perene com o mito de Spielberg, o grande pai dessa mitologia jurássica já muito diluída. E assim, ele não apenas cita constantemente o Jurassick Park original, de 1993, mas transporta o espectador para atmosferas e dinâmicas até de Indiana Jones. Em suma, o parque dos horrores (da diversão) fechou as portas há 30 anos e continua a ser um tesouro de belas memórias.

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Memórias que devem permanecer preservadas e não encarquilhadas por uma Hollywood que peca pela presunção,

implacável no desvario da busca do passado sem tentar imaginar um novo futuro. Porque se é verdade que errar é humano, perseverar no erro não é diabólico: é jurássico.

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