As perdas são inevitáveis. A todo momento perdemos algo. Mas algumas perdas nos marcam profundamente. Algumas se acomodam naquele cantinho da memória onde guardamos as preciosidades que encontramos pela vida. Amigos são preciosos. Perdê-los é inevitável, mas eles estarão sempre nesse cantinho privilegiado da memória.

Lázaro Câmara é um destes amigos que entrou para este cantinho. Na madrugada desta segunda-feira (24), ele faleceu no Hospital do Câncer em Londrina. Seu corpo será velado no Cemitério Parque das Oliveiras, Capela 4, na terça feira (25), a partir das 6h, o sepultamento será às 16h, no Cemitério João XXIII.

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Conheci o Lázaro em 1982, quando participávamos de um curso de teatro ministrado pelo saudoso professor Antonio Saperas. Lázaro conquistou o grupo facilmente. Era alegre, bem-humorado e tinha sempre uma boa piada na ponta da língua. Na época, trabalhava em banco, mas sua alma de artista nunca se conformou com números, boletos e filas intermináveis. Ele queria mais.

Sua primeira chance veio da TV local. Foi contratado para trabalhar ao lado do lendário palhaço Picolino. Tive o privilégio de viajar com eles fazendo shows em cidades do interior. Lázaro, ao pintar o rosto e vestir a fantasia, não era um homem vestido de palhaço, era a entidade “palhaço”. A voz, o corpo, os gestos... tudo mudava, tudo começava a trabalhar em prol do riso.

Seu próximo passo foi ter um grupo de teatro para chamar de seu. Então, junto com o dramaturgo Mário Bortolotto, fundou o Chiclete com Banana (atual Cemitério de Automóveis). Estrearam com a peça "À Meia-Noite um Solo de Sax na Minha Cabeça", com a qual Lázaro foi indicado ao prêmio de melhor ator. Mas, quando se é jovem, nem tudo sai como pensamos e eles se separaram. Foi neste momento que uma nova faceta sua apareceu: o Lázaro empreendedor.

Imagem ilustrativa da imagem Morre o ator Lázaro Câmara, Londrina perde um talento
| Foto: Divulgação

TEATRO NAS ESCOLAS

Foi com esta atitude empreendedora, aliada à veia artística, que montamos juntos nossa primeira peça, "As Aventuras de Julim na Terra do Sol Poente."

Com ela, nos apresentamos em quase todas as escolas de Londrina. Lembro das crianças ensandecidas pelo palhaço que ele fazia em cena — na verdade, fazia quatro personagens. Ainda hoje consigo ouvir aquelas risadas.

Depois vieram outras peças. Participamos dos festivais regionais, facionais e do FILO. Lázaro conseguiu uma parceria com o SEBRAE e juntos apresentamos peças institucionais por todo o estado do Paraná. As viagens eram intermináveis, sempre em sua Parati. Viajávamos sempre em três pessoas: eu, ele e um sonoplasta, normalmente o ator Clóvis Bezerra, mas por esta função também passaram o grande Jeso Soares e o Leonardo Leon.

Por esta época, vivemos nossa fase quase mambembe, indo de cidade em cidade com nosso espetáculo. Às vezes dormíamos em hotéis sofisticados; em outras, em pensões chinfrins que nos obrigavam a revezar o sono. Nunca vou esquecer do conselho de Lázaro quando o hotel era bom:

— Toma um café da manhã bem reforçado que a gente aguenta até chegar em casa.

De todos os espetáculos, o que ele mais gostava era "A Mala do Lázaro", um show solo que criamos para ele viajar o Brasil.

RÁDIO E TEVÊ

Com muita insistência, ele também conseguiu abrir espaço na TV e nas rádios locais. Apresentamos quadros de humor no programa Mafalda Mulher da TV Tropical e também nas rádios Folha FM e Cruzeiro AM. O quadro na rádio Folha merece destaque. Froidão e Virginalvo criação nossa em parceria com o diretor da rádio, Witney Macarini. Foi um sucesso absoluto, embora eu e ele, em nossa ingenuidade, não tenhamos aproveitado isso financeiramente como se faz hoje.

Também estivemos nas telas do cinema. A convite do amigo Reinaldo Henrique, produzimos vídeos educativos para os Cines Catuaí. Além deste trabalho, Lázaro atuou no filme "Legal Paca" ao lado de Jeca Tatu. Foi este filme que inspirou o personagem Zé Café, com o qual ele participou no programa Show do Tom.

Também sonhamos juntos. Fomos até São Paulo negociar uma possível ida para a Rede Bandeirantes, depois tentamos a RedeTV!.

Sonhamos. Fizemos muitas coisas, deixamos de fazer outras e quase fizemos algumas.

Lázaro sai da vida e entra para a história desta cidade.

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