Livro traz história de vida e receitas afetivas
Em “O Cardápio da Vó Olga”, a escritora Jackie Rodrigues resgata as memórias de uma avó que transformava o mundo pela cozinha
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 25 de março de 2026
Em “O Cardápio da Vó Olga”, a escritora Jackie Rodrigues resgata as memórias de uma avó que transformava o mundo pela cozinha
Marcos Losnak/ Especial para a Folha 

As memórias de uma mulher criada pela avó. Uma avó guerreira que utilizava como armas bolinho de chuva, arroz e coxa de galinha. Questões sociais e raciais ao lado de um bolo de cenoura. Lembranças do espaço amoroso com café e pão com margarina. Tudo isso integra “O Cardápio da Vó Olga”, novo livro da escritora Jackie Rodrigues.
Publicado pela editora Outra, a obra possui uma longa trajetória. Escrito 10 anos atrás, foi agraciado em 2023 com o Prêmio Carolina Maria de Jesus de Literatura Produzida por Mulheres, promovido pela Secretaria de Formação, Livro e Leitura do Ministério da Cultura. E somente agora, em 2026, ganha versão impressa.
“O Cardápio da Vó Olga” será lançado na quinta-feira (26), às 19h, na Livraria da Vila do Shopping Aurora. O livro traz uma história que revela o enorme poder da culinária afetiva. Uma obra que pode ser lida de múltiplas maneiras. Pode ser lida como romance, como autobiografia, como relato de memórias, como culinária afetiva (ou “comfort food”), como autoficção, como história da vida privada, como livro de receitas, como declaração de amor, como cozinha de necessidade ou como retrato social, racial e de gênero do país.
Paulista radicada há anos em Londrina, Jackie Rodrigues é autora de “A Negrona da Neguinha” e “Resgate da Nave Mãe”. A seguir ela fala sobre “O Cardápio da Vó Olga” e o poder dos alimentos afetivos de Dona Olga.
“O Cardápio da Vó Olga” recebeu o Prêmio Carolina Maria de Jesus de Literatura Produzida por Mulheres, uma distinção do Ministério da Cultura. O que representou ganhar esse prêmio em 2023?
Ganhar o prêmio, para mim, não é algo que aconteceu no passado, é mais o que proporciona o momento presente. É a realização de um sonho, uma vontade, algo mais forte do que eu que se transforma diariamente em voz, poder e fé na escrita de mulheres, sobre mulheres, não somente para mulheres, mas para pessoas que carregam na sua formação a presença de alguém que fez diferença em suas vidas. É um privilégio ganhar um prêmio contando sobre minha avó, que é essa pessoa que fez a diferença na minha vida. Para mim, parece que diariamente ela continua olhando por mim e mandando mensagens de aprovação, calma, paciência e amor. Demorou nove anos para vir o prêmio. Depois, de 2023 para agora, são mais três anos para o livro ser publicado. Eu não desisti. Penso que ela também não.

No livro você resgata suas memórias ao lado de sua avó Olga. Quem foi Olga?
Quem foi Vó Olga? Uma mulher do interior de São Paulo, com pouca alfabetização, que criou filhos e netos com a grande preocupação de por comida à mesa (falhando por vezes), mas também provendo o alimento cultural para todos nós. Era uma mulher que amava filmes, seguia séries nos cinemas, ajudava o filho mais novo a ganhar discos nos programas de rádio, para depois escutarem juntos. Aliás, o radinho de pilha foi seu companheiro até a morte. Na sua trajetória, minhas lembranças dão conta de sempre vê-la lendo alguma coisa: bulas de remédio, receitas atrás das embalagens, jornais velhos; enfim, o que ela pudesse para ter informação. Conhecia tudo! Ficou viúva aos 59 anos e manteve-se sempre como uma líder, não por imposição, mas naturalmente. Ela era a D. Olga, e esse “dona” era como o de Don Corleone: “respeito puro”.
A narrativa de “O Cardápio da Vó Olga” revela a culinária como elemento afetivo, um elemento de ligação entre as pessoas. Qual o poder afetivo da culinária?
É um poder acolhedor! Com uma sopinha quente muita dor é curada, tanto do corpo como da alma. Portanto, quando os ingredientes faltam e nada resta para colocar no prato, o que sobra para servir é afeto. De forma humorada busquei desenhar os causos colocando o elemento culinária no melhor sentido da “comfort food” do ponto de vista de uma menina, adolescente, mulher que foi alimentada de amor da única maneira que D. Olga sabia: com comida feita com zelo, carinho, mimo, afeto. Herdei dela o prazer de ver as pessoas comerem a minha comida e ficarem felizes. A culinária é a maior demonstração de amor que se pode ofertar ao outro.
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Vivemos numa época de glamorização dos chefs de cozinha com receitas sofisticadas, “O Cardápio da Vó Olga” olha para uma direção completamente diferente. Olha para receitas simples e cotidianas como bolinho de chuva, arroz, bife acebolado e bolo de cenoura. Por quê?
Porque “O Cardápio da Vó Olga” não é um livro de receitas sofisticadas, é um livro de receitas da vida. Ele nasce da vivência de uma mulher que cozinhava a realidade, onde o tempo é curto e o dinheiro também. D. Olga cozinhava o que cabia no bolso e no dia: arroz, bife, bolinho de chuva, bolo de cenoura. Quando podia, escolhia o melhor ingrediente; quando não, reinventava. Aprendeu receitas até nos versos das embalagens, mas foi na prática diária que construiu seu saber. Sua cozinha era agilidade, economia e afeto. Em meia hora, fazia um almoço completo. Entretanto, penso que não há nada mais glamoroso do que comer comidinha de vó todos os dias. É um presente poder ter o cuidado de vó desde a mamadeira ao último bife à milanesa!
O livro também traz um retrato histórico e social do país: a mulher na cozinha, a mulher negra na cozinha, a culinária como distinção de classe social e a cozinha da necessidade. Você pensou em um livro onde afetividades e questões sociais pudessem caminhar lado a lado?
Não pensei. Eu quis falar da minha musa e, por ser uma mulher preta, o entorno dela são as questões sociais que nos envolvem, enquanto família preta. Ela vem de uma linhagem de escravizadas, numa época em que letramento racial estava longe de ser pauta e o que esses núcleos familiares viviam eram situações de abandono assistencial. Então, quando em quatro dias eu escrevi todos os causos, em nenhum momento parei para colocar questões sociais deliberadamente. Claro, sei que elas estão lá e, ao reler o livro, as percebi muito forte; porém, há dez anos atrás, eu mesma não tinha letramento racial para abordar questões de classe, raça e gênero. Meu desejo era homenagear essa mulher que ensinou tudo o que sou.
Em todo o livro há uma atmosfera profundamente amorosa. Que amor é esse?
Não sei. D. Olga e eu trocamos tantas vezes de papéis em nosso entrelaçamento, que o amor único não tem uma definição. Apenas sei que desde que me entendo no mundo, só tenho a luz da minha avó iluminando meu caminho. Não traçando rotas, apenas inspirando. Não puxando pelas mãos, mas nunca deixando de segurá-las. Nunca como âncora, nem como leme, mas uma peça que suavizou o manejo do barco. Tenho a mais absoluta certeza que ela me protege. É o amor gratidão. É o amor idolatria. É o amor de uma netinha viajando no colo da vó, na prática para não pagar passagem, mas que para aquela menininha era um momento mágico de acolhimento. Procuro nos temperos o amor da minha avó, mas sei que ele é só nosso. Delicado, discreto, perpetuado. Parece exagero, mas é amor. E muita saudade.

SERVIÇO:
“O Cardápio da Vó Olga”
Autora – Jackie Rodrigues
Editora – Outra
Prefácio – Amanda Crispim Ferreira
Páginas – 110
Quanto – R$ 49,90
Patrocínio: Promic
Lançamento:
Quando – Quinta-feira (26), às 19h
Onde – Livraria da Vila, Shopping Aurora (Av. Ayrton Senna da Silva, 400, Londrina)





