Jacira, a admiração e os sustos
Ela é uma pessoa abençoada, capaz de ver a beleza no pulo do gato e no caldo de feijão dizendo "puxa!" e "Nossa Senhora!"
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sábado, 07 de novembro de 2026
Ela é uma pessoa abençoada, capaz de ver a beleza no pulo do gato e no caldo de feijão dizendo "puxa!" e "Nossa Senhora!"

Quando o gato pula na janela, ela diz "nossa!"
Se aviso que vem chuva, ela exclama: "Nossa Senhora!"
Se comento que vou pedir comida, responde: "Puxa!"
Com Jacira é assim, em dia de faxina é um comentário atrás do outro, uma surpresa em cada ação, uma exclamação por cada acontecimento.
Notícias pesadas de mortes e roubos nem comento, ela sente na carne, e percebo que os choques pelos infortúnios são pura sensibilidade.
Tomamos café juntas quando ela chega, depois almoçamos. E as refeições também são a hora do meu espanto pelo que ela conta.
Disse outro dia que uma "patroa" de Cambé lhe deu todas as roupas vermelhas, blusas e vestidos, saias, tudo. A dona não quer mais usar vermelho depois da vitória de Lula. Nem roupa alaranjada escapou, Jacira herdou todas. Então foi minha vez de dizer: "nossa!"
O que chama a atenção em Jacira é a hipérbole que mora em sua cabeça. Tudo é grande, espantoso, mesmo que seja só o pulo do gato ou o aviso de que vamos pedir comida pronta para não sujar mais panelas.
Jacira me lembra o maravilhamento dos surrealistas, pode parecer exagero, hipérbole da minha cabeça, mas vejo uma aproximação entre seu comportamento e o impacto surreal dos artistas diante do cotidiano.
Trata-se de um modo de ver a vida, como se nas coisas corriqueiras existisse um atrito, uma faísca poética que causa a admiração profunda diante da flor que se abre ou do temporal que se aproxima.
O dia com ela é feito de ahs e ohs! E me faz refletir sobre o fato de já não me encher de tanta admiração, neutralizando os acontecimentos.
Mas os sobressaltos de Jacira também refletem a falta, além do encantamento.
Um dia acabou o gás lá em em casa e ela me ligou afobada para noticiar, como num plantão da TV, que o cozimento do feijão havia ficado pela metade. "Acabou o gás!" "Acabou o gás!", dizia numa agitação incomum.
Então percebi que "acabar o gás" para ela era um problemão, além da chatice habitual. Em sua casa, isso significa lidar com a falta de dinheiro.
Acalmei Jacira dizendo que íamos comprar outro botijão. Aprendi que o exagero às vezes reflete a falta.
Jacira é uma pessoa afobada, mas abençoada, capaz de ver a beleza na janela que se abre para a avenida Paraná, no pulo do gato, no caldo de feijão, dizendo "puxa!" e " Nossa Senhora!" a cada sobressalto, encantamento ou susto, reagindo ao imprevisível como quem mergulha de corpo inteiro, todos os dias, no mar da vida.
O encantamento de Jacira é para poucos, para aqueles que ainda não perderam a gratidão pela simplicidade e a reverência pela grandeza do cotidiano.


Celia Musilli
Jornalista


