Histórias e histórias do milho, o mais humano dos cereais
Em seu quintal, minha vó sempre plantava uns poucos pés de milho, “só pra ver, pra lembrar do tempo de menina”
PUBLICAÇÃO
sábado, 08 de agosto de 2026
Em seu quintal, minha vó sempre plantava uns poucos pés de milho, “só pra ver, pra lembrar do tempo de menina”
Domingos Pellegrini 

“Cês são todos filhos do milho” – Vó Tiana falava aos netos quando lhes dava pamonha (ou cural, ou bolo de milho, ou milho cozido ou assado nas brasas do fogão a lenha).
Em seu quintal ela sempre plantava uns poucos pés de milho, “só pra ver, pra lembrar do tempo de menina”, quando o milharal de seu pai “dava comida pra gente, pros porcos, pras galinhas e pras cabras”, assim o milho virando carne, banha, leite e ovos, e também por isso, ela gostava de dizer, “somos todos filhos do milho”.
Hoje vemos o milho ajudando a agricultura a sustentar não só muitos brasileiros quanto nossos governos federal e estaduais, pois é plantado em todos os Estados, com produtividade e geração de impostos crescentes, até porque se transforma em carnes para grande consumo interno e exportação, e assim o milho produz História, como tanto também produziu o café e depois a soja.
A História do Milho começou no México e arredores, onde (conforme medições radiativas de vestígios fósseis) já era cultivado há mais de 5 mil anos. Antes era gramínea alta cujas sementes foram sendo selecionadas pelos nativos até se tornarem as espigas que passariam a ser o principal alimento das civilizações maia, asteca e inca. Quando os europeus chegaram em caravelas, o milho já era cultivado também pelos indígenas do Brasil em clareiras nas matas.
Depois, levado para a Europa o milho foi mais desenvolvido e se tornou o cereal mais produzido no mundo, competindo com o trigo por ser usado na alimentação até de pets como ração. Sua história lembra a da batata, que também teve origem americana nos Andes há mais de 7 mil anos. Levada para a Europa já pelos navegantes do século 16, foi tão vastamente consumida, principalmente por trabalhadores braçais, que causou mais de milhão de mortes quando suas safras foram sustadas por doença no século 19. No Brasil, ganhou nome de batata-inglesa por ser muito pedida nas refeições pelos ingleses que, lá pelo começo do século 20, vieram ao Brasil para construir ferrovias.
Mas a batata alimenta muito menos que o milho que, além dos humanos, é comido por bovinos, suínos, galináceos e caprinos, gerando carnes e leite e ovos e seus derivados, e assim 70% do milho do mundo produz proteínas. No Brasil, tem produtividade crescente: de 1.600 quilos por hectare para quase 4 mil nos últimos 30 anos – mas ainda com grandes efeitos ambientais negativos devido a defensivos e fertilizantes químicos porém em redução até porque muito caros.
Se o milho ainda nos deve correção ambiental, entretanto temos muito a agradecer a esse cereal que levamos até ao cinema como pipoca.
Ou como disse Vó Tiana num dia que uma vasilha de milho-pipoca caiu no chão:
- Só assim esparramado milho consegue ser ruim, mas é só catar e pronto.
E ainda há que lembrar das farinhas, a de-milho ou o fubá, cozinheiras de tantos doces e delícias também a mostrar que sim, somos filhos do milho! E pamonha me dá baita saudade de minha vó...


