O espetáculo "(Um) Ensaio sobre a Cegueira", do Grupo Galpão, de Belo Horizonte, adaptação do romance "Ensaio sobre a Cegueira", do escritor português José Saramago (1922–2010), publicada em 1995, terá a sua segunda apresentação em Londrina, no Cine Teatro Ouro Verde, neste domingo (14). Com ingressos esgotados, a atração integra a programação do Festival Internacional de Londrina - FILO, que segue até 28 de junho.

Rodrigo Portella assina a direção e dramaturgia acerca de uma epidemia de cegueira que assola uma cidade e priva seus habitantes de enxergar o mundo como antes. Tudo começa com um homem no trânsito, repentinamente cego. Rapidamente a condição se espalha e coloca à prova a moral, a ética e as noções de coletivo.

(Um) Ensaio Sobre a Cegueira: com ingressos esgotados, grupo Galpão faz duas sessões do espetáculo que tem 140 minutos de duração em Londrina
(Um) Ensaio Sobre a Cegueira: com ingressos esgotados, grupo Galpão faz duas sessões do espetáculo que tem 140 minutos de duração em Londrina | Foto: Guto Muniz/ FILO 2026/ Divulgação

Na análise do Doutor em Literatura de Língua Portuguesa pela Universidade de Coimbra, Wagner Merije, estudioso da obra de Saramago, o autor propõe mais que uma alegoria apocalíptica. "Ele lança um apelo urgente por um novo pacto social. O mundo narrado por ele colapsa não apenas pela perda da visão, mas porque cada um se torna prisioneiro de si. O individualismo, tratado como normalidade, revela sua face cruel: medo, egoísmo e brutalidade. Mas há uma fresta. E é pela ação coletiva, pela solidariedade que resiste mesmo no escuro, que se insinua uma saída".

Na visão de Merije, o Grupo Galpão, por sua vez, amplia esse chamado. "Em tempos de incerteza e reclusão, somos provocados a refletir: qual projeto de mundo estamos construindo? Que sociedade nasce quando escolhemos cuidar uns dos outros? Saramago não escreve sobre o fim - escreve sobre o que pode recomeçar. Porque só o outro é caminho, farol, salvação", pontua.

Em entrevista exclusiva à Folha de Londrina às vésperas da estreia em Londrina, na sexta-feira (12), o ator e diretor assistente de direção Paulo André e o ator e diretor musical Luiz Rocha manifestaram a satisfação pelo retorno ao Ouro Verde e pontuaram o quão atemporal é o tema.

A respeito do uso do artigo indefinido "um" e entre parênteses no título da adaptação de "(Um) Ensaio sobre a Cegueira", ele explicam que trata-se uma sugestão de diferentes possibilidades de ensaios. "Ainda que escrita e concluída por Saramago no século XX, ela não está fechada e essa é a nossa proposta".

Paulo André e Luiz Rocha, do Galpão: "Levamos para o palco 14 pessoas da plateia. "Elas compram o "Ingresso Experiência" e integram o espetáculo"
Paulo André e Luiz Rocha, do Galpão: "Levamos para o palco 14 pessoas da plateia. "Elas compram o "Ingresso Experiência" e integram o espetáculo" | Foto: Fábio Alcover/ FILO 2026/ Divulgação

SENTIDOS E REFLEXÕES AGUÇADOS

Desde a sua estreia em abril de 2025 - em celebração aos 30 anos da obra de Saramago, a criação do Grupo Galpão propõe uma reflexão profunda sobre a moralidade, a ética e a fragilidade dos limites que separam a civilização da barbárie. Toda a experiência cênica, por sua vez, é construída em torno da imaginação, utilizando som, música, luzes e objetos para colocar o espectador no centro da distopia de Saramago. "Os sentidos são aguçados por meio da música, da iluminação, por exemplo", adiantam Paulo André e Luiz Rocha.

A aclamada montagem destaca-se por sua proposta imersiva, na qual parte do público acompanha a experiência teatral vendada diretamente no palco. "Levamos para o palco 14 pessoas da plateia. "Elas compram um ingresso chamado "Ingresso Experiência" e são convocadas para ir para o palco. Elas são vendadas e integram o o espetáculo junto com a gente sem ensaio, sem saber o que vai acontecer", explicam os integrantes do elenco.

Com 140 minutos de duração, "(Um) Ensaio Sobre a Cegueira" não cansa. "A imersão é profunda graças à trilha sonora e direção musical do Frederico Puppy. Ele desenvolveu uma pesquisa sonora, tudo é tocado ao vivo pelos atores de modo que ampliamos a escuta e isso promove camada sensorial e coloca o espectador dentro do espetáculo", observam.

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Desde sua temporada de estreia, o coletivo segue em turnê por festivais importantes e comemora a manuteção de eventos attísticos e culturais como o FILO. "O Galpão nasceu de um festival, do Festival de Teatro da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 1982 e os festivais são lugares de fomento da cultura, de formação de público e também de formação de artistas, afinal de contas, durante os festivais acontecem todas essas possibilidades. O teatro é uma arte do encontro e, sem os festivais é muito mais difícil essa oportunidade tanto para que nós artistas conheçamos outros, assim como o público", ratificam os atores que também destacam o quão fundamental é o patrocínio por meio da Lei Rouanet.

AÇÕES FORMATIVAS

Uma das ações formativas mais esperadas durante o Festival Internacional de Londrina é o “Bate-Papo FILO” que promove a troca de conhecimento e experiência entre os artistas e o público. Com ampla programação, na terça-feira (16), às 9h30, tem bate-papo com integrantes do Mevitevendo Teatro (SP), na UEL/Campus – Sala 683 (Sala de Eventos do CECA). Domingo (21), às 16h30, tem encontro com a Cia. Alice Ripoll (RJ), do espetáculo “Puff”, na Usina Cultural (Av. Duque de Caxias, 4.159). Na terça-feira (23), às 14h30, no hall do Teatro Ouro Verde (R. Maranhão, 85), tem bate-papo com Rodrigo Portella, diretor das montagens “(Um) Ensaio sobre a Cegueira” e “TIP”. Os eventos são gratuitos e abertos ao público em geral.

SERVIÇO

FILO - Festival Internacional de Londrina

Quando: de 12 a 28 de junho

Mais Informações: https://filo.art.br/

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