Bilhetes escondidos entre as páginas de um livro; flores de cerejeira de plástico; receitas da cozinha japonesa; um ou dois versos de um haikai antigo... Meros objetos efêmeros para qualquer pessoa que não seja o centro das atenções daqueles para quem essas relíquias significam tudo.

As pessoas em questão neste drama romântico (e por momentos quase arrebatador) são Kristopher (Palmi Kormákur) e Miko (Kōki), os protagonistas de “Touch” (disponível em Netflix) um amor clandestino na Londres dos anos 1960 e repentinamente interrompido por impositivas obrigações familiares.

Esta é uma história de amor perdida no tempo e nos obstáculos: pura, simples e afetuosamente emocional
Esta é uma história de amor perdida no tempo e nos obstáculos: pura, simples e afetuosamente emocional | Foto: Divulgação

Kristopher é o jovem islandês gentil e politicamente engajado, mas sem maiores compromissos com a esquerda. Ele abandona a London School of Economics para trabalhar como lavador de pratos no restaurante japonês do pai de Miko, onde também se interessa por gastronomia. Ela é a bela jovem de voz suave, cuja postura tranquila mas determinada esconde uma franqueza desarmante. E algum segredo.

O roteiro não esconde a estrutura narrativa literária do material original, nos imergindo na consciência e nas memórias de Kristopher agora septuagenário (Egill Ólafsson), um discreto viúvo islandês, que tenta pôr sua vida em ordem depois de descobrir os primeiros sinais de demência. Ao perceber como é precioso este momento de sua existencia, determinação e sentimentos o transformam em um protagonista decidido, leve e imprevisível: logo ele se encontra em Londres, em março de 2020, indiferente à ameaça que o Covid-19 representa para pessoas de sua idade; e logo vai ao Japão na tentativa de reencontrar Miko onde a população também se prepara detalhadamente para o confinamento.

Ele não só tentará descobrir o motivo do súbito desaparecimento de Miko há 50 anos, mas quem sabe de alguma forma se reconectar com ela, se viva. Na tela, esse tipo de história de amor é invariavelmente sedutor. O espectador sabe que nunca é tarde demais, como sussurram os fados que ao mesmo tempo se revelam nas décadas perdidas gravadas com vincos no rosto de Kristopher, e como podem ser etéreas as sedutoras promessas.

Dirigido por Baltasar Kormákur – em tempos recentes um diretor cooptado por esta Hollywood rasteira, de ação feroz e desenfreada pancadaria – e adaptado para o cinema por Kormákur e Ólafur Jóhann Ólafsson a partir do romance deste, “Touch” é assumidamente antiquado em sua simplicidade; os irredutíveis fãs de romance geralmente precisam procurar por amor desajeitadamente aninhado em outros gêneros, mas aqui não há disfarces, via perseguições de carro ou quedas engraçadas.

Esta é uma história de amor perdida no tempo e nos obstáculos: pura, simples e afetuosamente emocional. Kormákur também entende o apelo visual da love story: não se trata apenas de conversas íntimas ou declarações de paixão arrebatadoras, mas sim das imagens em belos planos. Mesmo que seja algo tão simples quanto Kristopher e Miko pegando um ônibus juntos, as composições formais de Kormákur exalam um elegante imaginário pictórico: braços masculinos em um suéter de lã creme, a cabeça da garota inclinada para olhar em seus olhos, seus dedos entrelaçados, a luz do sol tão dourada quanto deveria ser.

Essas cenas se desenrolam lentamente, nos permitindo saborear a atmosfera de época e a química entre os personagens como se estivéssemos muito próximos, algo ainda mais intensificado pela música (clássicos pop dos Zombies e Nick Drake), bem como pelos paralelos traçados entre Kristopher/Miko e John Lennon/Yoko Ono.

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Kormákur acelera o ritmo e diminui um tanto a plausibilidade quando o desejo de Kristopher de descobrir o que aconteceu com seu grande amor da juventude o leva a Tóquio, enquanto o mundo reabre lentamente após o confinamento, até que todas as nossas perguntas, incluindo as de relevância política, sejam respondidas.

A princípio, “Touch” parece livre de conflitos, mas de repente somos forçados a processar uma avalanche de informações, incluindo conexões narrativas com os trágicos bombardeios atômicos de Hiroshima e Nagasaki.

Se formos rigorosos, podemos dizer que a vida interior de nenhum dos dois peresonagens é aqui tão bem desenvolvida quanto seria permitido em um romance, mas talvez não precise ser: eles funcionam como avatares ou representação de esperanças e sonhos românticos, proporcionando todo o prazer e a dor que buscamos quando nos entregamos a um bom romance.

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