O mais recente trabalho do sempre alternativo Jim Jarmusch traz à tona as dificuldades familiares com humor sutil e elegância.

O longa-metragem “Pai, Mãe, Irmã, Irmão” , em lançamento em Londrina nesta quinta-feira, 9, confirma mais uma vez o talento do cineasta americano para destilar o que é aparentemente banal em uma espécie de estado de graça cinematográfico.

Estruturado como um tríptico, o filme gira em torno de filhos adultos que se reconectam – de bom grado ou não – com seus pais, em encontros que variam do cômico ao silenciosamente aflitivo.

Filmado em três países e com um elenco impressionante, é ao mesmo tempo modesto e ambicioso, uma obra intimista que se detém em pausas, silêncios e nos pequenos rituais da vida. O capítulo de abertura, "Pai", se passa nas florestas nevadas dos EUA, onde um patriarca aposentado e excêntrico, interpretado com paixão irônica por Tom Waits, recebe a visita de seus filhos adultos.

Adam Driver, sempre perplexo, e Mayim Bialik, num papel atípico, interpretam os hóspedes relutantes que precisam lidar com o comportamento indecifrável e as rotinas excêntricas do pai. A esta altura a comédia surge de pequenos absurdos – brindes com copos cheios de água, silêncios constrangedores e prolongados –, e Jarmusch permite que esses momentos se desenrolem sem forçar as anedotas.

O segundo capítulo, "Mãe", se passa em Dublin. Charlotte Rampling, sempre extrordinária, personifica uma escritora célebre, mas emocionalmente distante, cujo reencontro tenso com suas duas filhas afastadas (interpretadas por Cate Blanchett e Vicky Krieps) se torna mais uma vez uma oportunidade para dizer o que permanece não dito.

HUMOR AFIADO

Jarmusch enquadra os encontros em torno de uma mesa de chá, onde uma bandeja de doces em tons pastel desaparece gradualmente com o passar do tempo, um delicado marcador visual. Aqui, o humor é afiado, tingido de melancolia e imerso na afeição de Jarmusch pelo ritmo teatral.

A história final, "Irmã e Irmão", nos leva a Paris, onde dois irmãos retornam à casa de seus falecidos pais para uma última visita. Os desconhecidos mas bons atores Indya Moore e Luka Sabbat provam ser uma dupla carismática, capturando a dinâmica da intimidade entre irmãos – discussões, piadas e, de repente, confissões sinceras.

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Este capítulo começa em tom menor, quase hesitante, mas gradualmente se aprofunda na representação mais comovente dos três. A obra retrata não apenas o fim de uma era familiar, mas também a inquietação da vida adulta.

Ao parecer não oferecer nada, o filme entrega muito ao espectador. É irônicamente divertido, e se contenta em permanecer em nosso limiar pelo tempo que for necessário, ou até que alguém na imagem quebre o silêncio desconfortável.

Em suma, o “Pai, Mãe, Irmã, Irmão” se concentra menos na propulsão narrativa do que no clima e na observação. Seu humor é peculiar, mas nunca cruel; sua melancolia é sutil, não melodramática. O que emerge é um filme que, superficialmente, trata de famílias disfuncionais; mais profundamente, aborda o desconforto peculiar do contato pessoal no cotidiano.

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