Filme de Falabella divide opiniões em Gramado
Drama frágil com toques de comédia, “Querido Mundo” é peça transformada em filme
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 19 de agosto de 2025
Drama frágil com toques de comédia, “Querido Mundo” é peça transformada em filme
Carlos Eduardo Lourenço Jorge/ Especial para a FOLHA 

GRAMADO (RS) - Durante muitos anos comandando a mesa de debates nos Festivais de Gramado (décadas de 1980, 90 e até 2010), aprendi um vasto repertório de peculiaridades, a maioria úteis, principalmente para meu oficio como crítico. A convivência com meus pares, jornalistas do Brasil e latino-americanos de grande capacidade profissional na lida diária com filmes das mais variadas espécies, proporcionou memoráveis lições no trato direto com diretores, produtores, roteiristas, atores, atrizes, técnicos e seus respectivos egos.
A abertura deste texto tem (tudo ou quase tudo) a ver com a coletiva-debate que se seguiu à projeção do longa metragem “Querido Mundo”, dramédia escrita e dirigida por Miguel Falabella concorrente aos Kikitos que serão anunciados na noite de encerramento no sábado (23). Quando a projeção de segunda-feira terminou, as opiniões claramente se dividiram, e impressões foram trocadas entre críticos presentes e espectadores, como acontece como uma espécie de tradição. Quase um ritual. Houve quem gostasse (não muitos), quem tivesse achado mais ou menos, quem imediatamente descartasse e ainda os que inclusive invocaram constrangimento diante da realização.
E então, na manhã seguinte, diante dos vários membros da equipe do longa metragem à disposição da plateia mista (imprensa e público em geral) foram anotadas as opiniões, antes rigorosas, agora já em vias de transformação. Como hoje. O que ontem no filme era duvidoso e passível de observações críticas plausíveis e justas agora se tornou palatável, como se tudo assistido convidasse à adesão. Por quê? Ao vivo e a cores (embora seu filme seja em preto & branco), para alguns torna-se difícil a blindagem contra o perfil carismático e sedutor de Falabella, sua simpatia inerente e seu cativante envolvimento. Neste sentido, ele é imbatível como influencer.
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NAS TELAS
“Querido Mundo”, peça escrita há 32 anos por Miguel Falabella, chega agora ao cinema pelas mãos de seu criador. No palco do Palacio dos Festivais, irreverente, ele não mediu palavras para descrever seu trabalho: “É um filme louco, bizarro, uma comédia gótica. É completamente diferente de tudo o que eu já fiz. Acho muito bom, à essa altura da vida, eu poder experimentar”. Sua definição está correta. Até certo ponto. É bizarro sim, mas semilouco e semigótico, não é uma comédia gótica, é um drama com elementos (poucos) de comédia. Não deixa de ser um filme experimental., e é sim algo novo na carreira de Falabella.
Na trama, a atriz Malu Galli (excelente) interpreta Elsa, mulher sofrida que não consegue se libertar de Gilberto, seu marido abusivo/violento (Marcello Novaes). Ela vê a vida de cabeça para baixo quando ele vende o sítio onde moram no interior e a leva para viverem num prédio inacabado no Rio de Janeiro. Lá ela acaba encontrando Oswaldo (Eduardo Moscovis), um engenheiro que também está tentando se acostumar com a própria falência e com o fato de que sua mulher (Daniele Winits) não o quer mais.
O roteiro respeita a origem teatral ao dar valor aos extensos diálogos num mesmo cenário - especialmente os que Malu e Moscovis contracenam num cenário em ruínas que sobrou após a explosão de um botijão de gás. Em plena noite de Ano Novo, estes dois seres perdidos procuram uma saída juntos conversam sobre vida e morte e dividindo um vinho e tentando imaginar o futuro. Assumindo um tom novelesco, o texto procura dar destinação a uma paixão improvável.
Em luta contra o exagero, a pieguice e o enfadonho, o filme oscila entre o a seriedade, o sarcasmo e a cafonice, e às vezes parece conduzir um conflito engessado, embora previsível. A ressaltar novamente a presença de Malu Galli, que acaba sendo uma espécie de tábua de salvação mesmo que a trama não tenha profundidade para afundar.
O DESASTRE DOS CURTAS NACIONAIS
Deplorável, a qualidade dos curtas metragens brasileiros em competição. Divididos em duas sessões com meia dúzia de títulos cada, o que se viu na primeira metade foi um sequência de títulos cuja qualidade mais notável foi o olhar dirigido ao próprio umbigo.
Envelhecidos, todos estes se mostraram alinhados com o que o gênero mostrou aqui em mesmo em Gramado, 20, 30 anos atrás. Nenhuma novidade. Tédio profundo.
(O jornalista está em Gramado a convite da organização do Festival)




