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Londrina

O CINÉFILO FIEL

m de leitura Atualizado em 07/07/2022, 05:29

Emma Thompson vai à luta por prazer em 'Boa Sorte, Leo Grande'

Filme que estreia nas salas brasileiras na segunda quinzena de julho traz a atriz numa interpretação brilhante

PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 07 de julho de 2022

Carlos Eduardo Lourenço Jorge/ Especial para a FOLHA
AUTOR autor do artigo

Foto: Divulgação
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Todo cinéfilo razoavelmente informado sabe que Emma Thompson é uma joia, um tesouro internacional. O que "Boa Sorte, Leo Grande" faz pensar é: talvez ela seja ainda mais brilhante, uma atriz ainda maior. O filme, com lançamento nas salas brasileiras previsto para a segunda quinzena desde mês, é uma peça fascinante de cinema, uma aula de atuação, uma celebração da palavra escrita e um poderoso apelo cinematográfico por autoaceitação e amor-próprio.

Thompson, duas vezes vencedora do Oscar, apresenta indiscutivelmente a melhor atuação de sua carreira nesta comédia dramática da diretora australiana Sophie Hyde, enquanto o promissor Daryl McCormack ("Peaky Blinders") também é espetacular como o personagem-título, Leo Grande. Anote em sua agenda: filmes como este não aparecem todos os dias. E você não vai querer perder este.

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Daryl McCormack e Emma Thompson em "Boa Sorte, Leo Grande": uma aula de atuação |  Foto: Divulgação
 

Nancy (Thompson) está nervosa. Viúva e professora aposentada, ela passou a vida inteira fazendo tudo exatamente como manda o manual. Mas o dia disso tudo acabar chegou afinal. Ela fez algo totalmente fora de seu malfadado script de vida: contratou um trabalhador do sexo, jovem e bonitão, para dar a ela as experiências sexuais que sempre quis mas nunca teve. Quando o charmoso Leo Grande (McCormack), de vinte e poucos anos, chega a seu quarto de hotel, Nancy está uma pilha de nervos. Sua aparente calma e estudada descontração estão em contraste direto com seus pensamentos ariscos, e à medida que a conversa flui, os personagens desconstroem as camadas um do outro e expõem vulnerabilidades, histórias de vida e feridas inesperadas.

A maior parte do filme consiste em duas pessoas simplesmente conversando em um único espaço, mas graças ao excelente roteiro de Katy Brand, essas conversas são tão fascinantes quanto qualquer outra coisa inteligente que você viu na tela nos últimos anos. E cá entre nós, e você sabe, isso foi raro.

Thompson e McCormack pulsam juntos na tela; ela alimenta com seriedade e humor essa mulher reprimida, enquanto ele consegue se sentir simultaneamente o cara mais legal do mundo e aquele que está usando seu exterior impecável para esconder uma tremenda dor pessoal. O drama é tão autêntico e naturalista que parece que você está realmente na quarto com Nancy e Leo, resultando uma experiência totalmente imersiva – uma que é tão atraente que às vezes você pode esquecer que está assistindo um filme.

Parte da imersão decorre da novidade da premissa. Ainda não deve parecer um ato radical em 2022 um filme centrar-se na ideia do prazer feminino, mas como esse tópico é sempre ridiculamente subexplorado, há um nível extra de curiosidade para quem está vendo como ele é abordado aqui. Esta é uma parte vital deste filme, e é importante e significativo ver esse tipo de positividade sexual na tela em uma cultura que normalmente evita qualquer discussão franca sobre sexo.

Mas – e tão significativo e relevante quanto – o filme também está preocupado com a vergonha que as mulheres podem sentir sobre seus próprios corpos depois de muito lutar para não se afogar em meio a padrões de beleza irreais e serem bombardeadas por imagens implacáveis ​​​​de "perfeição", às quais não podem se comparar.

O desconforto que atravessa o rosto de Nancy é devido a uma vida inteira de decepção consigo mesma e, em sua essência, "Boa Sorte, Leo Grande" é sobre encarar essa decepção de frente, fazer a escolha pela superação e encontrar o que está do outro lado. A culminação é um momento final luminoso e inesquecível, declaradamente o mais desafiador da carreira de Emma Thompson.