Entre as categorias mais notáveis ​​do cinema enfadonho e/ou entediante, e logo atrás da cinebiografia de heróis acima de qualquer suspeita, encontramos o filme histórico. Mas não qualquer filme histórico. Existem produções com atmosfera de outras épocas cuja missão essencial é recriar o passado como se fosse uma espécie de parque temático, sem outra intenção além de ganhar estatuetas de direção de arte e figurino.

Digamos que estes, com o subgênero “desenho de produção” à frente, são inofensivos. Existem para o prazer visual e para engrandecer a ingenuidade do espectador. E depois há os didáticos. Estes são os mais perigosos. Sempre vêm com o subtítulo "necessário", têm uma direção de fotografia um tanto sombria, música grandiosa com certa tendência ao minimalismo expressivo, e os atores, quase todos, fazem os mesmos gestos exagerados daquele nosso antigo professor de história sempre que erramos o século (o que era mais comum do que justificável). Claro, se não ganham o Oscar, há o drama. “Nuremberg” é, sem dúvida, um exemplo deste último.

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Desde o início, o filme não esconde o fato de que seu lançamento coincide com um aniversário. O que não é necessariamente algo ruim. Oitenta anos atrás, na cidade mencionada no título, líderes nazistas foram julgados por seus crimes em um tribunal que inaugurou o Direito Penal Internacional. Foi também lá que o cinema se tornou, pela primeira vez, prova em tribunal. O filme sobre as consequências dos horrores dos campos de extermínio chocou o mundo e provavelmente influenciou cada uma das 13 sentenças de morte (mais três sentenças de prisão perpétua).

O roteiro (e agora direção) de James Vanderbilt (“Zodiac”), escrito antes de ele se tornar diretor, aborda tudo isso. O filme recria o julgamento mais famoso e marcante da história recente, mas não como"Julgamento em Nuremberg", a lendária obra de Stanley Kramer de 1961, e sim a partir de uma perspectiva surpreendente: segundo o livro de Jack El-Hai, “O Nazista e o Psiquiatra”, o protagonista, interpretado por Rami Malek, é o médico encarregado de decidir se Hermann Göring (interpretado por Russell Crowe, com presença tão imponente quanto impenetrável) estava em pleno uso de suas faculdades mentais para fazer e permitir o que fez, e permitir que aquilo acontecesse.

ZELO EXCESSIVO

Em outras palavras, determinar os limites da loucura e do mal. Sem dúvida, a premissa é, no mínimo, interessante, e dado o atual clima mundial de fervor fascista e o movimento internacional de ódio, até mesmo muito oportuna.

O problema reside em outro lugar. O problema é a tendência flagrante ao tédio em uma produção essencialmente tediosa. Nenhuma imagem, nenhuma linha de texto e, sobretudo, nenhum dos gestos desmedidos de Crowe se preocupa em disfarçar seus anseios, sua gana de importância. Aqui, o relevante é a lição que o filme quer transmitir.

O zelo excessivo do diretor em não se desviar um centímetro sequer do roteiro de filmes de época, filmes de prestígio, filmes de arte, filmes sérios... acaba sufocando qualquer indício de intensidade genuína, não fingida.

Assim, “Nuremberg” se filia, se engaja à ortodoxia do que deve ser contado com um rigor que, em vez de assustar ou surpreender, chega a desanimar. No entanto, é preciso reconhecer, tudo se desenrola de forma plácida (e até recreativa) dentro das convenções da dramaturgia clássica dos embates de tribunal (especialmente o ato final), sem pausas e com decoro. Sim, é um filme tedioso, mas Crowe certamente receberá sua indicação ao Oscar daqui a um ano. Afinal, deve ter sido uma trabalheira insana ele aprofundar e se enrolar naquele inglês macarrônico... e também não custa revelar que a verdadeira estrela do filme é Rami Malek, um divo obcecado em parecer ainda mais desajeitado diante do espectador (pobre Freddie Mercury, não merecia...)

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