Era o ano de 1963. Um garoto de 13 anos de idade estava no Cine Londrina assistindo o filme “Casinha Pequenina”, protagonizado por Mazzaropi e ambientado no Brasil Império. Uma das cenas deixou o menino particularmente perturbado: amarrado em um pelourinho, um escravizado era brutalmente chicoteado. Quando deixou o cinema, caminhou diretamente para casa. Pegou o lápis e escreveu seu primeiro poema no caderno escolar.

Esse garoto era Domingos Pellegrini. E o poema foi o pontapé inicial para a frutífera carreira literário do escritor londrinense com mais de 40 livros publicados.

Embora seja mais conhecido por sua obra em prosa envolvendo romances, novelas e contos, a poesia sempre esteve presente em sua literatura.

Recentemente Pellegrini começou a organizar sua produção poética inédita em quatro volumes (três de poesia e um de haicais) escritos entre 1970 e 2020.

O primeiro volume, “Caminhos do Coração” publicado pelo Sesc Paraná, será lançado nesta quarta-feira (22), no Sesc Londrina Cadeião, às 19 horas. Além de sessão de autógrafos, o autor fará leitura de poemas do livro.

A temática dos versos trafega entre família, princípios, amor, tempo, mudanças, amigos, lugares, orações e animais.

Na definição de Domingos Pellegrini, sua poesia é moderna, mas lastreada pela poesia tradicional: “Faço poesia com rima e métrica, mas numa linguagem em que qualquer caboclo entende, como dizia meu nonno José.”

Vencedor do Prêmio Jabuti em seis edições, Pellegrini é autor de “Terra Vermelha”, o grande romance épico sobre a colonização do Norte do Paraná.

A seguir a FOLHA publica alguns dos poemas que integram “Caminhos do Coração”, lançado pelo Sesc Paraná.

Leia mais:

Olhar

O olhar fala quando a gente

o olhar conta o que a gente

o olhar revela se a gente

cala esconde e sente

*

No olhar o farol da gente

sai lá de dentro e

se tem luz vejocê

clareia tudo que vê

*

O olhar é tudo que cala

mas fala ó como que

como sem abrir a mala

já saber o que contém

*

O olhar não procura ver

apenas acha visão

ainda mais se também

olhando com coração

*

Ditos do Nonno

“O melhor vinho é aquele ali na mesa

“A melhor sopa é feita pela fome

“O melhor sono é o que o trabalho dorme

“Coisa bonita é casa toda acesa

*

“Coisa mais valiosa é o próprio nome

“Criança respeitosa é uma beleza

“Mais vale perguntar que ter certeza

“Família é a maior fortuna do homem

*

“A lesma não tem pressa e sempre chega

“Carma, que a vida é curta mas cumprida

“O ódio não vê e inveja não se enxerga

*

“O cego vê que vai melhor perdoando

“Passarinho não tem guarda-comida

nem guarda-roupa – mas vive cantando!

*

Mutanto

Se não sou mais o que era

não me alegro nem lamento

mudei como muda o vento

de uma pra outra terra

*

Por fora e dentro mudando

mudei de tantas maneiras

e as fotos são tão sinceras

mostrando que mudei tanto

*

Sempre assim me procurando

descubro enfim que mudar

é o mais completo destino

*

Porém nunca vão mudando

a permanência do ar

a saudade do menino

Francisco

Mundo fazei de mim teu cidadão

pra diante do ódio olhar adiante

onde há ofensa fazer uma festa

onde há verdade aventar a dúvida

na escuridão escancarar janelas

plantar riso e ternura na rotina

e onde já-era virar a página

*

Velho tempo dai-me a graça

de trabalhar com amor

não calar por temor

fazer bem o que faça

e tomar com gosto

cada gole da taça

*

Já novo tempo

tão só dê tesão

para fazer o que

manda o coração

Rua

Rua quieta de Londrina

te quero pelo teu cheiro

de poeira e jasmineiro

teus meninos e meninas

*

Tuas casas de madeira

a pipa que lá empina

teu boteco ali na esquina

até mesmo teus bueiros

*

Te quero por tua história

feita de trabalho e gente

uma ou outra borboleta

*

Longe de tantos motores

te quero principalmente

por ser uma rua quieta

Pequenices

Aquela árvore que

plantei com tanto carinho

não vingou veja você

mas a sementinha

da fruta que cuspi

brotou logo ali

já é arvorezinha

*

Na escuridão mais cega

da noite mais negra

mais relume a chama

da vela companheira

que se vai mas

deixa lágrimas

de cera

*

E a teia de aranha

tão frágil mas flexível

resistiu incrível

a tempestade tamanha

e agora goteja

jóias brilhando

na manhã

ET

Primeiro amei como quem se castiga

depois amei querendo castigar

e abraçava com falta de ar

cada palavra se fazia intriga

*

Porém um dia amor me descobriu

do meu próprio presídio me livrou

mesmo com muito medo me despiu

e apesar de mim enfim me amou

*

Amor cegasse eu ia tropeçando

amor matasse eu era um homem morto

amor é sempre um disco-voador

de porta aberta pra se ir entrando

*

Imagem ilustrativa da imagem Domingos Pellegrini: 'poesia para qualquer caboclo entender'
| Foto: Divulgação

SERVIÇO:

“Caminhos do Coração”

Autor – Domingos Pellegrini

Editora – Sesc Paraná

Páginas – 144

Quanto – R$ 55 (com envio incluso)

Vendas pelo telefone 43 99122-0463

Lançamento:

Quando – quarta-feira (22), às 19h

Onde – Sesc Londrina Cadeião (Rua Sergipe, 52, Londrina)

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