Domingos Pellegrini: 'poesia para qualquer caboclo entender'
Escritor londrinense lança nesta quarta-feira (22) "Caminhos do Coração", novo livro de poemas com rima e métrica
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 21 de abril de 2026
Escritor londrinense lança nesta quarta-feira (22) "Caminhos do Coração", novo livro de poemas com rima e métrica
Marcos Losnak/ Especial para a Folha 

Era o ano de 1963. Um garoto de 13 anos de idade estava no Cine Londrina assistindo o filme “Casinha Pequenina”, protagonizado por Mazzaropi e ambientado no Brasil Império. Uma das cenas deixou o menino particularmente perturbado: amarrado em um pelourinho, um escravizado era brutalmente chicoteado. Quando deixou o cinema, caminhou diretamente para casa. Pegou o lápis e escreveu seu primeiro poema no caderno escolar.
Esse garoto era Domingos Pellegrini. E o poema foi o pontapé inicial para a frutífera carreira literário do escritor londrinense com mais de 40 livros publicados.
Embora seja mais conhecido por sua obra em prosa envolvendo romances, novelas e contos, a poesia sempre esteve presente em sua literatura.
Recentemente Pellegrini começou a organizar sua produção poética inédita em quatro volumes (três de poesia e um de haicais) escritos entre 1970 e 2020.
O primeiro volume, “Caminhos do Coração” publicado pelo Sesc Paraná, será lançado nesta quarta-feira (22), no Sesc Londrina Cadeião, às 19 horas. Além de sessão de autógrafos, o autor fará leitura de poemas do livro.
A temática dos versos trafega entre família, princípios, amor, tempo, mudanças, amigos, lugares, orações e animais.
Na definição de Domingos Pellegrini, sua poesia é moderna, mas lastreada pela poesia tradicional: “Faço poesia com rima e métrica, mas numa linguagem em que qualquer caboclo entende, como dizia meu nonno José.”
Vencedor do Prêmio Jabuti em seis edições, Pellegrini é autor de “Terra Vermelha”, o grande romance épico sobre a colonização do Norte do Paraná.
A seguir a FOLHA publica alguns dos poemas que integram “Caminhos do Coração”, lançado pelo Sesc Paraná.
Leia mais:
Olhar
O olhar fala quando a gente
o olhar conta o que a gente
o olhar revela se a gente
cala esconde e sente
*
No olhar o farol da gente
sai lá de dentro e
se tem luz vejocê
clareia tudo que vê
*
O olhar é tudo que cala
mas fala ó como que
como sem abrir a mala
já saber o que contém
*
O olhar não procura ver
apenas acha visão
ainda mais se também
olhando com coração
*
Ditos do Nonno
“O melhor vinho é aquele ali na mesa
“A melhor sopa é feita pela fome
“O melhor sono é o que o trabalho dorme
“Coisa bonita é casa toda acesa
*
“Coisa mais valiosa é o próprio nome
“Criança respeitosa é uma beleza
“Mais vale perguntar que ter certeza
“Família é a maior fortuna do homem
*
“A lesma não tem pressa e sempre chega
“Carma, que a vida é curta mas cumprida
“O ódio não vê e inveja não se enxerga
*
“O cego vê que vai melhor perdoando
“Passarinho não tem guarda-comida
nem guarda-roupa – mas vive cantando!
*
Mutanto
Se não sou mais o que era
não me alegro nem lamento
mudei como muda o vento
de uma pra outra terra
*
Por fora e dentro mudando
mudei de tantas maneiras
e as fotos são tão sinceras
mostrando que mudei tanto
*
Sempre assim me procurando
descubro enfim que mudar
é o mais completo destino
*
Porém nunca vão mudando
a permanência do ar
a saudade do menino
Francisco
Mundo fazei de mim teu cidadão
pra diante do ódio olhar adiante
onde há ofensa fazer uma festa
onde há verdade aventar a dúvida
na escuridão escancarar janelas
plantar riso e ternura na rotina
e onde já-era virar a página
*
Velho tempo dai-me a graça
de trabalhar com amor
não calar por temor
fazer bem o que faça
e tomar com gosto
cada gole da taça
*
Já novo tempo
tão só dê tesão
para fazer o que
manda o coração
Rua
Rua quieta de Londrina
te quero pelo teu cheiro
de poeira e jasmineiro
teus meninos e meninas
*
Tuas casas de madeira
a pipa que lá empina
teu boteco ali na esquina
até mesmo teus bueiros
*
Te quero por tua história
feita de trabalho e gente
uma ou outra borboleta
*
Longe de tantos motores
te quero principalmente
por ser uma rua quieta
Pequenices
Aquela árvore que
plantei com tanto carinho
não vingou veja você
mas a sementinha
da fruta que cuspi
brotou logo ali
já é arvorezinha
*
Na escuridão mais cega
da noite mais negra
mais relume a chama
da vela companheira
que se vai mas
deixa lágrimas
de cera
*
E a teia de aranha
tão frágil mas flexível
resistiu incrível
a tempestade tamanha
e agora goteja
jóias brilhando
na manhã
ET
Primeiro amei como quem se castiga
depois amei querendo castigar
e abraçava com falta de ar
cada palavra se fazia intriga
*
Porém um dia amor me descobriu
do meu próprio presídio me livrou
mesmo com muito medo me despiu
e apesar de mim enfim me amou
*
Amor cegasse eu ia tropeçando
amor matasse eu era um homem morto
amor é sempre um disco-voador
de porta aberta pra se ir entrando
*

SERVIÇO:
“Caminhos do Coração”
Autor – Domingos Pellegrini
Editora – Sesc Paraná
Páginas – 144
Quanto – R$ 55 (com envio incluso)
Vendas pelo telefone 43 99122-0463
Lançamento:
Quando – quarta-feira (22), às 19h
Onde – Sesc Londrina Cadeião (Rua Sergipe, 52, Londrina)





