Domingos Pellegrini: a literatura que cresce com Londrina
A trajetória e a produção fértil de um escritor consagrado misturam-se à história da cidade que está completando 90 anos
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de novembro de 2024
A trajetória e a produção fértil de um escritor consagrado misturam-se à história da cidade que está completando 90 anos
Celia Musilli 

A história de Londrina já foi contada e recontada. Mas a cada novo livro ou matéria na imprensa, abrem-se caminhos, picadas e nervuras com coisas ainda a serem ditas. É assim com as cidades. É assim com os contadores de histórias que sobrepõem descobertas e reflexões redimensionando a cultura.
Sob a perspectiva literária, o autor que melhor conta a história de Londrina é Domingos Pellegrini, sem ele não teríamos livros com o esplendor da terra vermelha ou com os encalhes monumentais de ônibus e caminhões na lama das estradas. Além dos poemas, ele tem contos, crônicas e romances em narrativas tão absorventes quanto as paisagens e tipos perpassados pelo olhar de quem vive e interpreta a cidade onde nasceu há 75 anos.
Nos 90 anos de Londrina, é preciso dizer que a cidade tem um escritor tão representativo quanto sua própria história. Um autor premiado que tem na bagagem seis prêmios Jabuti - em diferentes categorias - e o reconhecimento do País como um dos grandes escritores de sua geração.
De sua bagagem, além de livros premiados - como "O Homem Vermelho" (1977) e "O Caso da Chácara Chão" (2000) - , saltam ideias de filmes como o que está sendo produzido agora: "Assalto à Brasileira", com direção de José Eduardo Belmonte, baseado em obra homônima de Pellegrini.
Nesta edição, o autor conta aos leitores mais um pouco da história da cidade que só ganhou com sua literatura, com a perspicácia que oscila entre o barro e os edifícios nos livros que, talvez, começaram a ser engendrados na sua infância quando na pensão Alto Paraná, de propriedade de seus pais, ele começou a ouvir as narrativas dos caboclos que se reuniam ao redor das fogueiras, depois de passar o dia abrindo matas. Fatos e "causos" que formam o caldo da cultura do Norte do Paraná, tão bem representada em romances como "Terra Vermelha" (2013).
A convite da FOLHA, Pellegrini fala da história da cidade em tópicos temáticos, escolhidos a dedo como quem aponta estrelas ao redor do fogo.
TERRA-ROXA
(A velha fértil)
A terra-roxa é assim chamada porque os imigrantes italianos, ao deparar com ela, chamaram de rossa (vermelho em italiano). O Norte do Paraná tem as maiores manchas dessa terra-vermelha, formada por derrames de lava basáltica há mais de 100 milhões de anos, tanto aqui no Brasil como na África do Sul, lá formando uma região semi-árida chamada Formação Karoo, com baixa fertilidade para agricultura. Aqui, graças às chuvas regulares, o basalto virou terra fértil, ganhando a cor vermelha devido ao óxido de ferro das rochas originais. Assim, nossa terra é uma velha fértil.
KAINGANG
(Fora das reservas)
Os nomes indígenas de distritos londrinenses Paiquerê, Irerê e Guaravera, já indicam a antecedência indígena no Norte do Paraná. Mas, quando a Companhia de Terras começou Londrina, poucos indígenas ainda viviam no Sertão do Tibagi, depois de séculos de perseguições por fazendeiros e verdadeiros massacres por bandeirantes paulistas. Era normal bandeiras chegarem a São Paulo, depois de mês varando mata, com só metade ou menos dos aprisionados ainda vivos. Alguns milhares de sobreviventes viveram na Reserva de São Pedro de Alcântara, no Rio Tibagi diante de Jataizinho, antes de serem levados para reservas. Com o tempo, foram se reservando o direito de também ser cidadãos, com direitos e deveres, participação política e afirmação cultural, num movimento hoje intenso.
COLONIZAÇÃO
(A filha de Londres)
Os chamados ingleses, na maioria escoceses ligados à Casa Rothschild, não supunham estar abrindo uma região que produziria tanto café, por isso planejaram uma colonização acanhada, por exemplo prevendo uma população de apenas 30 mil para Londrina. Para ajudar Londres na Segunda Guerra, venderam a companhia a brasileiros, que não zelariam pela conservação de matas nas nascentes e beiras de rios. Mas o sucesso da colonização britânica, como preferia dizer o primeiro londrinense George Craig Smith, vê-se já no fato de que da dúzia de cidades planejadas, de Londrina a Cianorte, nenhuma deixou de prosperar gerando regiões densamente povoadas.
IMIGRANTES
(A mistura)
Pela Balsa do Tibagi, nos primeiros cinco anos passaram mais de cinco mil pioneiros londrinenses de trinta países do mundo e de regiões de todo Brasil, na maioria trabalhadores braçais, muitos com passagem já por fazendas de café. Todos queriam vida nova numa terra nova, tanto que muito poucos voltariam para suas origens. Quando seus países se enfrentaram na Segunda Guerra, eles continuaram voltados para sua nova terra. Quando a Capital do Café foi quebrada da noite para o dia pela geada-negra de 1975, a eles se juntou gente de toda a região, formando os Cinco Conjuntos com gente também de variada etnia, fazendo com que a grande etnia de Londrina seja a mistura.
PEROBA
(A rainha criança)
Na mata a peroba era criança, por ser uma das espécies de árvores mais jovens, e também era rainha como a mais alta, por procurar sol com sua copa lá na ponta do tronco reto, e por isto mesmo tornou-se a preferida pelas serrarias. De peroba eram a balsa por onde passaram os pioneiros, o escritório da Companhia de Terras, as primeiras casas e a primeira igreja de Londrina, os dormentes da ferrovia, os primeiros postes urbanos e pontes rurais, as tulhas para o café que derrubaria a mata. A Universidade foi plantada num Perobal, que entretanto desperobou-se porque a árvore de copa alta e tronco reto, com largas ranhuras onde se agarrar o vento, torna-se derrubável sem mata protetora em redor. Depois a peroba continuou no artesanato de móveis com madeira reciclada, a também renasceu adotada como símbolo pé-vermelho.

PÉ-VERMELHO
(Alma vermelha)
Pés-vermelhos eram chamados os condutores de porcadas pelas trilhas e estradas de terra-vermelha, antes do transporte por caminhões. Depois, a palavra ficou esquecida até o londrinense José Richa ser eleito o primeiro governador norte-paranaense, em 1983. Quando seus auxiliares chegaram ao Palácio Iguaçu com seu sotaque e seus modos acaipirados, foram apelidados de pés-vermelhos. Em vez de se incomodar, eles se assumiram assim, em reverência à origem e como atestado de autenticidade, e hoje seus netos se orgulham de ser pés-vermelhos, porque, como dizem, “é uma coisa lá do fundo”.
AVENIDA PARANÁ
(Transformação)
Antes da cidade, a Avenida Paraná era trilha indígena e de garimpeiros para a Serra de Apucarana. Em 1929 chegou a primeira caravana londrinense pela mesma trilha, depois transformada em Estrada dos Pioneiros, que se tornaria a hoje Avenida Celso Garcia Cid até encontrar a Praça Willie Davids e continuar como Avenida Paraná, a emendar com a Rua Quintino Bocaiúva e daí como estrada para Cambé. Como avenida de pista única, chegou a ter footing de carros e pessoas na Capital do Café, até ser transformada em Calçadão, que depois seria refeito, e assim a Avenida Paraná se tornou o maior símbolo das transformações de Londrina.
CAFÉ
(O ouro-verde)
Dizem os cafeicultores que café é lavoura de muita renda mas caprichosa que só, já por exigir terra fértil ou os cafeeiros têm vida curta, como antes nas terras paulistas. Também pede colheita apurada, ou a mistura de grãos baixa o preço, além de secagem e armazenagem corretas. Como os pioneiros conheciam isso, conseguiram transformar Londrina na Capital do Café, a região que mais gerou prosperidade e impostos de origem agrícola no país. Mas a carência de adubação orgânica e os custos trabalhistas, a partir do Estatuto do Trabalhador Rural, em 1963, iam enfraquecendo as fazendas com suas colônias de trabalhadores moradores, assim causando êxodo rural com bóias-frias favelados nas cidades. Em 1975, porém, a geada-negra acabou com os cafezais, abrindo as terras para a nova agricultura diversificada e mecanizada, de modo que o café foi causador do bom começo e da transformação agroindustrial de Londrina.
FOLHA DE LONDRINA
(O milagre)
A Folha de Londrina tem típica história pé-vermelho de luta e autenticidade. Era um dos tantos pequenos jornais na Capital do Café, quando foi comprado pelo catarinense João Milanez, que, mesmo mal sabendo escrever, deu até uma caneta como parte do pagamento. Ele era porém tão capaz que conseguiu transformar a Folha em jornal estadual, o primeiro do interior do país impresso em off-set. Depois vendeu ao banqueiro José Eduardo de Andrade Vieira o jornal que é o maior ainda impresso no Paraná, hoje dirigido por Nicolás Mejía. Milanez dizia que “a Folha é um milagre que se repete todo dia”, referindo-se não só às tantas dificuldades existentes como às muitas habilidades necessárias para “vender o que não existe mais”, os acontecimentos noticiados. Por isso a Folha continua, como Londrina, em transformação.
A CIDADE
(A metrópole)
A população rural de Londrina cresceu 18,3% do ano 2000 até 2022, ao contrário da maioria das cidades, e o IBGE aponta como causa disso a cidade ter se tornado polo de empresas do agro, a economia agroindustrial que abrange desde as fazendas tecnificadas aos sítios de produção artesanal. A pandemia também levou gente a morar no campo, o que não impediu a cidade de continuar crescendo para cima. Por isso, Londrina tanto sobe quanto se espalha, como é típico das metrópoles, com um crescimento recenseado de 9,7%, consolidando-se também como centro de comércio e serviços. Assim, como cidade que “nunca parou”, repete São Paulo, sua capital cultural.


