Felizmente para você, cinéfilo assíduo (e/ou aquele espectador bissexto) que gosta de verdade (e da verdade) do bom cinema brasileiro, o premiado e ótimo “Gonzaguinha – Da Maior Liberdade” estreia nesta segunda feira (21), no Cine Ouro Verde. Pena que são apenas seis sessões em apenas três dias. O filme, que no fim de agosto levou o Kikito de melhor em sua categoria na mostra na Serra Gaúcha, passa longe de ser um documentário tradicional. Há poucos depoimentos de terceiros, e é um privilégio e um prazer ter o maior tempo dos 80 minutos da narrativa focados na fala do próprio cantor. Também está ausente a preocupação de estabelecer uma cronologia didática sobre a vida de um dos nomes mais importantes da música popular brasileira.

O filme da diretora Susanna Lira, lançado em todo o Brasil na última quinta-feira (17), buscou acima de tudo invocar a inquietude permanente de Gonzaguinha, aliás Luiz Gonzaga do Nascimento Jr, filho de Luiz Gonzaga, o Gonzagão. “Ele era um cara que tinha muito a dizer, que deixou uma obra muito complexa, muito importante sobre o Brasil. E eu realmente não quis perder espaço no filme, privilegiando outras vozes que não fosse a dele. O filme não tem nada que não tenha sido dito por ele, inclusive quando a gente faz a encenação com um ator, que é fruto de uma entrevista que ele deu em 1981 para (o semanário alternativo) ‘O Pasquim’”, disse Susanna durante a entrevista coletiva em Gramado.

Susanna Lira: " O filme não tem nada que não tenha sido dito por ele"
Susanna Lira: " O filme não tem nada que não tenha sido dito por ele" | Foto: Edson Vara/ Pressphoto/ Divulgação

A cineasta, que já realizou cinebiografias de Mussum, Clara Nunes e Fernanda Young, destacou que as pessoas conheciam Gonzaguinha por ser o filho de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião. “Mas ele era único, tinha um caminho tão diferente do próprio pai, com as suas ideias, a sua maneira de compor, a sua poesia linda de doer. A gente precisava deixá-lo falar. E a nossa pesquisa foi muito nesse sentido: sobre o que esse homem falou naqueles tempos difíceis da ditadura militar, anos 1970, e o que suas músicas ainda estão querendo falar para o Brasil de hoje”.

MÚSICAS CENSURADAS

Gonzaguinha, que chegou a ter mais de 50 músicas censuradas naquele doloroso momento histórico, “tinha o povo brasileiro como sua maior inspiração”, de acordo com Susanna. “E também as nossas mazelas, as nossas desigualdades. Acho que isso era o que mais o inquietava. Era o que levava ele a compor, tentando fazer com que o público compreendesse a mente dele. Essa foi a nossa intenção no filme, não deixando que outras pessoas o traduzissem a não ser ele próprio”, assinala.

Uma das qualidades do filme são as imagens de arquivo (pesquisa e roteiro de Rodrigo Alzuguir e de Suzanna), com entrevistas em que Gonzaguinha expõe seu pensamento sobre a realidade do país. “Sempre que começo um filme, busco escutar o personagem antes para poder pensar em como ele vai ser. E quando você começa a ouvi-lo e vê o volume de material rico que tem sobre ele, percebe que ele pode falar por si próprio. Tinha tanta coisa interessante e importante ali que não precisávamos de outros recursos”.

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DIVERGÊNCIAS COM O PAI

O documentário joga luz na relação problemática entre Gonzaguinha e o pai, Luiz Gonzaga. “A gente também queria ser honesto com isso, sabe? Não romantizar, embora saibamos que eles estavam em paz quando o Gonzaguinha morreu. Mas havia sim, é claro, muitas divergências ideológicas entre eles. Gonzaguinha foi criado distante do pai, no morro, mas a arte acabou cicatrizando essas mágoas”. O resultado é um filme mais sensorial e menos explicativo, nas palavras de Susanna, que mostra ao público a necessidade de ouvir Gonzaguinha como forma de nos inspirarmos na coragem dele, de alguém que falou, na sua música, sobre questões brasileiras que ainda agora são tão urgentes. “É um cara que morreu há 35 anos, mas a obra continua atual”, afirma Susanna.

O documentário “Gonzaguinha – Da Maior Liberdade” se justifica e se sustenta porque as falas de Gonzaguinha são corroboradas pelas letras de músicas como “Pequena Memória para um Tempo sem Memória” (1980), espécie de réquiem de Gonzaguinha para a legião dos esquecidos na luta contra a ditadura de 1964. Enfim, o cidadão Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior foi coerente com a ideologia libertária da música do cantor Gonzaguinha.

As sessões serão realizadas de segunda (21) a quarta-feira (23) em duas sessões às 16:00 e 19:30. O Cine Ouro Verde UEL fica na rua Maranhão, 85, no centro de Londrina.

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