Há duas semanas escrevi aqui que a transmissão dos jogos da Copa pela CaséTV era “outra-coisa”, e bastou semana para se ver que realmente é outra-coisa no pior sentido. Embora com imagem esmaecida, a Globo ao menos conserva dignidade, que é o que falta totalmente à Casé, que deixei de ver enojado com tanta brincalhagem, mistura de brincadeira com sacanagem. Pois na Casé a tela é diminuída abrindo espaço para propaganda constante, os narradores até esquecendo o jogo para estimular os telespectotários a jogar nas bets.

Enquanto isso, o Banco Central revela que 4,4 milhões de famílias do Bolsa Família (22% do total), estão apostando em bets 4 bilhões de reais por mês.

Enquanto isso também, o governo federal, que dá com uma mão, ganha com a outra, pois cobra impostos das empresas bancadoras das bets (como, através dos impostos embutidos nos preços de todo produto, ganhará de volta 38% de tudo que os bolsiários gastarem no comércio).

Enquanto isso novamente, mesmo com arrecadações recordes de impostos, o governo federal, ampliando sua rede de proteção social e captação eleitoral, continua a aumentar seu déficit fiscal que mantém a inflação a restringir o consumo principalmente dos mais pobres. Isso contribui para o endividamento das famílias ser o maior de todos os tempos, ao mesmo tempo em que se assiste “a maior Copa de todos os tempos”.

Faz lembrar que a diversão é cultuada desde antes do Coliseo, e hoje a diversão coletiva tem grandes festas como o Carnaval em suas várias versões pelo mundo, os festivais de música, o cinema, a tevê e o streaming de som e imagem – tudo entretanto misturando diversão com arte e cultura.

Porém as bets convidam para “diversão” individual, fazendo lembrar que a palavra “diversão” vem do Latim “divertere”, significando mudar de direção ou afastar-se, passando hoje a significar “afastar-se da realidade”, que é só o que fazem as bets sem qualquer arte e apenas para a cultura do endividamento social.

Investindo pesadamente em propaganda, as bets se escudam com a hipocrisia do lema “divirta-se com responsabilidade”. A palavra responsabilidade também vem do Latim “re” (repetir, dar retorno) e “spondere” (prometer, garantir), e na Roma Antiga era norma nos negócios.

Já agora serve apenas como escudo para se escusar de responsabilidade, como a dizer “depois não nos culpem pois prevenimos”...

Mais um “enquanto isso”: o deputado Luiz Carlos Hauly está com projeto sendo examinado na Câmara dos Deputados propondo revogação das leis que autorizaram e regulamentam as bets, banindo a exploração de plataformas e a publicidade de jogos de azar em todo o país. Outro projeto seu proíbe a utilização de pix, cartões e transferências bancárias para apostas on-line, e os dois projetos aguardam análise para votação só Deus sabe quando.

Enquanto isso entretanto, pode-se apostar na cidadania participando de abaixo-assinado: https://brasilcontrabets.com

Pois parece que só a cidadania unida e insistente pode derrotar essa diversão besta.

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