'Casa de Dinamite', um filme sobre o pesadelo nuclear
Filme de Kathryn Bigelow pode ser considerado a segunda estreia mais importante da Netlix, ao lado de “Frankenstein”
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 20 de novembro de 2025
Filme de Kathryn Bigelow pode ser considerado a segunda estreia mais importante da Netlix, ao lado de “Frankenstein”
Carlos Eduardo Lourenço Jorge/ Especial para a FOLHA 

É mais ou menos como elogiar um filme dizendo que ele parece vir de outra época. Mas realmente o que se quer dizer é que aquilo que acabamos de assistir nos tirou da rotina e do tédio deste cinema hollywoodiano particularmente medíocre dos últimos anos.
“Casa de Dinamite/A House of Dynamite” (EUA, 2025) é o novo filme de Kathryn Bigelow, seu primeiro longa-metragem em oito anos. Ele tem tudo o que se espera de um trabalho da diretora de “Guerra ao Terror” (Oscar de melhor filme, 2010) e “A Hora Mais Escura” (Globo de Ouro, 2012). Com seu estilo inconfundível, Bigelow cria uma história repleta de suspense, drama e uma fantasia política sobre o que poderia acontecer se um artefato nuclear fosse lançado em solo americano. É a segunda estreia recente mais importante do streaming Netflix, ao lado de “Frankenstein”.
Leia mais:
A história é dividida em três partes que, como variações do mesmo pesadelo, narram o mesmo evento de diferentes pontos de vista. O roteiro de Noah Oppenheim evita os clichês fáceis de políticos incompetentes ou fanáticos; na verdade, todos os membros do governo parecem bastante racionais, o que não é nada comum em nenhum país hoje em dia, dando ao filme até um certo ar de irrealidade. Dessa forma, o filme reforça seu discurso subjacente: que o verdadeiro perigo, além da estupidez humana, é a própria existência de armas nucleares.
Visualmente, “House of Dynamite” é uma maravilha de contenção. O fotógrafo Barry Ackroyd filma frequentemente com câmera na mão e luz natural, preenchendo os escritórios com uma tensão física quase documental.
TRILHA SONORA
A trilha sonora de Volker Bertelmann (vencedor do Oscar por “Nada de Novo no Front”, 2022)) intensifica a sensação de sufocamento. Bigelow prova que não precisa de cenas de ação para gerar adrenalina: basta um telefone que não para de tocar e um cronômetro anunciando a chegada do fim (ou não) do mundo...
Bigelow constrói seu filme entrelaçando diferentes perspectivas e situações em meio à mesma contagem regressiva. Quando parece que o suspense está atingindo seu ápice, tudo recomeça. É impossível se desvencilhar da história, em parte devido à direção brilhante, em parte devido à inegável força do elenco – esta uma qualidade que só o cinema americano consegue alcançar. Um grupo de atores capaz de transitar com convicção entre o suspense de um thriller de guerra e o drama mais intimista.

DETALHES DO COTIDIANO
Os momentos mais importantes da história mundial são repletos de pequenos detalhes do cotidiano. O pequeno dinossauro de brinquedo que a capitã leva sem querer para o trabalho não só a faz lembrar do filho, que talvez nunca mais veja, mas também daqueles seres vivos que dominaram a Terra, como os humanos fazem agora, mas que um dia foram extintos, como poderia acontecer com a humanidade se uma terceira guerra mundial eclodir.
O filme reflete perfeitamente a ansiedade contemporânea. Kathryn Bigelow transforma o medo nuclear – que se acreditava banido após o fim da Guerra Fria – em um reflexo da incerteza atual, onde decisões são tomadas em segundos e a destruição é tão tecnológica quanto inevitável. Como o título sugere, cada cena é um pavio aceso que nos lembra como ainda estamos perto do abismo. Quanto ao elenco: Rebecca Ferguson oferece uma mistura perfeita de autoridade e vulnerabilidade no papel de Olivia Walker, uma oficial da Casa Branca que tenta manter a calma institucional enquanto tudo ao redor desmorona; embora apareça mais tarde, Idris Elba domina a tela como um presidente contido mas humano, e nada heróico. Jason Clarke demonstra mais uma vez sua habilidade, agora como um almirante cansado, porém lúcido, e Jared Harris é o burocrata que ainda confia na racionalidade em meio ao caos.
Não acho que haja uma denúncia no filme, mas sim um lembrete. De como o cinema pode nos envolver em uma história e jogar com nossos medos, alguns reais e outros construções do próprio cinema. Uma vez que essa ideia é plantada na platéia, o filme não precisa dizer mais nada. Não há monstro pior do que aquele que não podemos ver, e "House of Dynamite"; confia em nossa imaginação para preencher o horror que não vemos, mas pode estar à espreita ali na esquina.





