Em tempos de postagens e e-mails automatizados, criados por inteligência artificial — salpicados de frases feitas e travessões delatores como esses —, receber uma carta escrita a próprio punho é sempre um momento especial. A tinta da caneta esferográfica no papel subverte a frieza industrial dos algoritmos. Cada palavra carrega o traço e a intenção de quem a enviou, tornando-a personalíssima; um gesto humano e único, impossível de ser reproduzido por qualquer processo digital.

Recentemente, recebi uma carta do nosso ilustre leitor Reinaldo Jojima. Ele tirou um tempo para me enviar um recorte do jornal com uma foto de minha autoria que mostra o prédio da agência central dos Correios visto pela janela da redação. Fiquei feliz que Jojima tenha gostado da foto e que tenha escrito para demonstrar.

Há alguns anos, fotografei o envelope de outra carta que recebi de Jojima, devidamente selada. Postei no meu instagram com o título “Influenciador Analógico” e recebi várias mensagens de amigos, que curtiram a postagem. A verdade é que as cartas, de tanto que rarearam, hoje causam um misto de surpresa e curiosidade quando chegam.

Mas Jojima é figurinha carimbada. Vários jornalistas aqui da FOLHA recebem as famosas cartinhas dele. Célia Musilli e Walkíria Vieira estão entre as mais lembradas. Na correria do fechamento das edições do jornal, nem sempre conseguimos responder por meio de cartas, mas sempre lemos com carinho as observações dos nossos leitores.

De acordo com reportagem do jornal O Globo, o número de cartas simples, registradas e telegramas enviados caiu 76% na última década. No mundo cada vez mais frenético, a espera pelo carteiro passou a ser quase que exclusivamente pelas compras feitas no comércio eletrônico.

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Longe de ser inimigo das evoluções tecnológicas, mas é difícil encontrar a mesma magia das cartas nas plataformas digitais de troca de mensagens. Se Pero Vaz de Caminha tivesse mandado um “zap” para o rei D. Manuel, certamente não teríamos uma joia literária tão bem escrita sobre as primeiras impressões europeias de Pindorama. Em vez disso, poderíamos ter algo como: “Pense numa terra top, meu rei. Zero surpresas”. Ou talvez o 'gepetês': “A Ilha de Vera Cruz não é apenas um território com vastos recursos naturais, mas também uma terra com um rico tecido social…

E se nossa Carta Magna fosse um ‘Zap” Magno? Certamente, a Constituição Cidadã não teria a mesma força e credibilidade. Vários documentos solenes ganham a alcunha de Carta, muitos deles remetem ao local onde foram assinados. Um caso recente é a Carta de Curitiba, em que os governadores do Sul e do Sudeste se comprometeram com metas ambientais.

A troca de cartas entre escritores também rendeu grandes textos da literatura. Esses dias me deparei com a reprodução da carta escrita por Manuel Bandeira para Guimarães Rosa, com suas impressões sobre “Grande Sertão: Veredas”. “Vai-se ver, não é língua nova nenhuma a do Riobaldo. Difícil é, às vezes. Quanta palavra do sertão!”, comenta, alternando entre elogios e indignação, por recorrer ao dicionário e não encontrar o significado de palavras do dialeto geraizeiro.

As correspondências estão na música, como em Carta ao Tom 74, de Vinícius de Moraes e Toquinho, destinada ao maestro, morador do célebre endereço: Rua Nascimento e Silva, 107, Ipanema, Rio de Janeiro. A desilusão com o Rio “moderno” dá o tom da canção que termina com: “é preciso inventar de novo o amor”.

Elas também aparecem no cinema. “Cartas de Iwo Jima” (2006), filme dirigido por Clint Eastwood, conta, a partir de cartas, diários e relatos, a história de soldados japoneses que lutaram na Batalha de Iwo Jima durante a Segunda Guerra Mundial.

Cartas sempre rendem boas histórias, talvez porque nelas cabem um pouco de quem escreve e de quem lê. Jojima, considere esta crônica um envelope selado, entregue sem carteiro, mas com todo o apreço. E a todos os nossos leitores, nosso tradicional agradecimento: Obrigado por ler a FOLHA!

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