As sutilezas de um filme na competitiva de Gramado
“A Natureza das Coisas Invisíveis”, da estreante Rafaela Camelo, é sobre morte, luto, silêncio e vida
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 20 de agosto de 2025
“A Natureza das Coisas Invisíveis”, da estreante Rafaela Camelo, é sobre morte, luto, silêncio e vida
Carlos Eduardo Lourenço Jorge/ Especial para a FOLHA 
GRAMADO (RS) - Rodado em Brasília, com elenco quase inteiramente formado por mulheres, o quarto longa concorrente tem ritmo lento e delicado, na filmagem e na edição. É filme feito com carinho e notável senso de observação. Duas mães jovens, duas irrequietas filhas menores, uma avó-bisavó em finitude e quase de partida, um hospital deprimente (haveria algum não...?), um sítio bucólico, uma natureza exuberante e acolhedora, uma benzedeira e sua mística arte curadora e um compêndio de sutilezas (seriam muitas, as sutilezas nos filmes deste festival a considerar).
A diretora estreante (no longa; já fez carreira no curta), a brasiliense Rafaela Camelo, confessou no debate-coletiva de ontem: "Eu não queria um filme ágil. Meu objetivo era mostrar o ritmo cotidiano, íntimo, em que a vida vai rolando e de repente acontece alguma coisa que desmonta a rotina. Hoje se tem dificuldade de prestar atenção nas pequenas coisas”, disse ela.
A menina Glória (Laura Brandão) tem 10 anos e passa férias no hospital onde sua mãe (Larissa Mauro) trabalha como enfermeira. Lá ela conhece Sofia (Serena), outra menina na mesma faixa etária que está convencida de que a piora na saúde da bisavó é causada pela internação (tóxica ?) no hospital. Unidas pelo desejo de escapar dali, as crianças se encontram e encontram lenitivo na companhia uma da outra.
Leia mais:
Quando a partida da idosa se torna inevitável e mais próxima, as meninas e suas mães seguem para um refúgio no interior do Goiás para passar os últimos dias do verão. As duas mães, que também se encontraram no hospital, igualmente se acham no apoio mútuo.
Ao longo da trama, as personagens se deparam com a morte e o luto. O velório se dá na parte rural e destaca o trabalho de mulheres que se dedicam a cuidarem umas das outras.
O elenco é muito bom (mães e filhas), bem como edição (da própria diretora), direção de arte e trilha musical – a voz de Milton Nascimento reverbera e brilha como sempre. No geral bem realizado, “A Natureza das Coisas Invisíveis”, porém, corre o mesmo risco dos demais filmes em competição: dividir o purgatório da invisibilidade, à procura de telas para sair da obscuridade.
A REDENÇÃO DOS CURTAS
Depois de uma jornada deplorável composta por meia dúzia de curtas-metragens de baixa qualidade, o sol voltou a brilhar ontem para a meia dúzia restante que ficou à espera. A criação reencontrou sua melhor vertente e o grupo de títulos remanescentes justificou fama e prestigio que coroaram a categoria. Para júbilo da orfandade dos cinéfilos que lamentaram o desastre inicial, filmes como “O Mapa em que Estão Meus Pés”, “Samba Infinito”, o paranaense “Quando eu For Grande” e “Fruta Fizz” foram festa para os sentidos.

* O jornalista é convidado da organização do Festival de Gramado.




