A noite de sábado (25) foi tomada por uma viagem no tempo, com emoção e aplausos, no Cine Villa Rica, no centro de Londrina. Do lado de fora, a movimentação na esquina da rua Piauí com a Rio de Janeiro, chamava a atenção de quem passava: era a longa fila formada para assistir à estreia de “Assalto à Brasileira”, filme dirigido por José Eduardo Belmonte e exibido dentro da programação do 27º Festival Kinoarte de Cinema.

Momentos depois, na telona, um dos episódios mais traumáticos da história da cidade era reconstituído: o assalto à agência do Banestado, ocorrido em 10 de dezembro de 1987, data em que Londrina completava 53 anos. A sessão gratuita reuniu um grande público, de todas as idades, parte da equipe de produção e pessoas que viveram o crime em tempo real – algumas delas, inclusive, participaram do longa.

'Uma alegria enorme'

Antes da exibição, a FOLHA conversou com o ator e músico Paulo Miklos, conhecido por seu trabalho na banda Titãs, e que integra o elenco interpretando o policial negociador Fonseca. Ele contou que fez questão de participar da estreia em Londrina e descreveu o momento como “uma alegria enorme” por um motivo especial.

Paulo Miklos:  "Todo mundo estava conectado"
Paulo Miklos: "Todo mundo estava conectado" | Foto: Pamela Destacio

“Durante as filmagens, sentimos o interesse dos londrinenses sobre o filme. Todo mundo estava conectado, vendo de perto o que acontecia. A todo momento a gente conversava com o público, nas ruas, nos restaurantes, em qualquer lugar que eu passava, e sempre tinha alguém comentando, acompanhando com muito carinho. Isso foi muito bacana”, contou, recordando as gravações realizadas no centro da cidade, entre 30 de novembro e 11 de dezembro de 2024.

Na ocasião, o cenário foi transformado para recriar os anos 1980, com uma versão fiel da agência bancária e o uso de carros e figurinos da época.


O prédio da Folha de Londrina também serviu como locação.

“É uma grande honra participar dessa sessão com o pessoal que fez parte disso. Vai ser uma emoção maravilhosa ver as pessoas se reconhecendo no filme. Quero conversar com elas depois e saber o que sentiram”, disse Miklos.

A alma do filme

Também animada, a produtora Clara Ramos compartilhou o mesmo sentimento e ressaltou o vínculo da obra com a cidade. “Londrina é a alma desse filme. Desde o começo sabíamos que queríamos filmar aqui, recuperar ao máximo os elementos reais dessa história. A cidade nos recebeu de braços abertos, tanto as instituições quanto as pessoas, figurantes, profissionais locais e até pessoas que viveram o assalto. Por isso, trazer a estreia para cá é muito simbólico. É como devolver um pouquinho do que Londrina nos deu”, afirmou.

Clara Ramos:  "Trazer a estreia para cá é muito simbólico"
Clara Ramos: "Trazer a estreia para cá é muito simbólico" | Foto: Pamela Destacio

Segundo Ramos, a exibição no Festival Kinoarte, o mais tradicional do Paraná, tinha um sabor especial: “Dá um frio na barriga, porque são as pessoas que vão avaliar o filme na sua essência. Ver essa fila enorme, o interesse de todo mundo, é muito emocionante. É o melhor retorno que poderíamos ter.”

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Apoio da FOLHA

O produtor Marcelo Braga lembrou que a ideia do filme nasceu justamente de uma extensa pesquisa sobre o caso, apoiada pelos arquivos históricos da Folha de Londrina, que documentou amplamente o assalto em 1987.

“Foi a partir do material iconográfico da Folha, com as fotos e as reportagens, que percebemos que havia ali uma grande história para o cinema. Esse caso é muito peculiar, um verdadeiro ‘assalto à brasileira’, ocorrido num momento conturbado da nossa história, com o País saindo da ditadura e enfrentando inflação altíssima. É uma história que mexeu com a cidade”, explicou.

Marcelo Braga:  "O maior desafio era fazer algo que respeitasse a memória da cidade"
Marcelo Braga: "O maior desafio era fazer algo que respeitasse a memória da cidade" | Foto: Pamela Destacio

As gravações, segundo ele, enfrentaram contratempos, mas a energia da população compensou tudo. “Choveu muito durante o período de filmagem, o que nos obrigou a adaptar o cronograma várias vezes. Mas o maior desafio mesmo era fazer algo que respeitasse a memória da cidade e agradasse ao público. Passamos uma semana no Calçadão, convivendo com as pessoas, que vinham curiosas, torcendo pelo filme. Era importante trazer essa história de volta de forma sensível e verdadeira”, relatou.

História viva

Entre os convidados especiais da estreia, estava Vera Lúcia Faria de Oliveira, ex-funcionária do Banestado que sentiu na pele a tensão do assalto e que também participou do filme recontando sua experiência real.

“Eu trabalhava no setor de cobrança, na sobreloja da agência. Por volta das 11 horas, fui pegar minha bolsa para sair para o almoço e, como sempre, olhei o movimento lá embaixo. Vi uma pessoa com uma metralhadora e falei para o meu chefe: ‘Paulo, está tendo um assalto!’ Ele riu e disse: ‘Vai almoçar, menina, para de falar besteira.’ Mas logo depois, começaram a chutar as lixeiras e gritar ‘Deita! Deita!’. Foi terrível. Fiquei meses sonhando com aquilo. Até hoje, quando escuto o barulho de uma lixeira de inox caindo, me dá um tremor. Foi uma experiência muito traumática. Já se passaram 38 anos, e ainda mexe comigo”, relembrou.

Vera Lúcia Faria de Oliveira, ex-funcionária do Banestado: alívio simbólico
Vera Lúcia Faria de Oliveira, ex-funcionária do Banestado: alívio simbólico | Foto: Pamela Destacio

Hoje com 77 anos, ela afirma que, ao acompanhar a obra, reviveu lembranças dolorosas, mas também sentiu um alívio simbólico. “Durante as filmagens, parecia que a gente tinha voltado no tempo. Era como se estivéssemos de novo dentro do banco, ouvindo os barulhos, vendo o movimento. Foi triste, mas também me senti feliz de poder contribuir um pouquinho com essa produção”, revelou, ansiosa para se ver pela primeira vez na telona.

Sob a mira de armas

O longa-metragem de 98 minutos revisita o episódio marcado como o maior assalto do Brasil em número de reféns, quando sete homens armados invadiram a agência do Banestado em Londrina e mantiveram cerca de 300 pessoas sob a mira de armas no local.

Imagem ilustrativa da imagem ‘Assalto à Brasileira’: Londrina se reencontra com a própria história na tela do cinema
| Foto: Stella de Carvalho/ Divulgação

A trama acompanha o ator Murilo Benício, no papel de uma figura real e conhecida na cidade: o jornalista Paulo Ubiratan, falecido em 2010, que intermediou a polícia e os assaltantes em busca de um furo jornalístico. No elenco, também estão Christian Malheiros e Robson Nunes, vivendo os criminosos Moreno e Barba, respectivamente.

O filme já havia sido exibido em pré-estreia nacional no 58º Festival de Brasília, em 18 de setembro, quando conquistou três prêmios: Melhor Filme pelo Júri Popular, Melhor Ator para Murilo Benício e Melhor Ator Coadjuvante para Christian Malheiros.

Produzido pela Santa Rita Filmes, em parceria com Galeria Distribuidora e Telefilms, o longa é baseado no livro homônimo do escritor londrinense Domingos Pellegrini, lançado em 1988. O fato também já foi retratado no documentário “Isto (não) é um assalto” (2018), da produtora Kinopus, com direção de Rodrigo Grota.

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