Há histórias de vida que se confundem com a história da própria terra. É assim que o livro “Nádia Sahão: Uma matriarca libanesa” pode ser lido: como uma narrativa privada que, aos poucos, revela também parte da história de Londrina.

Aos 98 anos, a matriarca da família Sahão compareceu ao lançamento da obra na tarde desta quarta-feira (29), no Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss. Entre familiares e amigos, o encontro ganhou um tom de nostalgia, enquanto os convidados folheavam os exemplares e reencontravam, nas páginas, fragmentos de uma cidade que já não existe da mesma maneira.

Lembranças da Rua Paranaguá de outras épocas, de famílias pioneiras e de pessoas cujas ausências ainda deixam saudade iluminaram os olhos de quem foi ao museu prestigiar Nádia e o autor da biografia, o jornalista e escritor Fábio Luporini.

Publicado pela editora Engenho das Letras, o livro tem 202 páginas e reúne as memórias de uma mulher que atravessou décadas de transformações familiares, sociais e urbanas. A narrativa é construída a partir de entrevistas com Nádia, parentes e amigos, muitos deles personagens da própria história de Londrina.

Ao contar a trajetória da matriarca de ascendência libanesa, a obra também recupera experiências compartilhadas por famílias que chegaram ao Norte do Paraná no início da década de 1950, atraídas pelas promessas de uma região que crescia rapidamente, enriquecida pelo café e marcada pela chegada constante de novos moradores.

“Esse livro resgata a história de uma família e, ao mesmo tempo, representa e reflete as memórias de muitas famílias pioneiras que chegaram ao Norte do Paraná no início da década de 1950, quando Londrina já despontava como a capital mundial do café e era terra de oportunidades, de riquezas e de prosperidade”, afirma Luporini.

As lembranças de Nádia atravessam episódios familiares, personagens conhecidos e acontecimentos que permanecem no imaginário popular de uma cidade que recentemente completou 90 anos. Sua vida, iniciada antes mesmo da fundação oficial de Londrina, acompanha de perto o amadurecimento do município.

Entre amigos e familiares, a pioneira celebra 96 anos de história
Entre amigos e familiares, a pioneira celebra 96 anos de história | Foto: Patrícia Maria Alves

Uma história que precisava ser contada

A ideia da biografia surgiu a partir de uma convivência construída ao longo dos anos. Luporini já conhecia Nádia desde que a entrevistou por ocasião do lançamento de seu primeiro livro, dedicado às receitas da culinária libanesa. O jornalista também mantinha contato com alguns de seus filhos e netos.

Foi durante um café com o médico Ricardo Sahão, filho de Nádia, que a possibilidade de transformar as memórias da família em livro começou a ganhar forma. Antes de iniciar as entrevistas, porém, era necessário convencer a protagonista de que sua vida tinha histórias suficientes para preencher uma obra.

A oportunidade surgiu durante um evento no Museu Histórico de Londrina. Luporini era o mestre de cerimônias e encontrou Nádia na antiga plataforma da estação ferroviária, lugar por onde tantas pessoas chegaram à cidade em busca de uma nova vida.

O jornalista contou que gostaria de escrever um livro sobre ela. Nádia respondeu que não tinha muitas histórias para contar. Nos 5 minutos seguintes, porém, começou a narrar algumas delas.

A conversa abriu o caminho para diversos encontros e dezenas de horas de entrevistas. Com lucidez, Nádia revisitou lembranças de infância, juventude, casamento, maternidade, perdas e recomeços. Depois vieram os depoimentos de amigos e familiares, que acrescentaram outras perspectivas à narrativa.

O material passou por um trabalho detalhado de organização e edição realizado pela Engenho das Letras, sob a coordenação de Michele Banwart.

Segundo a editora Michele Bannwart, o projeto gráfico também participa da construção dessa memória. A capa e a contracapa são atravessadas por uma fotografia emblemática da família reunida em sua residência. Incorporada ao layout, a imagem não funciona apenas como registro de uma época, mas como parte da memória viva que ganha forma ao longo das páginas.

O resultado é uma biografia na qual muitas famílias pioneiras, especialmente aquelas de ascendência libanesa, poderão reconhecer traços de suas próprias histórias.

Entre a ousadia e a tradição

O livro apresenta Nádia como uma mulher que, ao mesmo tempo em que preservou os costumes familiares e a herança cultural libanesa, também adotou posições ousadas para o período em que viveu.

Sua trajetória é marcada pela responsabilidade de manter a família unida e pela capacidade de seguir em frente depois das perdas. A obra também conta a história de seu marido, Assad Sahão, imigrante que chegou à região para tentar uma nova vida e construiu em Londrina uma família e um legado.

Nádia ficou viúva ainda jovem, no início da década de 1980, e passou a ocupar de maneira ainda mais intensa o papel de matriarca.

Para Luporini, registrar essa trajetória significa preservar não apenas a memória de Assad e Nádia, mas também a de uma geração de imigrantes e pioneiros que ajudou a formar a identidade econômica, cultural e afetiva do Norte do Paraná.

Nadia Sahão cumprimenta convidados em cerimônia no Museu Histórico de Londrina
Nadia Sahão cumprimenta convidados em cerimônia no Museu Histórico de Londrina | Foto: Patrícia Maria Alves

Durante o lançamento, Nádia acompanhou a movimentação dos convidados, recebeu familiares e amigos e autografou alguns dos exemplares vendidos no local. Ao seu redor, as conversas pareciam prolongar as histórias iniciadas no livro.

A ceriônia de lançamento foi uma celebração da memória. Nas páginas, nos abraços e nas lembranças compartilhadas, a história de uma família encontrou a história da cidade que escolheu para chamar de sua.

SERVIÇO

Livro: “Nádia Sahão – Uma matriarca libanesa”

Autor: Fábio Luporini

Editora: Engenho das Letras

Preço: R$ 50,00

Onde comprar: loja virtual da Editora Engenho das Letras

www.engenhodasletras.com.br

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