A poeta, haicaísta e letrista Alice Ruiz e a escritora e compositora Estrela Ruiz Leminski participaram de um bate-papo no Sesc Cadeião Cultural, na noite desta quinta-feira (5). O encontro integrou a programação da 6ª edição do projeto Sesc Mulheres, que tem como objetivo celebrar a contribuição das mulheres para a construção sociocultural do País.

Com mediação da jornalista e escritora londrinense Layse Moraes, a conversa reuniu jovens e adultos, entre homens e mulheres, para discutir poesia, memória, música e o papel feminino na produção artística, com sessão de autógrafos.

“Um convite que eu jamais recuso é quando está relacionado às mulheres, porque é fundamental que a gente converse, reforce esse interesse pela literatura e impulsione mulheres que também têm esse desejo de escrever. Se nós, mulheres, não fizermos isso, não será feito. Lamentavelmente, é um trabalho que precisamos fazer umas pelas outras, porque o sistema tem um programa de nos invisibilizar”, afirmou Ruiz para a FOLHA.

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MÃE E FILHA NA POESIA

Durante o encontro, mãe e filha compartilharam lembranças de como a poesia surgiu em suas vidas – experiências bastante diferentes, apesar da ligação familiar, mas que marcaram os passos das duas curitibanas.

Ruiz contou que desde muito cedo brincava com as palavras, e foi se aprofundando aos poucos. Segundo ela, a poesia apareceu naturalmente em sua vida, especialmente por meio dos haicais, forma poética curta de origem japonesa pela qual se tornou amplamente reconhecida. Hoje, possui mais de 20 livros lançados, com poemas traduzidos e publicados em vários países.

Já para Ruiz Leminski, o contato com a poesia aconteceu de outra maneira. Filha de Alice Ruiz e do poeta Paulo Leminski, ela já cresceu imersa em um ambiente artístico, e explorou, a partir disso, a escrita, a música e, em especial, o universo da MPB. Aos 45 anos, tem cinco livros publicados e acumula parcerias musicais com nomes como Ceumar, Iara Rennó e Alzira Espíndola. Também idealizou o projeto Leminskanções, que resgata o lado compositor do seu pai.

“Uma das grandes razões da minha história e de eu ter me tornado uma artista mulher é ser filha dessa grande mulher, que sempre valorizou a minha criação artística. Então espero que isso inspire as pessoas a bancarem seus processos criativos, a escreverem e, principalmente, que as mulheres desengavetem suas produções, publiquem mais e que as mulheres do passado sejam cada vez mais reconhecidas”, destacou.

Alice Ruiz e a filha Estrela Ruiz Leminski no bate-papo do Sesc Cadeião Cultural: uma discussão importante sobre o papel das mulheres na produção artística
Alice Ruiz e a filha Estrela Ruiz Leminski no bate-papo do Sesc Cadeião Cultural: uma discussão importante sobre o papel das mulheres na produção artística | Foto: Pamela Destacio

REFLEXÕES

Ao longo de uma hora e meia de conversa, Ruiz refletiu sobre as mudanças em sua visão de mundo e em sua relação com a escrita ao longo das décadas. Para ela, a principal diferença entre a poeta que foi no passado e a que é hoje está no que chama de ilusões.

Segundo a autora, livrar-se de muitas delas foi positivo, pois trouxe mais objetividade e menos sofrimento ao lidar com a realidade. Por outro lado, reconhece que essas mesmas ilusões também alimentavam a vontade de escrever e o sonho de transformação.

A poeta aproveitou para comentar, com frustração, o momento atual vivido pelas mulheres. Apesar dos avanços conquistados ao longo dos anos, Ruiz afirmou se preocupar com retrocessos que ainda refletem a cultura do machismo e com o aumento da violência contra a mulher no Brasil. Segundo ela, havia a expectativa de que as próximas gerações viveriam em um mundo melhor, esperança que hoje observa com desilusão diante de cenários sociais que considera preocupantes.

Outro tema discutido foi o apagamento histórico de mulheres na literatura e nas artes. Para Ruiz, que neste ano completa 80 anos, muitas artistas sempre estiveram presentes nesses espaços, mas nem sempre tiveram seu trabalho devidamente reconhecido.

“Não precisamos que deem espaço para criarmos. Precisamos que se nomeiem as mulheres que neste espaço criam”, destacou a poeta veterana.

SESC MULHERES

Em Londrina, o 6º Sesc Mulheres começou na terça-feira (3) e segue até o dia 31 no Sesc Cadeião Cultural, com uma programação gratuita voltada ao protagonismo feminino. A agenda reúne debates, bate-papos, oficinas e apresentações artísticas produzidas e encenadas por mulheres, além de atividades que propõem reflexões sobre o fazer cultural, acadêmico e artístico no Brasil a partir do olhar feminino.

Durante o período do evento, o público também é convidado a contribuir com a doação de itens de higiene feminina, como sabonete, desodorante, creme dental, absorventes e shampoo, que serão destinados a pessoas em situação de vulnerabilidade social.

A programação completa pode ser consultada no site oficial do projeto: https://www.sescpr.com.br/projeto/sesc-mulheres/

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