Leio que uma pedra de 80 toneladas que estava equilibrada sobre três pontos de uma parede de granito há mais de um século, desabou no último dia 18 no parque Polar Caves, em Rumney, no estado de New Hampshire, nos Estados Unidos.

Por sorte, na hora não havia ninguém passando pela passarela da qual se avistava a pedra pendurada. O desabamento foi rápido, num desses casos de eventos naturais provocados por desgastes que ninguém leva a sério, até que a queda se consume.

Fico pensando nas datas e momentos que às vezes nos separam da vida ou da morte. Passei por essa perplexidade quando atravessei uma ponte pênsil sobre as Sete Quedas, as cataratas que foram engolidas pelo imenso lago de Itaipú, uma semana antes de um cabo de aço se desprender das rochas em 17 de janeiro de 1982, matando dez pessoas no rio Paraná, no município de Guaíra (PR).

Neste dia, lembrei-me da imagem de um pequeno quadro que penduravam em nossos quartos na infância: a de um Anjo da Guarda protegendo crianças para atravessar uma ponte. Considerei essa proteção quando fiz a travessia sobre as Sete Quedas, uma semana antes da tragédia.

Em Capitólio, Minas Gerais, rochas centenárias também caíram em 8 de janeiro de 2022, por volta das 12h30, no Lago de Furnas, matando dez pessoas num barco chamado Jesus. A fatalidade recaiu sobre essas pessoas, não sobre quem passou por ali dez minutos antes ou depois, e isso me põe a pensar sobre o que nos separa da vida ou da morte, não só em acidentes, mas em casos de agressão e violência, como vimos nas ruas há uma semana, durante a campanha eleitoral: o tijolo que atinge um e não o outro, o carro em velocidade, dirigido por uma pessoa vingativa, que mata Eliseu e não Maria. E penso que isso já não é apenas fatalidade, é violência explícita, que pode vitimar qualquer um.

Imagem ilustrativa da imagem A sorte e o azar que regem as fatalidades
| Foto: Marco Jacobsen

Mas há um mistério na pedra que cai e não mata ninguém, há um mistério na rocha que cai e mata dez pessoas, uma lembrança tão viva que me impede até hoje de visitar o Capitólio, um local turístico do Brasil, no amado estado de Minas Gerais, no qual a natureza esplêndida também acumula tragédias, como o soterramento de Mariana, em 2015, e de Brumadinho, em 2019, pela lama e os rejeitos de mineração da Vale S.A, matando muitos, escapando bem poucos, num jogo imprevisível de sorte ou azar. Mas também num jogo previsível de falta de prevenção de acidentes trágicos.

Por conta disso, escrevi uma crônica sobre Minas Gerais, "suas montanhas, seus amores, seus ais", por entre as trilhas que percorri, aventureira, desde o Caminho do Ouro até a visão divina das esculturas de Aleijadinho e "seus santos de olhos de jabuticaba."

Escapar de fatalidades não é só uma arte, é uma sina e, às vezes, apenas questão de justiça ou injustiça. Lembrei desses momentos em que a gente se salva por um triz no último domingo (25), nas eleições presidenciais, quando escapamos de uma pedra de 80 toneladas que cairia sobre nossas cabeças e pensei aliviada: Deus é bom!

mockup