A peroba é árvore símbolo histórico do Norte do Paraná
No Bosque Central resta uma última peroba, protegida dos ventos pelos prédios em redor, tão magnífica quanto solitária
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sábado, 01 de agosto de 2026
No Bosque Central resta uma última peroba, protegida dos ventos pelos prédios em redor, tão magnífica quanto solitária
Domingos Pellegrini 

Peroba pode viver até 1.200 anos, e era a mais alta árvore no então chamado Sertão do Tibagi que cobria o Norte do Paraná; onde no entanto era a mais nova espécie, um baita nenê vegetal se comparada por exemplo às bromélias, tão frágeis e entretanto muitas dezenas de milhões de anos mais antigas.
Decerto a peroba cresceu tão alta para disputar sol com a mata, com tronco reto para lá no alto abrir a copa esgalhada para os lados, como a querer abraçar o céu. Esta é porém sua fraqueza: quando sem a proteção da mata em redor, pode ser tombada por vendaval, como um pêndulo pesado no alto, ainda mais porque tem na casca rugas grossas onde o vento pode empurrar (e por isso tombaram quase todas as perobas do campus da Universidade de Londrina).
Na mata úmida e rica de vida, os seus galhos sustentavam muitos parasitas, e nas suas forquilhas a chuva formava poças onde viviam pererecas e pássaros bebiam.
No Bosque Central resta uma última peroba, protegida dos ventos pelos prédios em redor, tão magnífica quanto solitária. Ela parece estar ali para nos lembrar que Londrina foi uma cidade de peroba quando era Patrimônio Três Bocas na década de 1930, com quase todas as casas feitas de peroba, que por ser madeira muito durável e ter o tronco tão reto permitia ótimo aproveitamento pelas serrarias.
Menino vi perobas deitadas em redor da Serraria Mortari, onde hoje é a Maternidade Municipal, e lagartos imóveis tomavam sol sobre os troncos. Em São Paulo a Serraria Americana (depois Eucatex) comprava perobas das derrubadas de mata para fazer madeirames, inclusive grossas pranchas que revestiriam internamente as lanchas do desembarque aliado na Normandia na Segunda Guerra Mundial, assim nossas perobas participaram do Dia D.
Peroba submersa não apodrece, por isso é muito usada na construção de trapiches, e sua madeira também mostra longevidade em móveis de madeira reciclada de casas derrubadas, como foi precursor em Londrina o marceneiro Poka Marques. Exposta às intempéries, desde que regularmente pintada ou envernizada, a madeira peroba dura séculos, como se pode ver no YouTube na primorosa série de vídeos Fazendas Antigas.
Foi com peroba que o pioneiro carpinteiro Domingos Casoni fez o modelo de casa de madeira que predominaria nas primeiras quatro vilas de Londrina - Brasil, Ipiranga, Nova e Recreio – que pareciam antecipar a bandeira municipal com suas quatro estrelas.
No Bosque Central, a Última Peroba convive com uma figueira-branca, árvore que também simboliza o tempo pioneiro da colonização, pois era espécie indicativa de terra-fértil como bem viram os colonizadores. Suas raízes altas são monumentais, formando nichos onde se aninhavam indígenas e viajantes de trilhas ancestrais, mas sua madeira era imprestável para serraria e por isso a figueira-branca era queimada junto com a mata derrubada depois de extraídas as perobas.
No Bosque as duas gigantes, Peroba e Figueira, esperam ser reconhecidas por turismo pedestre no Centro Histórico de Londrina. E sempre que passo por elas digo: durem bastante, moças, resistam ao deus Tempo e ao senhor Vento, para que mais gente descubra vocês!


