2025: o ano de Milton Hatoum, um autor consagrado
Depois de quase chegar ao Nobel de Literatura, ele agora integra a Academia Brasileira de Letras e acaba de terminar uma trilogia ambiciosa
PUBLICAÇÃO
sábado, 27 de dezembro de 2025
Depois de quase chegar ao Nobel de Literatura, ele agora integra a Academia Brasileira de Letras e acaba de terminar uma trilogia ambiciosa
Marcos Losnak/ Especial para a Folha 

O ano de 2025 foi especial para o escritor amazonense Milton Hatoum. Em agosto foi eleito para a Academia Brasileiro de Letras (ABL) para integrar o Quadro dos Membros Efetivos. Vai ocupar a cadeira de nº6 aberta com a morte do jornalista Cícero Sandroni. Entre os concorrentes à vaga estava o escritor londrinense Eduardo Baccarin-Costa. A cerimônia de posse está marcada para ocorrer em março de 2026.
Em outubro, dias antes da Academia Sueca anunciar o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2025, Milton Hatoum apareceu na lista dos mais prováveis concorrentes. Seu nome figurou entre os mais cotados para levar o prêmio nas casas de apostas de Londres como “maior escritor brasileiro vivo com livros publicados em 17 países”.
Para fechar 2025, em novembro Hatoum publicou o terceiro volume de sua ambiciosa trilogia “O Lugar Mais Sombrio”, obra que levou 18 anos para ser escrita. São três romances que retratam um drama familiar tendo como pano de fundo a ditadura militar instaurada no Brasil em 1964. A obra oferece um retrato diferenciado em que os fatos históricos são sobrepostos por sensações, impressões, emoções, afetos e outras subjetividades. Uma espécie de memória íntima do país.
TRILOGIA
Lançada pela editora Companhia das Letras, a trilogia “O Lugar Mais Sombrio” começou com a publicação de “A Espera da Noite” em 2017, depois “Pontos de Fuga” em 2019. O último volume que acaba de sair, “Dança de Enganos”, é uma espécie de linha e agulha que costura todas as questões abertas nos dois volumes anteriores.
Em “A Espera da Noite” o leitor acompanha a trajetória do jovem Martim que, no final da década de 1960 se muda de São Paulo para Brasília com o pai. Abandonado pela mãe, vive com um grupo de jovens as agruras dos primeiros anos da ditadura.
Em “Pontos de Fuga” Martim volta sozinho para São Paulo para fazer faculdade de arquitetura. Morando em uma república de estudantes, conhece mais de perto o terror da ditadura. E vive atormentado pelo peso do pai autoritário e pelo misterioso desaparecimento da mãe.
Se em “A Espera da Noite” e em “Pontos de Fuga” o autor oferece os acontecimentos do ponto de vista de Martim, em “Dança de Enganos” entrega o ponto de vista de Lina, a mãe desaparecida de Martim. Detentora da narrativa, Lina oferece novos elementos, uma coleção de segredos e uma nova perspectiva histórica dos fatos.
Lina é uma mulher que se casou muito jovem movida pela pressão social. Após o casamento, descobre que seu marido é um homem opressor, violento e déspota. Após anos vivendo na infelicidade, Lina resolve se libertar através da separação.
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Como o marido não aceita o fim do casamento, Lina precisa fugir de casa e abandonar o filho. Passando a viver com seu grande amor da adolescência, em Ouro Preto, conhece o que realmente está acontecendo no país com o fim da democracia: a opressão das forças policiais, perseguições, torturas e desaparecimentos. As relações afetivas e as íntimas subjetividades trombam de frente com o terror de Estado em vigor no país.
E quando Lina percebe que não tinha a mínima consciência da realidade, constata que todas as coisas à sua volta não passavam de mentiras e engodos. Em total estado de espanto, reconhece que sua vida foi erguida sobre equívocos e enganos. Uma carta que não chegou ao destino, um bilhete que se perdeu, uma conversa interrompida, um telefonema adiado. Qualquer coisa altera a compreensão dos fatos e determina toda uma existência: “Palavras ocultas podem separar as pessoas para sempre”.
Em “Dança de Enganos” Hatoum realiza uma ode às confusões do acaso e aos longos elos de sua corrente. Elege a possibilidade do engano como parte inseparável e determinante da vida. Circunda as sombras do terror de Estado para tocar algo muito mais abrangente, mais sutil, mais íntimo. E através da possibilidade do engano, utiliza os labirintos das tragédias criadas pelo escritor grego Sófocles (496 – 405 a.C.).
O AUTOR
Nascido em Manaus em 1952, Milton Hatoum na década de 1960 viveu em Brasília e na década de 1970 em São Paulo, onde cursou arquitetura na Universidade de São Paulo. Na década de 1980 foi professor de literatura francesa na Universidade Federal do Amazonas. Publicou seu primeiro romance, “Relato de um Certo Oriente”, em 1989. Depois vieram “Dois Irmãos” (2000), “Cinzas do Norte” (2005) e “Órfãos do Eldorado (2008), todos ganhadores do Prêmio Jabuti. “Dois Irmãos” foi transformado em minissérie pela TV Globo em 2017.
Vale assinalar que os três volumes que compreendem “O Lugar Mais Sombrio” são os únicos romances em toda obra de Hatoum não ambientados na região amazônica.

SERVIÇO:
“Dança de Enganos - O Lugar Mais Sombrio - Volume 3”
Autor – Milton Hatoum
Editora – Companhia das Letras
Páginas – 256
Quanto – R$ 74,90 (papel) R$ 34,90 (e-book)





