Londrina será protagonista no Majestoso que decide o Brasileirão feminino
Responsáveis pela formação de Jhonson, do Corinthians, e Crivellari, do São Paulo, relembram o início das carreiras de dois grandes talentos do futebol brasileiro
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sábado, 26 de setembro de 2026
Responsáveis pela formação de Jhonson, do Corinthians, e Crivellari, do São Paulo, relembram o início das carreiras de dois grandes talentos do futebol brasileiro

A final do Campeonato Brasileiro Feminino começa a ser decidida neste sábado (26), às 16h30, com o clássico entre Corinthians e São Paulo, na Neo Química Arena. O jogo de volta será no dia 3 de outubro, no mesmo horário, no Morumbis. Além da dimensão do Majestoso, a decisão coloca frente a frente duas jogadoras que têm em comum o início de suas trajetórias em Londrina.
Pelo Corinthians está Jhonson, 20 anos, uma das jovens que despontam como nomes importantes para o futuro da seleção brasileira. Do outro lado, o São Paulo conta com Giovanna Crivellari, de 33 anos, atacante experiente que construiu uma carreira marcada por passagens em grandes clubes do país e do exterior.
A FOLHA conversou com os dois profissionais responsáveis pela formação das atletas em Londrina para entender como foi acompanhar os primeiros passos de duas jogadoras que chegaram a uma decisão nacional.
Jhonson foi descoberta por Johnny Gonçalves, técnico e gestor do Londrina Tsuru Oguido, projeto que atualmente é bicampeão paranaense sub-17 e campeão estadual sub-15. Crivellari teve um caminho diferente. Antes mesmo da criação do projeto de futebol de campo que revelou Jhonson em Londrina, ela começou no futsal. Foi pelas mãos de Jayne Borim, então técnica das categorias de base do Londrina Futsal, que a atacante iniciou sua trajetória esportiva antes de trocar o ciclismo pelo futebol.
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Jhonson, descoberta entre os meninos
Ingrid Aparecida Borges de Morais, conhecida no futebol como Jhonson, nasceu em 10 de setembro de 2005, em Londrina. O primeiro contato com Johnny Gonçalves ocorreu quando ela ainda era criança e participava de uma competição do Sesc, jogando com meninos.
"Eu falei: 'Nossa, olha aquela menininha bem franzininha'. Pensei: 'Pô, que menina bacana'. A gente se aproximou, conversou com ela e com os pais e passou. Depois de um tempo, um professor que trabalha comigo até hoje, o Reginaldo, veio trabalhar comigo em 2018. Ele falou: 'Johnny, estava passando ali na quadrinha perto da Unopar do Piza - bem perto de onde ela morava - e a menina chamou atenção'. Daí aconteceu. Eu falei: 'Professor, vamos trazer essa menina para cá'", contou.
Johnny e Reginaldo foram até a casa da família para conversar com os pais de Jhonson. A lembrança daquele momento ainda está registrada em uma fotografia.

"Eu tenho até essa foto, tenho até hoje. Foi a primeira vez que a gente foi lá, na casa do pai, uma casinha de madeira bem pequenininha, bem humilde. Tiramos uma foto lá dentro da casa dela. A partir desse momento, ela começou a treinar no nosso projeto."
Jhonson permaneceu nas categorias de base do Londrina Tsuru, mas sua passagem pelo projeto não chegou a ser formalizada como vínculo de formação. Antes de ser federada pelo clube, ela disputou Jogos Escolares, Paraná Bom de Bola e outras competições que ajudaram a projetá-la no futebol paranaense.
"A gente contribuiu no sentido de apresentar ela às primeiras competições oficiais e fazer com que ela competisse. A partir desse momento, ela chamou a atenção de todo mundo no Paraná. Nas competições que jogamos, todo mundo começou a ver e saber quem era essa menina. Ela precisava ser lapidada, mas nasceu para isso. Nasceu para jogar futebol", afirmou Johnny.
A trajetória, porém, tomou outro rumo durante a pandemia de Covid-19. O Londrina se preparava para disputar o Campeonato Paranaense adulto de 2020 quando as competições foram paralisadas. O Toledo, por sua vez, manteve atividades em Ouro Verde do Oeste, onde tinha estrutura para treinar.
Foi nesse período que a família de Jhonson recebeu o convite para que a jovem treinasse no clube do Oeste do Estado.
"O Toledo treinava em uma cidadezinha chamada Ouro Verde do Oeste. O responsável tinha um centro de treinamento em uma fazenda e, como era uma cidade pequena, eles não pararam de treinar. Nesse momento, entraram em contato com a família da Jhonson e falaram: 'Vem para cá, vem treinar aqui'. Eles já tinham visto ela nas competições que a gente disputava", relatou Johnny.
O treinador tentou convencer a família a permanecer em Londrina, mas não conseguiu. Como Jhonson ainda não havia sido federada pelo Londrina Tsuru, a mudança foi possível.
"Nós não tínhamos nenhum contrato com ela e não tínhamos nem federado ela no Londrina porque não deu tempo. Se você for olhar a história, foi desse jeito que aconteceu. As primeiras competições em que ela apareceu, surgiu, ficou conhecida e foi descoberta pelas pessoas do Paraná inteiro foram aqui, através do nosso projeto e dos Jogos Escolares. Ela jogou os Jogos Escolares com a gente."
Depois do Toledo, Jhonson passou pelo Coritiba por empréstimo e retornou ao clube de origem antes de chegar ao Corinthians. O clube paulista adquiriu seus direitos e manteve parte dos direitos futuros com o Toledo.
Pelo Corinthians, a atacante conquistou a Libertadores e dois Campeonatos Brasileiros. Pela seleção brasileira, foi campeã do Sul-Americano sub-17 em 2022 e acumulou convocações nas categorias de base. Também conquistou a Copa América e segue sendo chamada para a equipe principal. Seu nome está na lista mais recente divulgada pelo técnico Arthur Elias.
Antes do campo, o futsal
A história de Crivellari começou de outra maneira. Antes de chegar ao futebol de campo, a atacante era atleta do ciclismo e chegou a ser campeã brasileira representando Londrina. A mudança de modalidade ocorreu quando ela começou a frequentar os treinos do Londrina Futsal na Unopar.
Jayne Borim, que trabalhava nas categorias de base, lembra que Crivellari chamava atenção pelo porte físico e pela capacidade técnica.
"Ela era uma atleta do ciclismo, apaixonada por jogar futsal. Apareceu em um dos nossos treinos que realizávamos na Unopar e percebemos que era uma menina muito fora da média, porque era muito forte. Ela sempre foi grande e muito forte e, para a idade, mais ainda."
Na época, Crivellari precisou decidir entre o ciclismo e o futsal. A conciliação entre as duas modalidades era possível, mas seria fisicamente difícil.
"Ela começou a vir treinar o futsal. Era uma menina que, para a época, estava acima das outras atletas e foi participar dos campeonatos, desde o sub-15, e foi artilheira."
A partir dali, o futsal ganhou espaço na trajetória da atleta. Jayne percebeu que, além do desempenho, havia um interesse crescente de Crivellari pela modalidade.
"Percebemos que, mesmo ela sendo uma grande atleta do ciclismo, prevalecia não só o desempenho, mas também o gosto que ela tinha pela modalidade. Mas sempre soubemos que ela tinha um sonho, que era ir para o campo."
O projeto de futebol de campo do Londrina Tsuru só seria iniciado em 2013, três anos depois de Crivellari deixar o futsal para fazer um teste no Santos. Por isso, sua transição ocorreu antes da cidade contar com um projeto sólido no campo.
"Pelo estilo que ela tem, de ser forte, e pelas características que poderia acabar dando certo, ela ficou na base com a gente por um tempo. Sabemos que o futsal é um processo grande para grandes jogadores e que fazemos a transição para o campo. Até que um dia ela recebeu propostas, fez testes e migrou para o campo. E tem todo o sucesso que acompanhamos", disse Jayne.
Crivellari, segundo a treinadora, nunca escondeu a importância que o futsal teve em sua formação.
"Ela sempre fala que o futsal avançou a situação dela para o campo. Eu me sinto muito feliz de poder ter contribuído, de uma forma ou outra, com o desenvolvimento dela, para ela chegar à seleção brasileira e jogar em grandes times, como Corinthians, na China. Agora está no São Paulo para chegar nessa final."
A peneira que mudou a carreira
A peneira no Santos, em 2010, foi um dos momentos decisivos da carreira de Crivellari. Na época, o clube paulista reunia algumas das principais jogadoras do país, como Marta e Cristiane.
"Sobre a peneira que eu fiz, foi em 2010, nas Sereias da Vila, onde era o time a ser batido, com Marta e Cristiane. O treinador na época, o Cleiton Lima, chegou e falou: 'Falaram muito bem de você, mas a bola não está chegando. Nesse seu último jogo, preciso que você faça alguma coisa'. Eu falei: 'Tá bom, pode deixar'."
A resposta veio rapidamente. "A gente voltou e, dois minutos depois, peguei uma bola no meio-campo, dei na lateral e dei um voleio. Acho que nunca fiz um gol desse na minha carreira. Fui a única que passei. De 2 mil ou 2,5 mil meninas, foi a maior peneira que teve. Foi muita emoção, foi muito importante e muito legal para mim", lembrou ela em uma entrevista ao canal da Federação Paulista de Futebol (FPF).
A partir do Santos, Crivellari construiu uma carreira que passou por Foz Cataratas, São Caetano, Vitória das Tabocas, Avaí Kindermann, Napoli-SC, 3B da Amazônia, Corinthians, Flamengo e São Paulo. Também atuou no futebol internacional por Hangzhou Greentown, da China, Gyeongju KHNP, da Coreia do Sul, e Levante, da Espanha.
No Corinthians, foi campeã da Libertadores e bicampeã brasileira, além de bicampeã paulista. Pelo Flamengo, conquistou o Campeonato Carioca, e pelo São Paulo levantou a Supercopa do Brasil.
A atacante também teve a oportunidade de disputar a Liga dos Campeões da Europa pelo Levante, experiência que guarda entre as mais marcantes da carreira.
"O momento em que disputei a Champions League, quando fui para o Levante, foi muito marcante porque foi minha primeira Champions. Eu estava no banco e o professor falou: 'Vai, entra. Está 2 a 0 só. A gente precisa fazer um gol, precisa decidir o jogo, lutar e buscar'. Eu disse: 'Pode deixar'. Meu primeiro toque na bola foi o gol. Você estar jogando uma Champions League, entrar e fazer um gol contra uma grande equipe e uma grande goleira foi um momento muito único e especial, que levo comigo na memória até hoje."
Na seleção brasileira, porém, sua trajetória foi diferente. Crivellari defendeu o Brasil na categoria sub-20 ainda no início da carreira e voltou a ser convocada em 2021, durante o trabalho da técnica sueca Pia Sundhage.
Duas gerações, uma final
Atualmente, Crivellari é uma das referências do São Paulo. Aos 33 anos, soma dez participações em 23 jogos na temporada, com oito gols e duas assistências. A atacante se destaca pela força física e pela versatilidade, podendo atuar tanto pelos lados do campo quanto como centroavante.
Jhonson, por sua vez, tem apenas 20 anos e já ocupa espaço importante no Corinthians. Desde que chegou, há três anos, soma 30 gols em 70 jogos. Foi no clube paulista que viveu os principais momentos da carreira até agora, com títulos do Campeonato Brasileiro e da Libertadores.
A atacante também chama atenção pelo contraste entre o comportamento fora e dentro de campo. Longe dos gramados, é descrita como tímida. Durante os jogos, porém, demonstra personalidade e não costuma esconder seu lado provocador.
"Eu estou na minha, fazendo o meu quietinha e trabalhando bastante o mental. Estou muito feliz", afirmou ela em entrevista após a vitória do Corinthians sobre o Bahia por 1 a 0 na semifinal do Brasileiro, com gol marcado por ela própria.
Jhonson já protagonizou episódios de provocação ao São Paulo, justamente o adversário na decisão do Brasileiro. Em 2025, marcou contra o Tricolor na semifinal do Campeonato Paulista e provocou a torcida adversária.
"A torcida tem que ficar um pouquinho calma, porque é o Coringão. Fiquei muito feliz. Não foi uma provocação, foi só de leve, de atacante mesmo quando faz gol", disse na ocasião.
Agora, as duas londrinenses, separadas por 13 anos de idade e por trajetórias diferentes, estarão frente a frente na decisão do Campeonato Brasileiro. De um lado, Jhonson, que saiu de uma quadra de bairro para se tornar uma das principais jovens do Corinthians. Do outro, Crivellari, que começou no ciclismo, passou pelo futsal e construiu uma longa carreira no futebol de campo. O ponto em comum entre as duas está antes dos grandes estádios e dos títulos, Londrina.


Matheus Camargo
Repórter de Esportes, com foco no Londrina Esporte Clube.





