O Londrina está rebaixado à Série C do Campeonato Brasileiro, e os erros que levaram a isso são muitos por parte da Squadra Sports, dona da SAF do clube. Após um ano de 2025 de lua de mel, com o acesso, 2026 apareceu como a crise de um relacionamento que já dava sinais, com um planejamento atropelado, saída de treinador na pré-temporada, contratações questionáveis, treinadores que enxergam o futebol de maneiras diferentes e um distanciamento da torcida e da cidade.

O discurso

Guilherme Bellintani tornou público que o Londrina teria uma das menores folhas salariais da Série B e brigaria contra o rebaixamento, mas sempre reforçou que "não faria loucuras" na competição nacional. O discurso, se analisado internamente, é justo e provavelmente correto quando se pensa na saúde financeira do clube, mas foi utilizado, de porta para fora, desde que apresentado, como algo negativo por uma parcela relevante da torcida alviceleste.

"Se eu projeto uma folha de R$ 1,2 milhão, R$ 1,3 milhão para a Série B, todo mundo vai dizer, ‘você vai cair’. É a menor folha da Série B. É o que cabe na conta", disse ele em entrevista ao site Trivela, em novembro de 2025.

“O que eu acho que é um risco muito maior seria fazer que não consigo pagar. É o risco que já está realizado, já deu merda ali no começo. O risco de fazer uma folha menor e cair, ele pode vir a acontecer. Então a gente tem que ter coragem”, afirmou.

Dito e feito. O Londrina teve problemas durante toda a Série B, especialmente na montagem do elenco, e está rebaixado para a Série C.

O discurso desmobilizou desde o início e fez com que Guilherme Bellintani, exaltado após o acesso em 2025 e tietado por torcedores quando esteve no VGD para o jogo da volta à Sére B diante do São Bernardo, há cerca de um ano, se tornasse o grande alvo da torcida, já que é o dono da SAF.

Montagem do elenco

Uma coisa leva à outra. Com uma das menores folhas salariais da Série B, o Londrina teve problemas desde o primeiro dia de planejamento para montar um elenco competitivo para a temporada de 2026. Jogadores que foram reservas na Série C e, inclusive, eram pouco utilizados, se tornaram titulares durante a maior parte da temporada, como nos casos do volante João Tavares e do zagueiro Yago Lincoln, este que foi vendido ao Cercle Brugge, da Bélgica.

Quanto às chegadas, foram mais de 40 contratações, se somadas todas as movimentações, incluindo velhos conhecidos, como Paulinho Moccelin, que esteve no elenco do Londrina nos três rebaixamentos, em 2019, 2023 e 2026, e o centroavante Gilberto, com passagens por grandes clubes como São Paulo, Cruzeiro e Bahia, mas que pouco fez no Londrina.

Também chegaram atletas que faziam parte de um projeto tratado por Bellintani como inovador, baseado na busca por jogadores pouco utilizados em times da Série A e que já haviam ultrapassado a idade das categorias de base.

Nesse projeto, chegaram ao clube atletas como André Dhominique, ex-Bahia; Rafael Monteiro, ex-Fluminense; Murilo Chico, ex-Athletico; André Cardoso e Chumbinho, ex-Bragantino; Fabiano, ex-Flamengo; João Pedro, ex-Cruzeiro; Crysthian, ex-Internacional, entre outros. Ninguém ganhou espaço, e praticamente todos acabaram relegados ao banco de reservas ou ao melancólico elenco da Copa Paraná.

Para piorar, reforços que tiveram algum destaque sequer terminaram o ano no clube. Foi o caso do volante André Luiz, titular absoluto até a metade da Série B, que deixou a equipe durante a competição para atuar no futebol do Vietnã. O principal exemplo, porém, foi Bruno Santos, artilheiro do Londrina no ano e da Série B até então, além de um dos principais responsáveis por manter o time fora da zona de rebaixamento durante algumas rodadas. De um dia para o outro, teve a multa rescisória paga pelo Mirassol e foi embora.

Treinadores

As duas escolhas do Londrina para o comando técnico em 2026 podem ser avaliadas como equivocadas. Primeiro, pelas características completamente distintas entre os treinadores na maneira de pensar o jogo e, especialmente, pela montagem do elenco, inicialmente planejado para Roger Silva, que deixou o clube em dezembro para assumir o Sport.

A primeira escolha para o lugar de Roger foi Allan Aal, que nunca escondeu sua vocação mais defensiva de enxergar o futebol. Allan vinha de um ano ruim no Botafogo-SP, onde foi demitido com o time na luta contra o rebaixamento na reta final da Série B.

No Campeonato Paranaense, o Londrina teve bom desempenho na primeira fase, mas encontrou dificuldades no mata-mata. Chegou à final contra o Operário e perdeu o título nos pênaltis, em pleno estádio do Café, diante de quase 20 mil torcedores.

Na Copa do Brasil, caiu diante do mesmo Operário, novamente no Café, derrota no tempo normal. Na Série B, teve um início de resultados ruins, e Allan foi demitido na sétima rodada, após nova derrota para o rival, por 3 a 0, em Ponta Grossa.

O Londrina, então, foi ao mercado e claramente sentiu dificuldades para contratar um treinador à altura da Série B, especialmente por questões financeiras. Após dias de negociações e uma série de nomes especulados, surpreendeu ao anunciar Rogério Micale como novo técnico.

Micale chegou com o discurso de retomar a ideia de Roger, quase seis meses depois de Allan ter buscado mudar a forma de jogar da equipe. Ou seja, houve um choque direto entre as propostas de trabalho. Além disso, o treinador chegou ao clube sem jamais ter conseguido sucesso em equipes das Séries A e B, embora tenha trabalhos relevantes nas categorias de base e nas seleções sub-23, como no Brasil, onde foi campeão olímpico, e no Egito, que terminou na quarta colocação nos Jogos Olímpicos de 2024.

Micale nunca conseguiu impor suas ideias no Londrina e teve um período de respiro ao acumular seis jogos sem perder. No segundo turno, porém, após perder atletas como André Luiz, Iago Teles e Bruno Santos, sucumbiu e acumulou derrotas consecutivas, afundando na zona de rebaixamento. A pá de cal em seu trabalho foi a derrota para o Avaí, em Florianópolis, a quarta consecutiva, que praticamente decretou o rebaixamento.

Distanciamento da cidade

Por fim, há uma questão estrutural que tem sido relevante no clube: a falta de pessoas da gestão na cidade. A SAF começou com um planejamento que incluía uma diretoria mais robusta em 2024, com nomes como Luiz Kriwat, Mauro Júnior e Lucas Magalhães no comando do futebol, cada um em um cargo. Essa estrutura já havia sido reduzida em 2025. Na ocasião, Lucas assumiu como executivo de futebol, Paulo Assis era o CEO e havia nomes de apoio na cidade, como o analista de mercado Gustavo Dias.

Durante o ano, houve uma troca de CEO, com Paulo Assis indo para o América-MG e Armando Chekerdemian, anunciado como um nome "de fora do futebol", assumindo o comando da SAF na cidade.

O Londrina subiu para a Série B, e algumas mudanças ocorreram, como a saída de Gustavo Dias para o América-MG, nome nunca reposto. Com o andamento da competição, Armando foi desligado, sem que o motivo tivesse sido revelado. Na ocasião, houve a indicação de que um novo nome seria anunciado para o cargo de CEO até agosto. Isso nunca aconteceu.

Em Londrina, apenas Lucas Magalhães, como executivo de futebol, segue respondendo pelo clube, enquanto Dado Cavalcanti, diretor esportivo da Squadra Sports, aparece com baixa frequência. Guilherme Bellintani não vem a Londrina desde abril.

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