Trabalhador brasileiro quer mais home office do que as empresas
Estudo feito em 27 países também aponta que funcionários trocariam parte do salário por mais dias em casa
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 31 de outubro de 2022
Estudo feito em 27 países também aponta que funcionários trocariam parte do salário por mais dias em casa
Douglas Gravas/ Folhapress 
São Paulo - Brasileiros gostariam, em média, de trabalhar 2,3 dias em casa na reabertura após a pandemia, mas, também em média, seus empregadores pretende adotar apenas 0,8 dia de home office.
Os dados são do estudo Working from Home Around the World (Trabalhando em casa ao redor do mundo), feito por seis pesquisadores, entre eles o professor do Departamento de Economia da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, Nicholas Bloom.
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O Brasil (ao lado do Egito) é o país em que a distância é maior entre o que os trabalhadores desejam e o que as empresas estão dispostas a ofertar em dias fora do escritório.
Em média, as pessoas estão trabalhando hoje 1,5 dia em casa (sendo 1,7 no Brasil). Os países asiáticos concentram os maiores e menores indicadores: na Índia, esse patamar chega a 2,6 dias e é mais baixo na Coreia do Sul (0,5 dia).
A Bloom afirma que os estudos mostram que em diferentes países esses funcionários trabalham de forma mais produtiva em casa, são mais felizes e têm menos vontade de deixar a empresa.
"Empregadores estão adotando o home office não por serem obrigados, mas por isso gerar lucro. O melhor impulsionador do trabalho remoto é o fato de melhorar os resultados financeiros da empresa."
Ele diz que as companhias nos Estados Unidos e na Europa tendem a ser mais abertas ao trabalho em casa. "Na América do Sul, ainda estão um pouco atrás. Um fator é a cultura, outro é a estrutura de moradia - é preciso ter espaço físico, principalmente para um casal poder trabalhar em casa."
Bloom avalia que as empresas ainda esbarram na baixa capacidade de gestão para o trabalho em casa, que demanda boas ferramentas de avaliação de desempenho. "Como você não pode estar com o funcionário, é preciso revisar processos para garantir que eles estejam realmente trabalhando."
Isso explicaria o maior número de trabalhadores híbridos (que passam dias em casa e no escritório) e remotos no Brasil estar concentrado nas empresas de grande porte, principalmente as multinacionais, pois elas geralmente têm os melhores sistemas de gestão de desempenho.
"As empresas menores, tipicamente de gestão familiar, tendem a ser mais informais e dependem da gestão direta, o que é difícil de fazer remotamente", diz o pesquisador.
Na avaliação do pesquisador do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas) Fernando Veloso, a divergência entre a vontade de empresas e trabalhadores ocorre porque nem sempre os benefícios que o funcionário percebe ao ficar em casa são valorizados pelas empresas.
"Os trabalhadores em geral declaram ter tido um aumento de produtividade em trabalhar em casa superior ao aumento percebido pelos empregadores, que em grande medida está relacionado ao tempo economizado no deslocamento para o trabalho."
A pesquisa com os 27 países espelha médias amostrais, com grupos de trabalhadores de tempo integral, com um nível de formação relativamente bom e que têm facilidade de acesso a smartphones, computadores e similares para responder a uma pesquisa online.
Foram feitas duas rodadas de pesquisa, na metade de 2021 e no início de 2022, com trabalhadores de 18 setores da indústria de idades de 20 a 59 anos.
TRABALHADORES ACEITAM ATÉ PERDER PARTE DO SALÁRIO
Outro dado que chamou a atenção dos pesquisadores foi o percentual do salário que os trabalhadores estariam dispostos a trocar por dois ou três dias trabalhando fora da empresa.
Na média, eles estariam dispostos a perder 5% de seu salário habitual pela possibilidade de ter dois ou três dias de home office - entre os entrevistados brasileiros, esse percentual é de 7,4%.
Bloom argumenta que isso deixa claro como trabalhar em casa, além de ser vantajoso para os funcionários, oferece uma enorme oportunidade de restruturação para as empresas.
Veloso ressalta que essa é uma média, mas quanto se estaria disposto a perder pela chance de trabalhar de casa é um número que deve variar bastante entre os trabalhadores. "Provavelmente quem aceita disposto a ter uma redução de salário não teve perda significativa de renda real durante a pandemia."
Apesar de as novas modalidades de trabalho terem ficado mais comuns com a crise sanitária, os estudos sobre trabalho remoto e híbrido no Brasil e em outros países mostram que essa é uma realidade para uma minoria de trabalhadores de escolaridade maior.
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