Valor dos contratos locais do Compra Londrina cai 50% em um ano
Levantamento aponta retração de R$ 112,3 mi, em 2024, para R$ 55,5 mi no ano passado; resultado ficou próximo do registrado em 2019
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segunda-feira, 30 de março de 2026
Levantamento aponta retração de R$ 112,3 mi, em 2024, para R$ 55,5 mi no ano passado; resultado ficou próximo do registrado em 2019

O Programa Compra Londrina encerrou 2025 com queda de 50,5% nos valores homologados com empresas londrinenses na comparação com o ano anterior. Levantamento da Secretaria Municipal de Gestão Pública apontou que o montante recuou de R$ 112,3 milhões para R$ 55,5 milhões. A administração municipal atribui a queda a uma diminuição da demanda por obras, produtos, serviços e projetos observada no período, mas instituições e entidades de classe olham para os números com preocupação por enxergarem neles um sinal de que o programa vem perdendo força e iniciam uma mobilização para que o volume de contratos com fornecedores locais volte a crescer.
Lançado oficialmente em 2012 por iniciativa conjunta da sociedade civil organizada e do poder público, o Compra Londrina foi uma forma de transformar os processos licitatórios conduzidos pela administração direta e indireta em instrumentos de desenvolvimento econômico e social, impulsionando a geração de emprego e renda no município ao mesmo tempo em que fortalece as empresas locais. Os primeiros cinco anos foram de estruturação e, em 2017, um decreto regulamentou o programa.
Um estudo técnico realizado em 2021 pelo Nigep/UEL (Núcleo Interdisciplinar de Gestão Pública da Universidade Estadual de Londrina) apontou que em 2015, os contratos homologados pela Prefeitura de Londrina com empresas locais somaram R$ 41,5 milhões. Dois anos após a regulamentação do programa municipal, em 2019, os valores contratados saltaram para R$ 53,5 milhões.
O aumento de quase 30% em quatro anos foi resultado de investimentos constantes na capacitação de micro e pequenas empresas para aprenderem a vender ao poder público, na transparência dos processos licitatórios e na desburocratização, com a simplificação do acesso para quem buscava fechar contrato com o município.
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Ano a ano, o programa foi avançando. Em 2023, um quarto de todos os contratos homologados pelo município foi com empresas da cidade, o que representou R$ 125,5 milhões. Em 2024, houve redução de 10,5%, caindo para R$ 112,3 milhões e, no ano passado, nova queda, dessa vez, reduzindo pela metade o número de contratos com fornecedores locais. O resultado de 2025 ficou apenas R$ 2 milhões acima do registrado em 2019. O índice de participação de empresas da cidade nos processos licitatórios entre 2024 e 2025 também caiu, de 27,18% para 17,82%.
Vale frisar que valores homologados não são valores contratados e esses números referem-se apenas à administração direta. A partir de 2019, outros órgãos e instituições aderiram ao Compra Londrina, como a CMTU (Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização), UEL e Câmara Municipal, aumentando as oportunidades de compra e venda públicas às empresas privadas. Atualmente, são cerca de 20, no total.
O secretário municipal de Gestão Pública, Sérgio Willian Costa Becher, justifica a queda nos valores, principalmente, a uma redução na necessidade de contratação de produtos e serviços e execução de obras observada no ano passado. “Em 2024, tivemos uma movimentação de R$ 22 milhões em obras que foram atribuídas a empresas locais e regionais e esses recursos de convênios e instrumentos de repasse advindos de entidades externas não têm uma continuidade, uma repetição ano a ano. Esse montante não se repetiu no ano passado.”
Becher apontou ainda outros dois fatores. O primeiro, foi a possibilidade de, em 2025, prorrogar contratos firmados no ano anterior, dispensando nova licitação. Outro fator foi a troca de gestores. O governo de Tiago Amaral assumiu a prefeitura em janeiro do ano passado. “Geralmente, quando tem a alternância na governança, com um novo prefeito, novos secretários, é natural que nos primeiros meses se faça uma racionalização e uma validação dos contratos já vigentes e a análise de novas licitações que serão lançadas.”
Recentemente, o Fórum Desenvolve Londrina divulgou os dados do Caderno de Estudo 2025 que teve como tema o PIB Per Capita e o Futuro de Londrina. Em um dos tópicos do documento, dedicado à análise de experiências locais consideradas benéficas ao fomento da renda da população, o Compra Londrina aparece em destaque. O Fórum reconheceu que o desenvolvimento econômico sustentável de um município “está diretamente associado à sua capacidade de reter e multiplicar, no próprio território, os recursos públicos investidos e seus efeitos econômicos” e apontou a relevância do programa enquanto política pública. “Seu diferencial está na combinação entre segurança jurídica, governança colaborativa e resultados mensuráveis, demonstrando que a compra pública pode ser um instrumento efetivo de geração de renda, empregos e arrecadação tributária, com impactos estruturais sobre a economia local”, concluiu o estudo.
Segundo levantamento feito pela entidade, entre 2018 e 2024, 1.701 empresas homologadas como vencedoras em processos licitatórios eram de Londrina, o que representa 25% do total, com mais de R$ 701 milhões contratados pelo município.
Os impactos econômicos do programa, mensurados pelo Nigep/UEL e incluídos no Caderno de Estudo, apontam a possibilidade de quase cinco mil empregos criados, potencial de R$ 103 milhões em geração de renda acumulada e de R$ 151 milhões em retorno de impostos ao município.
Atento ao desempenho do programa, o OGPL (Observatório de Gestão Pública de Londrina) vê indícios de “abandono” do Compra Londrina pela atual administração municipal. Um dos indicativos, apontou o presidente, Roger Trigueiros, é o desmonte da estrutura física e a redução do número de servidores atuando pela continuidade e fortalecimento da política pública.
Até o final de 2024, o Compra Londrina dispunha de uma sala específica dentro do prédio da prefeitura, com servidores treinados. “Esses servidores e a sala eram o elo entre administração, empresário e instituições. (A sala) Era o coração do programa, onde os empresários tinham um espaço próprio e específico.”
Ao assumir a administração municipal, no início de 2025, Tiago Amaral desfez a sala e destinou o espaço aos pregões presenciais. O número de servidores também foi reduzido. A equipe, que chegou a ter quatro pessoas atuando exclusivamente no programa, terminou 2024 com três servidoras. No ano passado, uma delas se aposentou e, atualmente, apenas duas mantêm-se na função. De acordo com Becher, estão em andamento na Secretaria de Recursos Humanos os procedimentos para substituição da servidora aposentada. O secretário reconheceu a importância do programa para a economia da cidade e disse que está nos planos do atual governo investir em seu aperfeiçoamento. “Nossa diretriz como administração, até vendo a política pública já consolidada, é manter e buscar a ampliação.”
O enxugamento na estrutura física e de pessoal, avaliou Trigueiros, foi um dos motivos que levaram à diminuição dos valores computados pelo Compra Londrina. “Pelos números, não restam dúvidas de que a atual administração não está dando a atenção devida para o programa, o que é lamentável, haja vista que o Programa Compra Londrina não é um programa de administração A ou B, mas sim, da sociedade londrinense.”
Uma das entidades mais atuantes na implementação do Compra Londrina, o Sebrae/PR se empenha para não deixar morrer o programa, mas pondera que o ano passado foi marcado por cortes no orçamento municipal. “Foi um ano de contingenciamentos e eu acho que isso também contribuiu para que os números caíssem”, disse o consultor do Sebrae/PR, Sergio Ozorio. “Já passaram vários gestores e a gente foi consolidando. Essa é uma política de Estado e não de governo, que beneficia toda a cidade. Gera mais impostos, mais renda, mais empregos.”
Acil prepara evento para revigorar programa
Ao tomar conhecimento dos resultados do Compra Londrina em 2025, Acil (Associação Comercial e Industrial de Londrina), Sebrae/PR e outras instituições reuniram-se com o prefeito Tiago Amaral e o secretário municipal de Gestão Pública, Sergio Willian Costa Becher, para reforçar a importância do programa para a economia da cidade e discutir ações para revigorá-lo. Dessas discussões surgiu a ideia de fazer um evento, no próximo dia 8 de abril, para apresentar a dinâmica do programa a empresários e divulgar o calendário de contratação dos órgãos e instituições públicos vinculados ao Compra Londrina.
“A gente entendeu que na mudança da gestão, como novos atores entraram no processo, há um tempo de entendimento de toda a máquina. Talvez o programa em si não tenha sido o foco principal naquele momento, não houve uma conexão naquele momento”, avaliou o superintendente da Acil, Diego Menão.
Para este ano, disse o superintendente, está previsto um “realinhamento de atores” para restabelecer a conexão do programa com os empresários. “É preciso estar constantemente formando o empresário e vamos ter um programa de formação neste ano, novamente”, adiantou.
“Teve uma retração em termos de contratação (de empresas locais). Tinha o orçamento, que não dominavam, a retração de contratos vigentes e servidores que estão recompondo. Mas não podemos, como sociedade, abandonar a ideia. É um canal de desenvolvimento econômico e empresarial criado para fortalecer a economia local”, destacou Menão. “É um trabalho permanente. Lá dentro, vão mudando as pessoas e o conhecimento precisa ser reforçado o tempo todo.”(S.S.)


Simoni Saris
Repórter com atuação nas áreas de Economia, Infraestrutura e Agronegócio.




