Sucessão em empresas familiares deve ser construída aos poucos
O Instituto Brasileiro de Governança Corporativa trouxe a temática para ser debatida em evento na semana passada em Londrina
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sábado, 26 de setembro de 2026
O Instituto Brasileiro de Governança Corporativa trouxe a temática para ser debatida em evento na semana passada em Londrina

‘Passar o bastão’ da empresa para um filho, neto ou outro herdeiro nem sempre é uma tarefa fácil, já que envolve muita preparação, trabalho e diálogo entre as diferentes gerações. Foi com o intuito de aproximar a temática de empresários de Londrina e região que o IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa) organizou um evento na semana passada, reunindo exemplos reais de como a sucessão pode ser moldada dentro de empresas familiares para que a transição seja tranquila e o negócio continue crescendo.
A advogada Nady Dequech é especialista em governança corporativa e planejamento patrimonial e sucessório. Ela é coordenadora estendida do IBGC Capítulo Paraná, sendo responsável por trazer o Avança + Paraná pela primeira vez para Londrina. Dequech explica que um dos principais objetivos do IBGC é fomentar a governança dentro das empresas, ou seja, o sistema de regras e processos que orientam, dirigem e controlam a forma como uma empresa é administrada.
Na região de Londrina, segundo ela, existem muitas empresas familiares pujantes e em plena expansão, o que motivou a organização do evento para debater os assuntos voltados à governança, mas com foco principal na sucessão. O evento foi mediado pelo IBGC e contou com a participação de três empresários, que palestraram para uma plateia de 90 pessoas sobre os desafios da ‘passagem de bastão’ dentro da empresa da família.
“Eles contaram suas histórias, seus desafios, seus propósitos na continuidade do legado”, explica a especialista. Tiveram a palavra no evento o presidente do Grupo A.Yoshii, Leonardo Yoshii, a presidente do Moinho Globo, Paloma Venturelli, e a CEO da Apetit Serviços de Alimentação, Pamela Manfrin.
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A conversa foi norteada pelos pilares da governança corporativa estabelecidos pelo manual do IBGC: integridade, transparência, equidade, responsabilização e sustentabilidade. Dequech aponta que o ponto alto do evento foram os relatos dos desafios da sucessão, o que envolve um processo longo e contínuo, destacando que a governança entra como uma catalisadora dessa transformação.
Na visão da especialista, os desafios da sucessão são vários, mas o destaque vai para a manutenção da tradição e do legado da empresa ao passo em que é necessário trazer inovação para que o negócio continue crescendo. “A comunicação entre o fundador e o sucessor é fundamental, tendo, principalmente, uma clareza de papéis, não somente do fundador, mas de cada um dos herdeiros sobre as suas responsabilidades, obrigações e direitos”, esclarece.
Para uma transição tranquila e eficiente, a especialista também aponta como fundamental a preparação do sucessor para assumir as novas responsabilidades que virão a partir do novo cargo dentro da empresa, sem nunca desrespeitar o que foi construído ao longo dos anos pelo fundador. “É respeitar uma tradição ao mesmo tempo que você não pode deixar o negócio parado no tempo”, afirma.
O primeiro e talvez mais importante passo ao dar início à transição na administração da empresa é a construção do sentimento de pertencimento do sucessor, que precisa ter o desejo de desenvolver ainda mais o negócio das famílias pelos próximos anos ou décadas. “Não é simplesmente ocupar uma cadeira por causa do sobrenome”, alerta.
Para Nady Dequech, desde que o ‘mundo é mundo’ existem conflitos entre diferentes gerações, sendo que no meio corporativo isso não seria diferente. Por isso, segundo ela, é fundamental promover e ampliar discussões ligadas à sucessão dentro de empresas familiares.
Um dos palestrantes do evento foi o empresário Leonardo Yoshii, que está à frente da presidência do Grupo A.Yoshii, fundado pelo pai, Atsushi Yoshii, em 1965. O administrador afirma que cresceu junto com a construtora, acompanhando o dia a dia do pai, mas assumir a presidência não foi um processo automático. “Existe uma preparação técnica, profissional e, principalmente, uma construção de confiança e legitimidade junto às pessoas”, aponta.
E essa sucessão não começa de repente, no momento em que o fundador decide sair, ela é construída muito antes. Um dos principais pontos que procurei destacar é que sucessão não começa quando o fundador decide sair. Ela precisa ser construída muito antes. “A sucessão não pode depender apenas da relação entre pai e filho. Ela precisa ser entendida como um processo da empresa”, garante.
Para o presidente, o principal desafio nesse processo de sucessão é entender o que deve permanecer e ter coragem para transformar aquilo que precisa evoluir. “Quando assumi a presidência, há dez anos, recebi uma empresa com uma história já consolidada e com valores muito fortes. Meu desafio não era romper com essa história, mas estar preparado para dar continuidade a ela e, ao mesmo tempo, conduzir a empresa para um novo ciclo”, conta.
Entretanto, para Leonardo Yoshii, alguns princípios são inegociáveis e atravessam gerações, como a ética, transparência, respeito às pessoas, foco no cliente, qualidade e credibilidade.

Mas preservar valores não significa administrar da mesma maneira para sempre. O presidente destaca que o mercado muda, as pessoas mudam, a tecnologia muda e a própria empresa cresce e se torna mais complexa. “Quando assumi, sabia que não deveria tentar ser uma cópia do meu pai. Precisava respeitar o que ele construiu e, ao mesmo tempo, encontrar a minha forma de liderar”, garante.
Na região de Londrina existem muitas empresas familiares, em que a passagem de bastão é um processo inevitável. Por isso, Yoshii destaca como fundamental fomentar eventos como o promovido pelo IBGC. Apesar de cada família viver os desafios da sucessão de maneira particular, algumas questões são comuns para todos, como a governança, a profissionalização, a relação entre família e empresa e a formação das próximas gerações.
“Governança é muito mais eficiente quando implantada antes de existir um problema. Costumo dizer que uma boa governança diminui a dependência das pessoas sem diminuir a importância das pessoas. Ela ajuda a construir uma organização capaz de atravessar gerações”, afirma.


Jéssica Sabbadini
Repórter com atuação na cobertura local.




